“PRECISAMOS USAR MAIS HUMOR COM OS POLÍTICOS”

“PRECISAMOS USAR MAIS HUMOR COM OS POLÍTICOS”

Sonia Racy

02 de julho de 2012 | 10h50

LUCIANA PREZIA

Em cartaz com A Família Addams, Marisa Orth disserta sobre… quase tudo

Marisa Orth venceu o preconceito, as limitações e o pé atrás que tinha com musicais para encarnar a lendária Mortícia de A Família Addams, espetáculo em cartaz no Teatro Abril. A preparação do papel, ela conta, exigiu muito mais do que os tradicionais laboratórios: “Uma coisa é ensaio, outra é lavagem cerebral. Eu passei pela segunda”, diz, enquanto relata os dois meses de trabalho – dez horas por dia –, com aulas de canto, dança e cena.

A atriz recebeu a coluna para um bate-papo em sua casa, no Alto de Pinheiros, em SP. Entre reflexões sobre o humor e relatos da experiência de trabalhar, pela primeira vez, com uma produção americana, dividiu opiniões políticas: “Nunca faria propaganda, porque vivo da credibilidade do meu rosto. Votar é realidade, e eu não vou usar minha cara para dizer que vai diminuir bandido na rua, se não sei se isso vai ou não acontecer”. Jogando luz sobre o Ministério da Cultura, também não tira os pés do chão: “Não existem grandes diferenças de um ministro para o outro. Não chegamos nessa esfera. Ainda estamos na esfera policial. Quando sairmos da vara criminal, poderemos ter essa sofisticada e adorável discussão sobre que linha política devemos seguir”.

Abaixo, os melhores trechos da entrevista.

É a primeira vez que você participa de um musical nesses moldes americanos. Ficou nervosa?

Não, porque eu não estava pensando em fazer. Tinha pé atrás, um pouco de preconceito. Também não acreditava que era boa para esse tipo de espetáculo. Mas o pessoal já tinha visto muito meu material. E aí rolou.

Como você venceu o preconceito e topou fazer?

Foi muito legal. Quando penso que não passava pela minha cabeça, não acredito. Porque está mudando a minha vida. Estou amando.

Fala-se muito no profissionalismo dos americanos.

São mesmo muito profissionais. Eu brinco que uma coisa é ensaio, e outra é lavagem cerebral. Eu passei pela segunda. Foram dois meses, dez horas por dia, meia hora de intervalo no almoço, uma folga por semana. Não tem conversa. Todo tempo é tempo. E é tudo profissional, cheios de “could you please”, não tem uma voz que se levanta. Não teve nenhum momento de “italianada”, sabe? Nem tempo para dar piti.

Adaptou-se bem a isso?

Fiquei apaixonada pelo profissionalismo. Muitas vezes, reclamei, porque eles são muito rígidos. Mas o barato do musical é exatamente isso: exatidão. Tem outros espetáculos “cult” que eu faço, em que a graça reside exatamente na inexatidão, no improviso.

Você era familiarizada com musicais? Assistia?

Na infância. A Noviça Rebelde a gente viu no Guarujá seis vezes, eu e minha amiga Laurinha . Mas, com o tempo, minha formação foi muito diferente. Peguei uma fase muito punk, rock’n’roll. Música brasileira, Caetano, Gal. Minha família era assim. Meus pais não eram babões de musical. Eram extremamente cultos. Acho que, por isso, virei artista. Porque via a alegria com que eles chegavam em casa depois dos programas culturais. Discutindo.

E a Mortícia?

Aí que tá. Foi a Mortícia que me fez decidir. Eu toparia fazer esse personagem nem que fosse em comercial de absorvente. Não se recusa esse papel. Ela é muito arquetípica. E eu pensava: ela é magra, isso vai me ajudar a emagrecer (risos). Foi um baita desafio. Porque é mais fácil fazer comédia com muitos gestos, gritos, agudos. Ela tem poucos sons, fala grave. Precisa ser exata. Acertar as piadas, se mantendo chique, engraçada e fina.

O que usou para construir o personagem?

Viajei nela. Pensei que tinha uma coisa travesti, uma “dragona”. Sabe dessas drags que são mais finas do que mulher? Também usei a referência de um polvo. Comecei a achar que ela era um “moluscão”. Isso também me ajudou. A coisa roxa e branca, meio uma “Úrsula” do desenho A Pequena Sereia, sabe? Só que magra. Uma mistura de travesti com polvo.

Não chegou a usar referências do cinema?

Só dos quadrinhos. Fiquei com medo de copiar a Anjelica Huston, então, só assisti depois. E acho ela um pouco rígida. É americana, né? Na minha opinião, os Addams são latinos na América. Eles têm cabelo preto, aquele cemitério. É por isso que os americanos acham macabro. O cemitério protestante tem aquela lápide pequena e acabou. O católico é assustador. Tem anjos, cruzes… Além do que, eles vivem todos juntos, como uma grande família latina. Não tem essa coisa de americano, que o filho faz 18 anos e sai de casa. Por isso, eles acham tão diferente.

Sua formação em Psicologia te ajuda nesse processo?

Sempre. Minha maneira de ver o mundo é psicológica. Tem gente que prefere o viés sociológico ou o antropológico. Na hora de construir um personagem, já quero logo saber como era a mãe dele, se apanhava na infância. E não se era bolchevique, menchevique…

Você afirmou que, na risada, todo mundo é igual. Como?

Busco coisas em que as pessoas se equivalem. Situações nas quais todo mundo se encontra. A risada é uma delas. Assim como o sexo, a morte e o amor. Uma pessoa apaixonada é sempre uma pessoa apaixonada. Com 12 anos ou 95, na favela, no convés de um iate. E o riso também. A graça da arte se dá nesses temas que diminuem as diferenças.
Existem muitas polêmicas sobre o humor atual, com episódios como o do Rafinha Bastos.

Para você, qual o limite do humor?

Não ter graça.

Mas você nunca sofreu acusações de ser desrespeitosa. Como acha esse equilíbrio?

Não fico falando mal dos outros para fazer graça. Você tem de pesar quanto vai machucar ou provocar risos com a piada. Se for doer muito, esquece. Posso até fazer uma personagem que é a sua cara e aí você se identificar. Se você se identificar com a Magda, o problema é seu. Vai estudar.

Mas e a história do “politicamente correto”? Em algum momento você já deve ter lido um texto e pensado que poderia soar um pouco preconceituoso.

Sim, muitas vezes. Mas sou contra a censura. Existem coisas que são de mau gosto, mas engraçadas. Dói, mas você ri. Aí, a graça é legítima. Mas tem coisas que são só violentas. Daí, não tem graça. Acho que o Brasil tinha de ser mais livre. A gente ainda tem alguns resquícios da ditadura. Temos medo, principalmente quando o assunto é política. Acho admirável, nos EUA, eles fazerem clone do Bush. Precisamos usar mais humor com os políticos. Ainda não está claro para os brasileiros que os políticos são funcionários públicos e que é nosso dever fiscalizá-los. O juiz do Cachoeira ser ameaçado de morte, por exemplo, é um absurdo. Este é o País onde vivemos. Isso atrapalha tudo, inclusive o humor.

Você nunca fez propaganda política. Por quê?

Nunca faria. Porque vivo da credibilidade do meu rosto. As pessoas acreditam em mim, na ficção que eu faço. Votar é realidade, e eu não vou usar minha cara para dizer que vai diminuir bandido na rua, se eu não sei se isso vai acontecer. Quando me convidam para fazer propaganda, eu peço ‘nem fale a grana’ e desligo – para não ficar tentada (risos). Gostaria de fazer sem aceitar dinheiro. Mas estou esperando me apaixonar pela proposta de um político de um partido e realmente fazer com o coração.

Como avalia nosso panorama político atual?

Acho muito obscuro. Não vejo partidos claramente definidos. Ainda não consigo falar que um partido é melhor que o outro. É uma zona.

E a atuação da ministra Ana de Hollanda?

Eu a conheço pessoalmente e acho que é uma pessoa transparente e bem intencionada. Agora, quanto à estrutura, os assessores, a ingenuidade e a burocracia, eu não sei. Gosto dela pessoalmente. E acho que a cultura, mal e mal, está indo. Não existem grandes diferenças de um ministro para o outro. Não chegamos nessa esfera. Ainda estamos na esfera policial. Quando sairmos da vara criminal, poderemos ter essa sofisticada e adorável discussão sobre que linha política devemos seguir.

O que quer dizer quando fala que o comediante não tem fé na humanidade?

Falo isso sempre por causa da mania que o povo tem de dizer que eu sou muito alto astral, para cima… Não é bem isso. Sou animada, mas quem trabalha com comédia geralmente tem uma visão mais crítica do mundo. Batesse um papo com o Chico Anysio para você ver… Era engraçado, mas ácido. A comédia tem um quê de decepção com o ser humano.

Você também já disse ter inveja da Magda.

Ah é, né? A Magda era muito leve, muito burra, muito feliz… A ignorância traz um relaxamento de superego. É menos repressão, sexualidade solta, emoção solta. Ela era muito carinhosa. Capaz de se apaixonar por qualquer coisa. Era disso que eu tinha inveja nela.

Não tem vontade ser diretora?

Tenho. Mas ainda não consigo. Eu morro, fico louca querendo entrar no palco. Sou muito palpiteira. E isso foi um grande aprendizado com A Família Adams. Porque, com os americanos, não se palpita. Eu queria falar e eles diziam: “From the top” (imita o gesto da maestrina no piano). Foi uma super diferença para mim. O brasileiro pega tudo muito rápido, mas a gente não acaba. Falamos “a gente já entendeu” e eles dizem “ok, então vamos repetir?” Para o americano, não interessa que você já pegou, tem de repetir. E isso é bom, porque a peça fica perfeita. /MARILIA NEUSTEIN

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