‘Precisamos nos cuidar bem sempre’, diz endocrinologista e clínico Jairo Hidal

Sonia Racy

20 de maio de 2021 | 00h45

Com intuito de ajudar em tempos de pandemia, vai aqui depoimento para a coluna dado por Jairo Hidal – endocrinologista e clínico-geral há mais de 40 anos: 

 “Com frequência, pessoas me perguntam sobre o que podem fazer a mais para não sucumbirem a este SARS-CoV-2. Obviamente, para além das medidas plenamente divulgadas, como isolamento social, máscara e álcool gel, com as quais concordo plenamente. Creio haver uma dimensão a qual tem sido dada pouca ênfase e que praticamente todos poderiam seguir e que é relativamente barata: Se cuidar bem. 

 Um trabalho publicado recentemente na prestigiosa revista médica britânica The Lancet cita que, dos 250 mil primeiros casos ocorridos no Brasil, houve mortalidade próxima de 80% entre os pacientes intubados. Pois bem, a mesma revista publicou, também, em outra edição, um artigo sobre a variação mundial da mortalidade pós-operatória de pacientes com câncer. Em países pobres e emergentes, a mortalidade foi quase o dobro daquelas dos países ricos. 

 A parte intrigante deste estudo sobre o câncer é a que relata que 60% desta mortalidade excedente está relacionada a causas próprias dos pacientes e não da qualidade dos sistemas de saúde.  

 Explico: pacientes que tinham suas comorbidades (hipertensão, diabetes, fumo, obesidade, etc.) melhor tratadas, os que estavam com suas vacinas em dia e aqueles com boa nutrição, aparentam apresentar resultados melhores. Isto é, cuidar bem vale a pena sempre; mas em momentos críticos, como o desta pandemia, pode ser o diferencial entre viver e morrer. É como empreender uma viagem por uma estrada ruim com um carro que não fez uma revisão. Ou com outro onde tudo está ok. 

 Sou parte de um grupo de médicos de família, que cuida dos mesmos pacientes há décadas. Atendemos algumas centenas de pessoas com SARS-CoV2, com gravidades distintas e tivemos resultados muito melhores do que os descritos na literatura. Sem usarmos algum remédio mágico e seguindo os protocolos descritos na mesma literatura. Estes pacientes estavam bem cuidados em todos os fatores citados acima. E escuto relatos idênticos de colegas que têm prática assemelhada a nossa. 

 Existem alguns indícios (atenção, não é rocket science) que pessoas mais bem cuidadas e bem vacinadas (com as vacinas do cotidiano) estão sendo menos afetadas por este vírus (não há nenhuma recomendação que alguma destas vacinas proteja contra o SARS-CoV-2).  

 Sempre pergunto aos pacientes que me procuram se eles sabem qual é a diferença entre a galinha e o porco no ovo com bacon? A galinha está envolvida, pois botou o ovo. O porco, por sua vez, está comprometido, pois precisou morrer. Para se ter uma vida longa e saudável são necessários vários elementos, mas um dos fundamentais e que está ao nosso alcance é o comprometimento com a saúde. Segundo Millôr Fernandes, “a gente só morre uma vez, mas é para sempre.”

Tudo o que sabemos sobre:

jairo hidaldepoimentocovid-19

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.