‘Precisamos da reforma administrativa antes da tributária’, diz Carlos Jereissati Filho, do Iguatemi

‘Precisamos da reforma administrativa antes da tributária’, diz Carlos Jereissati Filho, do Iguatemi

Sonia Racy

05 de outubro de 2020 | 00h30

CARLOS JEREISSATI FILHO

CARLOS JEREISSATI FILHO. FOTO: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

O Brasil espera, há mais de 30 anos, por uma reforma tributária equilibrada – o que nunca se concretizou. Agora, o governo Bolsonaro corre atrás da votação ainda este ano de projeto de lei montado pelo Executivo. Carlos Jereissati Filho, presidente do Grupo Iguatemi, defende a aprovação da reforma administrativa antes da reforma tributária. “O governo precisa definir suas despesas antes de contabilizar seus gastos”, diz o empresário, frisando que o seu setor foi um dos mais atingidos pela pandemia. “Querer jogar mais carga tributária justo nos setores mais atingidos é uma maluquice”, destaca, emendando: “Fazer a reforma tributária nesse momento, sem a administrativa, é uma completa alienação, um erro”.

Por outro lado, a recuperação dos 17 shoppings do grupo surpreendeu positivamente: a média de vendas no último mês registra 80% na comparação com o faturamento pré-pandemia. Aqui vão os melhores trechos da conversa.

Como está sendo a abertura dos shoppings?
Tivemos fase de 4 horas, de 6 horas e de 8 horas. Retornamos ao trabalho com 40% do montante de vendas anterior à pandemia. Quando passamos para 6 horas, fomos para 60% e hoje estamos com mais de 80% do volume de venda de antes da covid-19.

Nossa, não tem do que reclamar, né?
As pessoas já estão circulando mais, circulando seguros, mas circulando mais. Abrimos para almoço e o jantar. A expectativa é que São Paulo vá pra fase verde e que você possa ampliar um pouco mais o horário. Vários estados e outras cidades já estão com horários maiores, como o caso do Rio. A vantagem é que as pessoas não estão viajando para fora. Portanto, temos muitas marcas, principalmente as estrangeiras, apresentando crescimento real, de 120%. Essas marcas internacionais mantiveram o preço do dólar ou euro e o cliente pode pagar em dez vezes.

 O governo Bolsonaro deu o apoio necessário durante a pandemia? Tomou decisões acertadas?
Todos os governos, federal, estadual e municipal foram lentos para ajudar os negócios. Foram mais rápidos para ajudar as pessoas, mas demoraram no auxílio aos setores mais afetados. O Brasil e o mundo não estavam preparados. E poucos tiveram capacidade de resposta. Apanhamos um bocado, mais que outros países.

Vocês usaram alguma linha de financiamento do governo?
Utilizamos, como todo mundo, o ajuste em questões de jornada de trabalho. Mas financiamento, principalmente para o varejo brasileiro, foi uma catástrofe. Quem financiou o varejo brasileiro fomos nós, foram outros setores vinculados ao varejo, não foi o governo. O governo entrou bem atrasado, foram quase três, quatro meses depois. Agora, tem um mês e pouco que lançaram linhas. Mas demorou demais.

Como foi que vocês ajudaram o varejo?
Nós isentamos alugueis, por exemplo. Com isso, demos o maior aporte de capital de giro. Foi algo jamais visto. Estou falando de toda a indústria de shoppings que, ao isentar o aluguel 100%, e reduzir os condomínios, deu a injeção para o varejo ficar de pé. Demos fôlego para quem estava se afogando. A ajuda do governo foi genérica. E agora, vejo com preocupação, a reforma tributária no Brasil.

A reforma tributária ajuda?
Dá até para discutir, mas nesse momento, em que os negócios foram afetados, você querer jogar mais carga tributária, justo nesses setores, é uma maluquice. A reforma tributária nada mais é do que um rearranjo de carga e de setores e os mais afetados estão com ameaça de ter suas taxas ampliadas. Fazer a reforma tributária nesse momento, ampliando a carga de setores que foram mais afetados, é uma completa alienação, um erro.

O governo não pode ajudar esses setores se a reforma passar?
Não. Porque o governo não tem dinheiro. A conta é exatamente essa, não existe uma redução tributária e a reforma não será neutra. O governo precisa fazer a administrativa antes. É um erro grande querer mexer em receitas antes de mexer em despesas. E o problema do governo brasileiro é despesa.

A população tem consciência disso?
No meu modo de entender, a maior batalha que está se travando hoje no Brasil é a disputa entre a sociedade civil e os governos. A sociedade não aguenta mais a quantidade de recursos colhidos por meio de pagamento de impostos que não voltam, ficam empossados em salários.

A reforma administrativa deveria ser a prioridade?
Ela primeiro. O governo tem que fazer o ajuste da sua casa, dizer qual é a sua despesa, para ver que receita precisa. Essa é a lógica.

Qual a real chance disso acontecer?
Olha, não dá mais para esconder, para jogar informação debaixo do tapete. As pessoas conhecem a realidade. Mexer nisso é fundamental para o Brasil voltar a crescer. Temos que fazer a reforma administrativa e na sequência, fazer a tributária já com a indicação da necessidade real de receita para o Estado fechar suas contas. Não existe mais privacidade, não dá pra você fingir que é uma coisa e ser outra. Porque hoje em dia, com todos esses meios de comunicação, você tem que ser uma pessoa só, ser verdadeiro e claro, porque as pessoas sabem das coisas.

 De que maneira empresários como você estão acompanhando isso?
A sociedade organizada, por meio de associações, está bastante atuante, as pessoas estão bastante interessadas. O Brasil sabe bem quais são os seus problemas, sabe bem quais são as soluções. Mas leva muito tempo. Outros países avançam com maior velocidade e acabamos ficando para trás, porque somos incapazes de tomar as decisões corretas no tempo certo. Foi assim com a inflação, por exemplo. Discutimos por 20 anos o problema e não se tomava uma decisão. Até que o Fernando Henrique resolveu. O Brasil sabia da necessidade da reforma da previdência e levou 20 anos discutindo. E quantos anos a mais pra fazer a reforma administrativa para poder voltar a crescer. O Brasil sabe que a arrecadação, só para pagar salário, não funciona mais. Isso é verdade nos municípios, nos estados, na União. Tem que reformar isso e voltar a prestar serviço de qualidade. Ter capacidade de investimento para voltar a crescer.

Por que essa morosidade histórica no Brasil? Falta de cidadania, de consciência do poder que o eleitor tem?
Baixa escolaridade da população. Políticos sabem que a população não entende os problemas com clareza e se utilizam disso há anos para adiar decisões. O Brasil só toma uma decisão quando está prestes a quebrar. De verdade, quem realmente se preocupa com o País, defende a melhoria da educação, porque é ela que permite compreensão dos problemas reais e ajuda a pressionar decisões rumo ao que é certo. Esse é o grande debate verdadeiro, as pessoas que se preocupam com educação querem a liberdade de quem vota. Querem melhorar a capacidade de tomada de decisões, pressionando na direção correta.

Ouço, há anos, que este deveria ser o caminho. O que impede?
Justiça seja feita, a educação foi sim universalizada, mas ainda não é verdadeiramente de boa qualidade. O desafio é ter uma educação efetiva. Porque não adianta nada você comemorar que o cara tem sala de aula, tem escola, professor, merenda, se em classe ele acabar não aprendendo nada.

Seis meses de quase paralisia é bem impactante. Como foi o processo de reprogramação financeira do grupo?
Não ficamos seis meses parados. Ficamos sim 70 dias fechados. Hoje as pessoas estão mais decididas. Entram e sabem o que vão comprar. Ou vão para almoçar. Todos de máscaras, evitando o que acontece na rua. Também operamos o tempo todo com vendas online, concentradas no site 365, um sucesso.

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