‘Precisamos acolher as vítimas de assédio’, diz Marcelo Adnet

‘Precisamos acolher as vítimas de assédio’, diz Marcelo Adnet

Sonia Racy

02 de novembro de 2020 | 00h50

Marcelo Adnet. Foto: Sérgio Zallis / TV Globo

Marcelo Adnet está no centro das atenções. Cotado para assumir a direção do núcleo de humor da TV Globo, no lugar de Marcius Melhem, ele rejeita a ideia: “Não quero. Tipo assim, pavor”. Ele diz ter vocação para criação não para escritório. Melhem foi desligado da emissora depois de ser acusado de assédio sexual primeiro pela ex-mulher de Adnet, Dani Calabresa, em dezembro passado e recentemente por outras vítimas. Questionado sobre o que sabe das acusações, Adnet afirmou: “Prefiro não dar detalhes. Estaria expondo as vítimas, mas presto todo meu apoio e solidariedade a elas”. Ele mesmo já tratou abertamente sobre tentativas de assédio que sofreu na infância: “O único recado que posso dar é que é muito difícil falar porque as vítimas são atacadas, não só no ato mas depois também”. Defende que a sociedade ajude essas pessoas. “Precisamos acolher as vítimas de assédio.”

 Na pandemia do novo coronavírus, conseguiu se manter ainda mais produtivo. Fez 110 episódios do programa Sinta-se em Casa parodiando políticos e celebridades, veiculado pelo Globoplay, gerando incômodo e até reações agressivas de Mario Frias, ator e secretário especial da Cultura. O humorista satirizou a peça publicitária do governo federal, protagonizada por Frias, sobre heróis do Brasil, lançada em comemoração ao 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil.  

 Durante a crise sanitária com todos os cuidados, também gravou os improvisos do personagem Rolando Lero na Escolinha do Professor Raimundo. Agora finaliza o seu primeiro longa Nas Ondas da Fé, do qual foi responsável pelo argumento, além de encarnar o personagem do Pastor Rickson. E se prepara para ser pai pela primeira vez. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida à repórter Paula Bonelli por videoconferência. 

O que pode falar sobre as acusações contra Marcius Melhem?

Prefiro não dar detalhes porque estaria expondo as vítimas, mas presto todo meu apoio e solidariedade a elas. 

Você já disse que foi assediado na infância, considera importante falar sobre isso? 

O único recado que eu posso dar é que é muito difícil falar porque as vítimas são atacadas, não só no ato mas depois também. Elas são questionadas, postas em dúvida e é por isso que muitas vezes esse tipo de caso pode passar despercebido. Devemos, enquanto sociedade, estar preparados para acolher essas pessoas. Precisamos acolher as vítimas de assédio.

Você está sendo cotado para assumir o cargo de diretor de núcleo de humor da Globo? 

Não estou não. Estou fora. Não tenho que estar em escritório. Tipo assim, pavor. Nada contra, alguém tem que fazer esse papel. Simplesmente ver meu nome ser citado para isso, que honra, que legal. Mas não acho que seja onde eu deva estar. Tenho que sim lutar para exercer a minha vocação.

É mais fácil fazer humor sobre política no Globoplay do que na TV Globo?

Sim, porque a grade da TV Globo é muito concorrida, tem mais pré-requisitos a cumprir. Já no Globoplay é possível ser mais experimental, portanto, tira um pouco das cobranças institucionais e comerciais. 

O secretário Mario Frias não gostou da paródia da campanha sobre heróis do Brasil. Como avalia quando o alvo não gosta?

Acho que, primeiro, tudo dentro do jogo democrático. Segundo, mostrou que o Mario Frias sentiu muito aquele esquete. Era uma paródia, o País está num momento tão complicado e ele tomar seu tempo de secretário da Cultura para responder agressivamente a uma paródia é algo ridículo. Porém, não nos surpreende, já é algo que a gente até espera. Quando a Secom (Secretaria Especial de Comunicação) da Presidência da República ainda faz um “super fio”, uma resposta longuíssima no Twitter, aí acho que chegou no ponto do engraçado. [A Secom saiu em defesa de Frias e acusou o comediante de desrespeitar o povo brasileiro com a sátira]. Primeiro do mau uso da verba pública, da energia, de tempo, isso é errado, a gente tá pagando a Secom para ela fazer isso? 

E quando dizem que você pega mais pesado com eles do que com outros partidos?

Diria que eu sou um ser humano, não sou uma instituição que tem o dever de ser equânime ou de fazer a mesma piada com todos. Falo de certo político quando há pauta sobre ele. É um argumento que não dialoga com o mundo real. Se o presidente fala uma besteira sempre que ele abre a boca, a culpa não é minha, é dele. Quando ele se calou por um tempo eu parei um pouco de imitá-lo. Comecei a falar das blogueiras, falando besteira. Eu pego a bola que está quicando. Então, eles é que me dão material, não eu que vou buscar alguma coisa.

Você critica a Globo por meio do humor de uma forma inédita.

É, isso foi bem discutido, bem negociado. Acho que o Tá no Ar abriu essa porta bastante com aquele personagem militante do Recife, revoltado, que sempre descia o pau na Globo por teorias da conspiração…Hoje esse militante é de extrema direita, não mais de esquerda. Quem diz que a Globo é isso, é aquilo, hoje é um cara de direita. A minha militância pela autocrítica [da emissora] é que acho super engraçado. É legal brincar com aquele material que te cerca, ao invés de fingir que ele não está lá. Brinca com ele, balança ele para um lado e para o outro. Ele pode tanto se dissipar quanto piorar e alguém dizer: “Olha, você está jogando mais luz nele”. E daí? 

Por que você topou ser carnavalesco da 3ª divisão do carnaval carioca? 

O presidente da Botafogo Samba Clube me convidou para escrever o samba-enredo sobre o João Saldanha. É uma voz que faz muita falta, usava o seu privilégio para enfrentar as coisas sem conceder nada, por isso saiu da Seleção Brasileira em 70. Ele era o treinador, brigou com a ditadura militar. Então tem todo esse lado do samba que eu estou vivendo agora que é muito importante. Venci quatro sambas-enredo de escolas em SP dos seis que disputei como coautor, para o próximo carnaval: Gaviões da Fiel, Dragões da Real, Rosas de Ouro e Leandro de Itaquera. 

O nascimento da sua filha aumentará sua criatividade

Vai aumentar. Eu vou aprender muito com ela e vai despertar muito amor. É com certeza mais saudável do que lidar com as notícias do Brasil. Ficar antenado demais hoje no Brasil faz mal. 

Quais foram os bastidores do Sinta-se em Casa gravado apenas com a ajuda da sua mulher?

Só usava o que tinha em casa. Passava talco na cabeça quase todo dia pra dar uma grisalhada. Era a minha maquiagem. A luz era natural quase o tempo todo. Usava objetos como adereços, por exemplo, o microfone do Faustão era um pegador de macarrão, o fone do Galvão Bueno era um arco de cabelo com uma escova de dente pendurada. Tudo isso só com um celular na mão, era muito simples. A gente pensava que a pandemia ia durar uns dois meses e no final a gente fez cinco meses. Foi um trabalho exaustivo, como a gente não tinha ajuda de ninguém, as roupas ficavam espalhadas pela casa. 

O Sinta-se em Casa continua?

Vamos fazer alguns episódios especiais, pelo menos três até o fim do ano. 

O que vai ter pra você na Globo daqui pra frente?

Acho que tudo. Quando termina um projeto, não fico chateado. Acho que é nascer, morrer, renascer. Fez, por exemplo, seis anos de Tá no Ar; 110 episódios de Sinta-se em Casa; seis temporadas da Escolinha, acho até que cabem mais, mas caso contrário, poxa, foram muitas. Está ótimo. 

Já tá decidido qual é o seu próximo programa?

Ainda não. Vamos criar um programa juntos. Não gosto da ideia de ser meu, acho que é o momento de atuar em grupo. Tem mais potência em grupo.

Conte sobre o humor que não te agrada.

Eu acho sem graça humor de pegadinha quando tem alguém na rua fazendo uma brincadeira. Porém gosto de Videocassetadas, pessoa escorregando, caindo, ok, eu rio. Tenho certa preguiça de humor internacional, não se aplica a nossa realidade, embora ame Peter Sellers. Acho muito mais interessante Hermes e Renato, TV Pirata, Casseta & Planeta, Chico Anysio, Trapalhões…

Está finalizando o seu primeiro longa? 

É o primeiro filme que eu fiz o argumento, o texto. Chama-se Nas Ondas da Fé. Interpreto um garoto do subúrbio do Rio de Janeiro que tem uma mulher muito ambiciosa, articulada e evangélica. Ela me leva no culto toda manhã, eu sou meio desinteressado, ela me arranja um bico na rádio da igreja. Começo uma carreira meteórica como pastor evangélico. Então não é um “comedião” pra morrer de rir, é uma história. É um filme que tem situações bem engraçadas, curiosas, cômicas também. Ainda demoram alguns meses até a gente lançar o filme. 

E os outros personagens?

Quem interpreta a minha esposa é a Letícia Lima. Quem faz o cara da rádio que me contrata é o Otávio Muller. O pastor chefe, o apóstolo, é o Tonico Pereira. Temos também a mulher que me dá aula, que me instrui para o evangelismo, que é a Elisa Lucinda. É um grande elenco, temos vários comediantes fazendo papéis, como o Gregório Duvivier e o Fernando Caruso. A minha esposa Patrícia também faz uma participação.

A sede do Porta dos Fundos foi atacada com coquetel molotov. Como avalia essa violência?

Não sou uma pessoa violenta, sou da paz. Podemos até ser  veemente nas nossas palavras, nas nossas posições.  E, claro, alguém jogar uma bomba num grupo de humor é uma coisa descabida. É muito grave. Agora, eu não vou sozinho mudar a cabeça de milhões de pessoas. Acho que é um processo que pode ser longo.

O seu filme vai abordar o tema dos evangélicos?

É, mas não com o desrespeito, apenas com o tema. Não é uma tiração de sarro… É apenas uma história com situações bem engraçadas e curiosas.

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