Por ser uma atividade de corpo presente, o teatro provoca embates

Por ser uma atividade de corpo presente, o teatro provoca embates

Sonia Racy

24 de junho de 2013 | 11h37

Foto: Iara Morselli/Estadão

Em cartaz com a peça A Dama do Mar, no Sesc Pinheiros, a atriz e diretora Lígia Cortez fala sobre o panorama teatral brasileiro e relata a experiência de trabalhar com Bob Wilson.

Lígia Cortez arranca, há pouco mais de quinze dias, aplausos do público no Sesc Pinheiros. O motivo é sua atuação em A Dama do Mar, de Henrik Johan Ibsen – peça adaptada por Susan Sontag e dirigida por Bob Wilson, que fica em cartaz em São Paulo até o dia 7.
O diretor norte-americano está em um relacionamento sério com o Brasil desde o ano passado, quando começou a trazer seus espetáculos para cá. A Dama do Mar foi o primeiro realizado com atores brasileiros. Para Lígia, a experiência foi intensa. A preparação da personagem Élida exigiu da atriz oito horas diárias. “Foi um processo diferente do que eu estou acostumada”, conta. “Mas tem sido maravilhoso.”
O desafio de interpretar o papel moveu a atriz a mergulhar em reflexões colocadas pelo autor. “A peça aborda a questão de um desejo de liberdade que é universal”, diz. “Élida é uma mulher desambientada, que não foi aceita. Ninguém se debruçou sobre o universo dela, ela que tinha que se adaptar”.
Além de atriz e diretora teatral, Lígia também é diretora artística da Escola Superior de Artes Célia Helena, do Célia Helena Teatro-escola e da Casa do Teatro. “Sou uma pessoa do teatro. Meus pais foram atores”, ressalta, lembrando o legado de seus pais, Raul Cortez e Célia Helena.
Uma das principais educadoras da área teatral do País, ela acredita que é preciso ter uma política cultural para esse incentivo: “As universidades públicas, em todo o País, estão abrindo um departamento de artes cênicas. Isso vai mudar, a médio prazo, todo o panorama cultural no Brasil”, explica. E defende: “O teatro mexe com estruturas. Nesse sentido, acho que mantém uma linha, sim, de contravenção, mas também tem uma linha muito forte: a de que o ser humano precisa ouvir histórias. E quando uma história é bem contada ao vivo, ninguém esquece. É muito difícil esquecermos de uma peça de teatro boa”.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Ibsen escreveu a peça em 1887. Susan Sontag adaptou para a década de 90. As questões apresentadas no texto, sobre os conflitos do casamento, o desejo de liberdade, o senso de família ainda assombram as mulheres?
Lígia Cortez: Muito. Acho que a peça trata de um desejo de liberdade que é universal. Esse sentimento talvez não exista, senão na forma de desejo. A liberdade é algo bem discutível, mas a questão da mulher ainda está muito presente como um conflito. As mulheres conquistaram muitas coisas, mas, em diversas situações, ainda são um apêndice social do homem. Falar sobre desejo também não é uma questão fácil para ninguém, tanto homens quanto mulheres. Acho que a peça, de alguma forma, aborda tudo isso de uma maneira bastante profunda.

O conflito de sua personagem, Élida, é recorrente em várias obras literárias e cinematográficas. Você acredita que o desejo na figura da mulher reflete algo pejorativo?
Lígia Cortez: Muitas vezes. Realmente tem uma coisa extremamente pejorativa quando entra nessa relação com a mulher. Às vezes – a peça fala um pouco disso também –, a questão com que o homem precisa manifestar o seu poder. Élida é uma mulher desambientada, que não foi aceita. Ninguém se debruçou sobre o universo dela, ela que tinha que se adaptar.

Como foi a preparação para interpretar esse papel?
Lígia Cortez: Foi muito intensa e diferente do que eu estou acostumada. Além disso, a parte coreográfica é essencial para o Bob – a limpeza, a rigidez de movimentos. Foram oito horas de preparação diária. Mas esta foi uma experiência maravilhosa. Porque ele é um diretor que deixa o ator trabalhar.

E a sinergia do elenco?
Lígia Cortez: Demais. Eu já conhecia alguns integrantes do elenco. Todos têm uma trajetória enorme no teatro. Então, foi criativamente muito intenso.

Bob Wilson tem desenvolvido e apresentado muitos trabalhos no Brasil. Há uma tendência de diretores estrangeiros virem para cá mostrar sua arte?
Lígia Cortez: Antigamente tínhamos poucas oportunidades de ver coisas estrangeiras. Hoje temos o Sesc, que é um grande fomentador das artes cênicas em SP. Política cultural de nenhum governo fez o que Sesc faz.

Como foi o trabalho com ele?
Lígia Cortez: Eu já tinha visto muitas coisas do Bob. Isso me deu uma sensação engraçada, de que eu já o conhecia. O artista, às vezes, se coloca tanto, que a gente se sente um pouco íntimo dele. O trabalho foi muito bom. Entramos em uma sintonia ótima. E meu trabalho é diferente, venho de uma linha de muita interioridade. Então, quando me chamaram para o teste eu pensei: “será?” Mas foi um encontro maravilhoso.

Gostar de teatro é uma questão de educar o olhar?
Lígia Cortez: Totalmente. Quem nunca foi ao teatro nunca vai “precisar ir”. Cultura é algo que você passa a precisar depois que tem um contato com ela.

Você acredita que ainda existe, no Brasil, um estereótipo do teatro como uma arte considerada “marginal”?
Lígia Cortez: Existem duas vertentes: o teatro enquanto linguagem artística – que pode trazer muito crescimento na formação de uma pessoa. E, neste sentido, existir uma formação sólida é fundamental, que proporcione a parte técnica e conceitual. É essa preocupação que temos na faculdade. A outra questão é artística. O teatro lida com coisas que são novas, que são caóticas. O teatro desorganiza. E, por ser uma atividade de corpo presente, existe um embate, que muitas vezes pode ser de ideias, ou político, ou de questões de comportamento. Não há como dizer que o teatro não é uma arte.

Provocativa.
Lígia Cortez: Exatamente. Que mexe com estruturas. Acho que mantém uma linha, sim, de contravenção. No entanto, também tem uma linha muito forte: a de que o ser humano precisa ouvir histórias. Quando essa história é bem contada ao vivo, ninguém esquece. É muito difícil esquecermos uma peça de teatro boa. A gente esquece filme, mas peça nunca.

Fala-se muito nos preços dos espetáculos. O que você acha da meia-entrada?
Lígia Cortez: Há um abuso da meia-entrada, que faz com que todo mundo pague um preço. Por conta disso, o ingresso fica mais caro. É tanta meia-entrada que a meia-entrada vira quase o valor do ingresso. Acredito que, antes de discutir isso, temos que levantar a dificuldade que é sustentar um espetáculo sem apoios. Precisamos de uma política cultural de governo, de novos espaços, de novas propostas. Hoje o espetáculo tem que estrear pago, senão toma prejuízo.

E o que acha da nossa política cultural voltada para o teatro? Existe algum formato de incentivo que poderia ser implementado no País?
Lígia Cortez: Acho que tem coisas muito boas acontecendo. A Lei do Fomento, por exemplo, fez com que muitos grupos novos aparecessem. Entretanto, a verba destinada à cultura ainda é muito baixa. É necessário um incentivo aos grupos que estão começando. Em São Paulo, acredito que faltem espaços públicos, teatros bem cuidados. A boa perspectiva é que universidades públicas, em todo o País, estão abrindo um departamento de artes cênicas. Isso vai mudar, a médio prazo, todo o panorama cultural no Brasil.
/MARILIA NEUSTEIN

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