‘Políticos que pensam diferente devem conversar’, diz Gabriel Chalita, que armou encontro entre Lula e Alckmin

Sonia Racy

29 de novembro de 2021 | 10h49

Foto: Fabio Guinalz

Gabriel Chalita está no páreo para entrar no seleto grupo de membros da Academia Brasileira de Letras, a casa fundada por Machado de Assis para cultuar a língua e a literatura nacionais. Autor de 90 livros de diversos gêneros, ele explica a razão da sua escrita: “Escrevo, modestamente, para ajudar meus leitores a ampliarem o repertório, a expandirem a mente e não terem medo das próprias emoções”, disse à repórter Paula Bonelli.

Aos 52 anos, o professor de Filosofia do Direito na PUC-SP concorre à cadeira número 2, vaga com a morte do intelectual Tarcísio Padilha. Disputa com ele, entre outros, o economista e escritor Eduardo Giannetti da Fonseca, que termina novo livro numa pousada em Tiradentes. A votação ocorre em 16 de dezembro.

E a política? Sem planos para entrar diretamente nas eleições de 2022, Chalita confirma que recebeu em seu apartamento, em Higienópolis, Geraldo Alckmin e Lula, em um encontro reservado no mês de julho. “Políticos que pensam diferente podem e devem conversar”, disse ele, que já foi tanto secretário de Educação de Haddad na Prefeitura como de Alckmin no governo do Estado. O petista e o tucano, que está de saída do PSDB, não descartam aliança no ano que vem.

A ABL se mantém importante na escolha dos melhores escritores como nos tempos da sua fundação?
A ABL é um patrimônio da língua portuguesa e do Brasil. Uma instituição centenária que tem tradição, respeito e prossegue na sua missão de congregar grandes escritores em defesa da nossa língua.

Como define a sua produção literária?
Não gosto dos rótulos. A literatura é livre, e livre é, também, a arte do pensamento. Escrevo, modestamente, para exercer o ofício de ser um instrumento que ajude meus leitores a ampliarem o repertório, a expandirem a mente e não terem medo das próprias emoções.

A política ajuda o escritor?
Infelizmente, não. Deveria ajudar, mas atrapalha. Deveria porque a política é a arte e a ciência do bem comum, na teoria. É a convivência do bem, do justo, do verdadeiro na polis, na cidade. Isso na teoria. A prática não reflete isso.

Pode voltar a concorrer nas eleições? Por quê?
Hoje, o que me realiza é exercer os ofícios de escritor e professor que abracei em minha vida. Professor é quem crê na pessoa humana. E, por isso, ensina e aprende. O escritor, igualmente, se alimenta de esperanças, de futuros para prosseguir escrevendo.

Você faz parte de uma inesperada aliança entre Lula e Alckmin. O que espera produzir com isso?
O Brasil precisa vencer o paradigma da não conversa, do radicalismo, do ódio. Políticos que pensam diferente podem e devem conversar. Assim como os intelectuais. As verdades absolutas são perigosas, geram pensamentos autoritários. Ou até ausência de pensamentos. O que eu puder fazer para ajudar a criar um clima mais saudável na política, na universidade, nas relações interpessoais, farei.

Vai organizar novos jantares entre os dois?
Tenho prazer em receber pessoas na minha casa. Já organizei muitos jantares para intelectuais, artistas, políticos, amigos.

Como surgiu sua amizade com Alckmin e dona Lu?
Conheci o Alckmin e depois a Lu, quando tinha 19 anos e eu era vereador e presidente da Câmara Municipal de Cachoeira Paulista. Somos amigos, desde então. Ele é um dos homens mais sérios, mais confiáveis que conheci na vida pública.

A filosofia ajuda a superar a polarização?
A filosofia é a amizade pela sabedoria e o cultivo do pensamento. Quem compreende o fascínio do existir opta pelo amor, não pelo ódio. Opta pelo diálogo, não pelo monólogo. Opta pela compreensão que o verbo viver e o verbo conviver não são verbos que podem ser conjugados separadamente. Esse momento de exagerada polarização vai passar.

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