‘Podemos treinar o cérebro para ser mais feliz’, diz Gustavo Arns

‘Podemos treinar o cérebro para ser mais feliz’, diz Gustavo Arns

Direto da Fonte

07 de fevereiro de 2022 | 05h00

Gustavo Arns. Foto: Diogo Alexandre/Vira Comunicação

Gustavo Arns. Foto: Diogo Alexandre/Vira Comunicação

A Ciência da Felicidade é compreendida como um campo multidisciplinar que engloba três pilares principais: a psicologia positiva, a neurociência e a ciência das emoções, explica o idealizador do Congresso Internacional de Felicidade, que já contou com quatro edições e a participação de palestrantes do Brasil e do mundo para abordar o tema “felicidade” em quatro aspectos diferentes: artístico, científico, espiritual e filosófico.

Segundo Arns, que também é professor de pós-graduação em Psicologia Positiva na PUC-RS e em neurociência, psicologia positiva e mindfulness na PUC-PR, a felicidade pode ser vista por dois ângulos: “individual e coletivo”, disse em entrevista por telefone à repórter Sofia Patsch. Confira a seguir.

O que estuda a Ciência da Felicidade?
A Ciência da Felicidade estuda duas vertentes: a felicidade individual – no âmbito subjetivo, como é que percebo a felicidade no meu dia a dia – e a felicidade coletiva – como é que nós, como sociedade, experimentamos a felicidade. A felicidade individual tem um valor muito baixo, as coisas podem estar bem lá em casa, mas quando olho pra fora, não deixo de me preocupar com as pessoas, com a classe econômica, com a polarização política, com a pandemia – e é claro que isso tudo afeta meu bem estar individual. Segundo definição do professor israelense Tal Ben-Shahar, a felicidade é uma combinação do bem-estar físico, emocional, intelectual, relacional e espiritual.

Entrando na questão da felicidade coletiva, como se manter feliz encarando uma pandemia há mais de dois anos?
Estamos vivendo um trauma coletivo, um luto coletivo, que só vai ser possível de ser compreendido daqui a uns dez anos. Os cientistas sociais têm dito que estamos vivendo um estresse pós-traumático semelhante ao do pós-guerra, mas ainda mais complexo, porque não conseguimos enxergar o inimigo a olho nu.

Muita gente descreve a felicidade como algo momentâneo. Concorda com isso?
As pessoas têm essa ideia de que a felicidade é subjetiva, abstrata, e hoje a ciência está mostrando que a felicidade vai muito além dos momentos felizes. Tem efeitos duradouros, mais profundos. O grande trabalho da Ciência da Felicidade é desmistificar a felicidade, justamente para que as pessoas possam compreender melhor o que ela é e se livrar de algumas ilusões, como a de que uma vida feliz é uma vida livre de tristezas. Isso é completamente irreal. A tristeza nos leva a reflexões profundas sobre nós mesmos, coisa que a felicidade não faz. Dito isto, entendo que a felicidade é um estado do ser e, portanto, pode abarcar diferentes emoções.

A autoaceitação e o autoconhecimento são a chave para sermos mais felizes?
Sem dúvida o autoconhecimento é a principal chave. Quando a ciência fala em bem-estar emocional ela fala em investigar as emoções que nós sentimos. E conseguimos isso através de autoconhecimento.

Qual o papel das redes sociais na “infelicidade” coletiva?
As redes sociais proporcionam uma coisa bem conhecida da psicologia, que é a ansiedade de referência. Nosso subconsciente está o tempo todo fazendo comparações, nós não fazemos uma leitura da vida e dos fatos a partir de estudos concretos, mas sempre pelo viés da comparação. Por mais que conscientemente entendamos que as redes sociais mostram apenas um recorte “feliz” da vida das pessoas, quando se está lá, rolando as fotos e vendo todo mundo em um lugar bacana e você em casa, começa a achar que a sua vida é mais chata do que a dos outros.

É possível ensinar alguém a ser feliz?
Depois de anos de estudos, o neurocientista Richard Davidson trouxe uma conclusão que revolucionou a forma como a ciência entende a felicidade. Ele afirmou que ela é uma habilidade que pode ser aprendida, desenvolvida, aperfeiçoada, treinada. A neurociência compreendeu que o cérebro é um músculo e, assim como vamos para academia exercitar o bíceps, podemos exercitar o cérebro. Portanto, a felicidade pode ser desenvolvida, aprendida. Mas a ciência nunca falou absolutamente nada sobre a felicidade ser ensinada. l

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