‘Plásticas não ajudam as mulheres clicadas em fotos’, analisa Bob Wolfenson ao celebrar 50 anos de carreira

‘Plásticas não ajudam as mulheres clicadas em fotos’, analisa Bob Wolfenson ao celebrar 50 anos de carreira

Sonia Racy

06 de maio de 2021 | 00h45

Autorretrato de Bob Wolfenson.

Com 50 anos de carreira, após clicar mulheres lindas, Bob Wolfenson questiona a atual soberania da beleza irreal. Para ele, operações plásticas não ajudam as mulheres no set de fotografia, pois fotos devem refletir a verdade. “Não faço retoques para deixar a pessoa belíssima”. Já eternizou em fotografias, entre outras, Maitê Proença, Vera Fischer, Alessandra Negrini, em ensaios nus para Playboy cobertos por delicadeza, estilo, técnica e histórias. Pelas suas lentes hoje enxerga que toda essa super produção não faz mais sentido. “Poderia fazê-lo agora, mas sem ter essa função de estar em uma revista de masturbação masculina.”

Neste momento de celebração da sua trajetória, o fotógrafo, nascido no Bom Retiro em SP, lança o livro Desnorte – um passeio pelas suas imagens, transitando por diferentes estilos. E participa hoje de uma live com Thyago Nogueira, curador do Instituto Moreira Salles.

Você atravessa diferentes linguagens e estilos em seu trabalho?

Sim, esse é o meu estilo. Poder transitar e ser permeável a todos esses fotógrafos que eu sou. Não seria esse fotógrafo dos retratos, por exemplo, se não fosse também de moda, dos meus projetos pessoais, fotógrafo de luz, de publicidade. Vários fotógrafos me habitam.

E as cirurgias plásticas, ajudam as celebridades na hora da foto?

Acho que não. Se for uma imagem mais cosmética, para uma empresa dessa área, ok. Mas nos retratos quando se deve ser o mais verdadeiro possível eu não retoco as pessoas. Posso até tirar uma sujeira do fundo, uma pinta, um momento que está com um machucado. Mas não retoco pra deixar a pessoa belíssima.

Existe muita pressão sobre o corpo feminino, de perfeição.

A minha carreira também é retrato desse momento em que essas questões não eram postas. Eu fotografei muito para a Playboy, que era uma revista objetificante, mas vendo com os olhos de hoje, mas acho que a gente dava um nó nisso em nosso trabalho. Primeiro, porque as mulheres que eu fotografava tinham muita potência, orgulho de estar fazendo, para afirmar poder. E aqueles nus tinham histórias, eram esquetes, e em todas elas a sexualidade não era abrupta, escancarada, tinha uma melancolia. A minha experiência na Playboy foi revolucionária, guardadas as devidas proporções, ninguém fez o que a gente fez.

Por quê?

Por exemplo, fotografei a Maitê Proença nua na Sicília super surrealista. A Alessandra Negrini fotografei como prostituta no Rio. Foi uma coisa dos anos 90, 2000. Hoje, não teria sentido uma revista como a Playboy. O trabalho resistiu ao tempo, passou por cima da revista, poderia fazê-lo agora, mas sem ter essa função de estar em uma revista de masturbação masculina.
/ PAULA BONELLI

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