Pessoas ‘pensam pouco sobre a morte’, diz ator

Pessoas ‘pensam pouco sobre a morte’, diz ator

Sonia Racy

15 de julho de 2019 | 00h29

RÔMULO ESTRELA. FOTO: FERNANDA GARCIA

RÔMULO ESTRELA. FOTO: FERNANDA GARCIA

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Rômulo Estrela, ator de novela que estreia no fim do mês, conta
como a história de seu personagem o levou a
entender e refletir sobre os problemas enfrentados por
pessoas que convivem com doença terminal

O ator Rômulo Estrela retorna à tela da TV Globo como Marcos, um dos protagonistas de Bom Sucesso, a novela das 19 horas que estreia no dia 29. A trama promete trazer à luz diversos temas atuais, como a crise do mercado editorial – representada pela falência iminente da editora de livros de uma das famílias centrais na história –, a força da literatura como agente de transformação das pessoas na era digital e o reconhecimento da perseverança de mães solteiras que assumem a responsabilidade de ter dupla jornada.

Mas a história abre espaço, também, para uma reflexão sobre a morte e a necessidade de se buscar uma perspectiva diferente do que ela pode significar. “O pai de Marcos (vivido por Antonio Fagundes) tem uma doença terminal e seria muito comum olhar isso com pesar”, afirmou Rômulo. “Mas quando partimos do princípio de que ele pode, nesse tempo de vida aqui, se despedir, sanar questões, experimentar coisas… É uma outra forma de se conectar com a morte”, argumentou em entrevista à repórter Paula Reverbel.

Na visão do ator, algumas das questões levantadas pela trama “são de utilidade pública” e mudaram sua própria forma de ver o mundo. “A minha percepção há um ano atrás sobre morte… Eu já tinha pensado nisso, mas foi transformador tocar nesse assunto como estamos tocando”, contou. A seguir, os principais trechos da entrevista.

No que consiste a trama de Bom Sucesso?
A história é sobre uma mulher que é “mãe e pai” de três filhos – e assume essa responsabilidade com muita garra. Por si só já é uma história linda, por tudo que estamos vivendo. Acho que o grande público, principalmente o das mulheres, vai se identificar com a personagem da Grazi Massafera. É aquela batalhadora que faz sozinha o trabalho de dois, três. Nesse momento, é importante a gente ter empatia por esses assuntos, reconhecer que essa é uma luta de todos. A da representação feminina e do reconhecimento da força da mulher.

De que modo essa força se reflete na história da heroína?
Ela tem jornada dupla de trabalho, pega o trem, sai do subúrbio e vem para os grandes bairros do centro trabalhar, é de uma classe social menos favorecida e trabalha em lugares ali da classe alta.

O seu personagem é uma figura apaixonada por livros. A literatura tem um peso no enredo?
Ele é um cara que enfrenta problemas com muita tranquilidade. É parecido com o pai (personagem de Antonio Fagundes), ambos têm paixão pelos livros e acreditam na transformação do ser humano por meio da literatura. Como são muito semelhantes, não conseguem trabalhar juntos na editora de livros da família. Então, o Marcos foi viver a vida dele tomando conta de um bar que abriu na praia. A editora está à beira da falência e é administrada pela Amanda, irmã de Marcos. O meu personagem é muito ligado à irmã e ao pai, que tem uma doença grave, terminal.

Mas o tom dado a isso é leve, certo? Sobre como aproveitar a vida que temos?
Sim, é uma história linda. Levamos uma vida tão apressada, com internet, WhatsApp, tantas coisas acontecendo de maneira tão veloz… Então trazer agora uma discussão sobre como viver o momento e de maneira plena é um serviço de utilidade pública, sabe? Claro, o pai tem uma doença terminal, e seria muito comum olhar isso com pesar. Mas quando partimos do princípio de que ele pode, no tempo de vida que lhe resta, se despedir, sanar questões, experimentar coisas… É uma outra forma de se conectar com a morte.

Acredita que no mundo de hoje falta essa visão às pessoas?
Sim. Falta um pouco disso para a gente como ser humano. Pensamos muito pouco na morte, mesmo quando ficamos doentes. A gente não tem um cuidado com o ser humano no momento em que descobre que ele tem uma doença terminal. Não tratamos a doença, o ser humano passa a ser a doença. Deixa de ser o Fulano de Tal, que tem uma doença e precisa ser cuidado e se sentir importante.

Como foi conduzida a pesquisa sobre esse tema?
Tivemos a assessoria da Ana Claudia Quintana Arantes, uma médica especialista em cuidados paliativos. Ela escreveu o livro A Morte é um Dia Que Vale a Pena Viver. Foi lindo ouvi-la falar, inclusive sobre como os médicos não são preparados para orientar nesse momento difícil. Às vezes o que a pessoa precisa é se sentir importante. Podemos não gostar de falar da morte, mas a única certeza que a gente tem é que nasce, vive um tempo e sabe que isso vai acabar. Entender isso muda a relação com as pessoas à nossa volta. Tudo passa a ter outra importância.

Ou seja, a trama vai trazer à tela uma questão essencial…
A Rosane Svartman e o Paulo Halm estão escrevendo. Tenho muita sorte de sempre pegar projetos muito legais, que falam de coisas importantes, o que me faz correr atrás, me faz procurar saber. Esse enredo traz, sim, questões essenciais para a nossa sociedade. E eu, como intérprete, sou transformado a cada trabalho. A minha percepção há um ano atrás sobre morte… Eu já tinha pensado nisso, mas foi transformador tocar nesse assunto da forma como estamos tocando. Acho que isso passa para tela.

O seu personagem vive um caso de amor com a de Grazi?
O Marcos vai viver a vida dele e, na verdade, não está nem um pouco preocupado com a ideia de construir uma família e formar um casal – mas isso muda a partir do momento em que ele conhece a figura vivida por Grazi. Fica muito tocado por ela, os dois têm uma noite incrível juntos mas ela desaparece no dia seguinte. Ela tinha ido a Búzios para esquecer da vida que levava no Rio, onde fez um exame que diagnosticou uma doença terminal. Na verdade, o resultado do exame tinha sido trocado com o do pai do Marcos. Esse sim é que tem a doença.

E como isso se esclarece?
Os dois só se reencontram no Rio, quando ele vai visitar o pai, depois que se descobre que ele é o paciente terminal. Aí começa uma relação de conquista, de querer estar ao lado dela. Mas ele é impedido pela questão do pai, que também se encanta por ela, e pelo pai de um dos filhos dela, que estava morando fora e retornou quando se achava que a protagonista estava doente. Ela acaba sendo centro da atenção desses três homens. Um tenta reconquistá-la, outro se encanta por sua força e quer estar próximo, e o terceiro viu ali a redenção para os últimos momentos de sua vida.

Então a disputa que ocorre é entre três homens que querem a mesma mulher?
São relações muito bem construídas. Em termos de teledramaturgia, de novela, de folhetim, trata-se de uma coisa inteiramente natural, que faz parte da nossa história. Mas no conjunto essa disputa que envolve três homens e a dúvida que paira na cabeça dessa mulher são coisas bonitas de se ver, porque não são superficiais.

Estamos acostumados com tramas em que os rivais se odeiam. Não é o caso desses três, certo?
De fato. E a disputa entre pai e filho só reitera como esses dois são parecidos e determinados em suas vidas.

Antes de pretender ser ator, você imaginava seguir carreira como atleta, não? Como lutador de jiu-jítsu?
Sim. Sempre fui um apaixonado pelo esporte. Ele ajudou a formar o meu caráter. Pratiquei a vida inteira, lutei judô quando pequeno… E aí achei que fosse me tornar lutador, tinha um sonho de que o jiu-jítsu pudesse virar uma categoria olímpica. Super utópico, uma coisa difícil pra caramba. Eu era atleta, viajava com o meu pai, ia para os Estados do Nordeste, viajava para o Sul, para o Sudeste, lutava durante os campeonatos, fui até pra fora do Brasil. Eu queria muito isso. Mas aí fui fisgado pela dramaturgia.

De que modo o esporte ajuda a formar o caráter?
Cara, tem todo um reconhecimento de hierarquia, o respeito pelo mais graduado, pela pessoa que já passou por aquilo que você está passando. Tem um reconhecimento pelo esforço, onde as coisas não acontecem de uma hora para outra, você precisa de fundamento, precisa trabalhar, precisa exercitar. O esporte constrói e reconstrói o ser humano. Você reconhece as próprias falhas e trabalha em cima delas. E além disso você se mantém bem, saudável. O respeito com o corpo, o descanso, você conhece os seus limites físicos. Enfim, isso tudo me ajudou.

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