“Perder senso crítico é ser manipulado”, diz professora de ioga sobre gurus

“Perder senso crítico é ser manipulado”, diz professora de ioga sobre gurus

Sonia Racy

29 de dezembro de 2018 | 01h00

LILLY HASTINGS. FOTO SILVANA GARZARO / ESTADÃO

A psicóloga Lilly Hastings dá aula de Ioga há 29 anos, coordena retiros espirituais há dez e realiza grupos de estudos sobre mestres e gurus.

Existe a obrigação de “ficar bem”, de ser equilibrado?
Eu costumava ouvir do meu irmão desde que eu sou pequena que ele se recusava a ser escravo da alegria. Não dá pra ter uma pressão de ficar bem o tempo inteiro, esse bem sendo um falso bem. Ninguém está 100% ótimo. Todos temos demandas para dar conta. Reconhecer a tristeza e a raiva é honesto e importante. Dá pra estar bem estando triste.

Temos que viver a nossa verdade.
Este ano, tivemos casos em que líderes espirituais se envolveram em escândalos. O que acha disso?
Eu estudo esse assunto. A Mariana Caplan, que escreveu o The Guru Question, coloca a questão dos perigos e recompensas de escolher seu mestre espiritual. Existe uma máxima que rola em alguns desses lugares que é para não ficarmos no nosso mental. Isso é perigoso, porque não é uma verdade absoluta. O discípulo acaba aceitando o que o guru fala sem questionar. Quando isso é visto dessa forma, as pessoas deixam o bom senso e o discernimento de lado. Quem perde o senso crítico se torna a pessoa perfeita para ser manipulada.

Que dica você dá para as pessoas que querem se conectar consigo mesmas?
Eu gosto muito da ideia de fazer esse contato consigo mesmo através do corpo. O corpo é uma realidade concreta, palpável. Você sente se está bem, se consegue dormir, respirar. Depois é mais fácil olhar pra dentro. O corpo pode nos ajudar a atravessar momentos desafiantes. Se o corpo estiver bem, ele te ajuda. Coisas básicas como alimentação e atividade física ajudam muito.

A virada do ano é um bom momento para se reavaliar?
Super. Costumo fazer retiros no final do ano e sempre é bom. Por mais que a pessoa ache que o primeiro de janeiro é uma a data burocrática, ele acaba sendo universal, até para quem segue outros calendários, como o ano novo astrológico, o ano novo judaico cabalístico…É um momento bacana e coletivo de recomeçar e deixar coisas para trás. Peça o que você quer a abandone o que não serve mais.