Pelas ruas de Paraty

Pelas ruas de Paraty

Sonia Racy

03 Julho 2015 | 01h14

Beatriz Sarlo (Foto: Marília Neustein/Estadão)

O clima de crise não ficou tão evidente, anteontem, na abertura da Flip, em Paraty. A Praça da Matriz estava mais lotada do que o normal para um primeiro dia. Os autores Colm Tóibin e Richard Flanagan entraram no ritmo da cidade e acompanharam o show de abertura do tradicional bar Coupé. O mal-estar só marcou presença, por breve tempo, quando o “sósia” de Mário de Andrade, Pascoal da Conceição, invadiu o palco da conferência, interrompendo a fala de Eduardo Jardim. Nos bastidores houve certa apreensão – e temor de que tais incidentes se repitam em outras performances.

Como de costume, os escritores foram bater perna pela cidade. Riad Sattouf, autor de O Árabe do Futuro, disse estar “completamente apaixonado” pelo lugar. Comeu bobó de camarão e passeou de barco até as Ilhas Cagarras. Quem perambulou distraído, também, a galáxias de distância da Lava Jato, foi Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, advogado de um executivo da Camargo Corrêa. Ele acompanhou o primeiro dia com a família a tiracolo.

Militante LGBT, o escritor irlandês Colm Tóibin falou à coluna sobre a recente aprovação do casamento gay nos EUA. “Sabemos que o voto foi dividido. Mas o país já estava indo nessa direção, tanto na opinião pública quanto na legislação dos Estados. É como se fosse uma última briga.” Tem sido uma longa batalha para os gays, disse Tóibin, “pois em 20 anos muita coisa mudou e as pessoas não têm noção disso”. O próximo passo, segundo o autor, é “que não importe mais para ninguém o fato de alguém ser gay ou não”.

O momento político e econômico do Brasil não está na agenda de nenhum evento, mas a argentina Beatriz Sarlo falou, na Pousada do Ouro, sobre como vê as coisas por aqui. “O Brasil já tem uma posição importante no mundo. Pode entrar ou sair de uma recessão, mas já tem o seu espaço.” Para ela é admirável o fato de um intelectual (Fernando Henrique Cardoso) e um operário (Lula) terem chegado à Presidência.

Também não passou ao largo a redução da maioridade penal. A compositora Karina Buhr afirmou que a lei “não era para passar de jeito nenhum”. “A questão é o contexto que a gente vive no País, que só vai piorar muito. E a maneira como isso aconteceu, com essa manobra horrorosa, foi péssimo.” Para ela, “essa coisa de misturar religião com política é equivocada. É um discurso para justificar coisas absurdas como maioridade penal, aborto, homofobia, racismo. No meio disso, entram posições completamente reacionárias em nome de Jesus. Não é por aí”. Na agenda da compositora consta, hoje, um sarau de poesias na casa da Rocco.

O crescimento da violência em Paraty também frequentou as conversas, puxado pelo cancelamento da vinda de Roberto Saviano. E é muito mais visível, este ano, o número de policiais andando pelo centro histórico. / MARILIA NEUSTEIN