Pastor critica mídia evangélica e defende ‘tradição cristã progressista’

Pastor critica mídia evangélica e defende ‘tradição cristã progressista’

Sonia Racy

08 de julho de 2019 | 00h38

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PASTOR HENRIQUE VIEIRA. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Pastor Henrique Vieira, do Rio, lança livro, atua
em filme, defende o Estado laico, critica
concessão de canais de televisão a pastores e propõe
reavaliar se igrejas não devem pagar imposto

Nascido em Niterói, de uma família evangélica batista – formada por seus bisavós – o pastor Henrique Vieira foi criado, como ele mesmo diz, “no contexto da Igreja”. Foi ainda na adolescência que descobriu sua vocação pastoral. Investiu na vida acadêmica e se formou em Teologia pela Faculdade Batista do Rio de Janeiro e, para completar, em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense e História pela Universidade Salgado Oliveira. Em seu seminário, ficou responsável pela implementação de uma nova congregação, que veio a se tornar a Igreja Batista do Caminho, onde atua até hoje.

Tudo somado, o pastor se define hoje como “defensor de causas progressistas, as mesmas de Martin Luther King, dom Hélder Câmara e Francisco de Assis” e critica “lideranças (evangélicas) conservadoras que se distanciam muito da beleza e do caráter generoso do evangelho de Jesus”. E mais: valoriza o respeito à diversidade e considera o Estado laico “um avanço democrático”.

Militante dos direitos humanos – foi vereador em Niterói pelo PSOL, entre 2012 e 2016 –, lançou na semana passada seu primeiro livro, O Amor Como Revolução, pela editora Objetiva. E uma de suas últimas paixões foi a descoberta do teatro e do cinema – no qual faz sua estreia, em novembro, com participação no longa Marighella, dirigido por Wagner Moura. À repórter Marilia Neustein, ele defendeu a pluralidade do movimento evangélico e criticou “um referencial hegemônico preocupante, com muito poder midiático”, que a seu ver “acaba sendo a principal referência do que é ser evangélico”. A seguir, os melhores trechos da conversa.

Você fundou um novo grupo, a Igreja Batista do Caminho. Qual é o tamanho dessa comunidade?Nós nos reunimos em um espaço cultural em Niterói e alugamos um auditório no Rio de Janeiro. Em Niterói temos cerca 100 pessoas e no Rio mais 160. Isso é basicamente o nosso universo. Temos um grupo de mulheres que estudam e fazem teologia feminista, e agora um grupo ao qual demos o nome de “Um novo homem possível, desconstruindo a masculinidade tóxica” – sempre a partir da teologia, da Bíblia.

Por que decidiu escrever um livro?
Nas minhas pregações, a palavra sempre teve um papel impactante, fluiu com facilidade e alcançou muita gente. Em algum momento pensei que essa mística que acontece quando estou pregando podia se materializar numa obra que tivesse um caráter mais permanente.

O campo evangélico é plural. Como faz para enfrentar cobranças, tendo opiniões divergentes das de muitos outros pastores?
Existe um referencial evangélico hegemônico que é de fato preocupante. Refiro-me a algumas lideranças com muito poder econômico, político e midiático. São pessoas que têm uma enorme capacidade de reverberar aquilo que dizem e acabam sendo a principal referência do que é ser evangélico. Lamento porque, na minha compreensão, são lideranças ultraconservadoras que se distanciam muito da beleza e do caráter generoso do evangelho de Jesus.

Se distanciam de que maneira?
O que fazem me parece mais um empreendimento empresarial de fé do que propriamente Igreja enquanto corpo de Cristo, comunidade de fé e acolhimento. Entendo que suas mensagens têm um viés antidemocrático que acaba reproduzindo um ambiente hostil para mulheres, negros, fiéis das religiões de matriz africana, militantes dos direitos humanos. Mas, como você bem colocou, o campo evangélico é muito plural, muito heterogêneo desde a reforma protestante.

É plural atualmente também?
Tem o pentecostalismo, o neopentecostalismo, ou seja, é um campo multiforme, quase indefinível. Cabe dizer que muito desse campo é composto de pessoas pobres, trabalhadoras. Por isso, também existe um outro preconceito.

Qual é? De classe?
Sim. Porque os evangélicos são, em sua maioria, o povão – e isso (o preconceito) eu combato. Eu tento dar visibilidade a esse caráter popular e periférico da experiência evangélica. As igrejas, muitas vezes, fazem um acolhimento que outros mecanismos da sociedade deixam de fazer. Costumo dizer que muitas igrejas, essas aí que abrem em cada esquina, estão empoderando individualidades massacradas. São pessoas anônimas e oprimidas em uma sociedade elitista e desigual, que quando entram naquele espaço de fé ganham nome, importância e autoridade.

E senso de vida comunitária.
Exatamente. E não sou só eu que penso assim. Aliás, não gosto de ser colocado como um pastor exótico. Estou nas fileiras de uma tradição cristã progressista. A mesma de Martin Luther King, ampliando o caminho não só evangélico, e também a de dom Hélder Câmara, da irmã Dorothy, Francisco de Assis, comunidades eclesiais de base, o protestantismo negro norte-americano – que a partir da fé em Jesus lutou contra a escravidão e depois contra a segregação racial nos EUA. Sou de uma linhagem comprometida com a causa da justiça social, do respeito à diversidade, do diálogo ecumênico interreligioso, da busca pelo bem comum.

A fé nunca esteve tão presente nos discursos políticos como hoje. E isso convive com a crítica, por parte dos acadêmicos, segundo a qual a fé tem sido utilizada de maneira enviesada.
Acho que no mundo de hoje constatamos o crescimento de uma narrativa fundamentalista, muito além da experiência evangélica. Esse é um dos dramas do século 21. Vivemos em uma sociedade com menos senso comunitário, dotada de uma cidadania de mercado que vai selecionando quem vale mais e quem vale menos. Muitas singularidades culturais vão sendo diluídas pela imposição de um modelo global que massacra povos e identidades culturais. A vida vai ficando tão privatizada e vazia de um sentido público em que a narrativa fundamentalista ganha força.

Vivemos uma polarização não apenas na política, mas entre ciência e religião. Como é que você vê esse convívio?
A espiritualidade é a poesia da alma. A experiência do sagrado brota de um susto diante da potência e da fragilidade da vida. Dessa constatação nasce uma busca por plenitude, um apontamento para a transcendência. O que isso tem a ver com os parâmetros, os códigos e os métodos da ciência? Uma coisa não contradiz a outra. O fundamentalismo que tenta amarrar o mundo numa doutrina vai ter problema com os avanços da ciência. Mas quem vive a fé como aposta, como experiência, bendiz a ciência.

Mudando um pouco o tema, igrejas não pagam imposto no Brasil. Isso deveria mudar?
A previsão constitucional de não cobrar imposto do que não tem natureza lucrativa me parece razoável. O que algumas igrejas fazem é outra coisa. Acho que deveria haver uma auditoria sobre alguns empreendimentos de fé que operam numa lógica mais mercadológica e de lucro do que de um serviço comunitário.

Que diz do Estado laico?
É um avanço democrático. O Estado ateu seria uma violência, porque tenta impor o fim da experiência religiosa. O Estado fundamentalista é uma outra violência porque tenta interditar todas as outras religiões. Assim, a modelagem do Estado laico me parece a mais razoável.

E o direito a canais e programas de televisão?
Sou contra. Pode ser uma visão meio radical, mas é que essas concessões são obscuras, desiguais e desproporcionais. À medida que você liga a televisão e só vê uma narrativa, isso está necessariamente inviabilizando e apagando outras memórias. Acho isso errado.

Por sua experiência com as pessoas que o procuram, o que é que mais as angustia?
A maior parte das pessoas que procuram a comunidade de fé da qual eu faço parte são fiéis machucados e desiludidos com a experiência que tiveram com a Igreja, que lutam para manter ou dar novo significado à sua fé. Boa parte dessa gente já é cristã. E outra é uma turma que não imagina uma igreja evangélica com esse conteúdo.

Já foi considerado traidor?
Daí pra baixo. No início eu até ficava assustado, mas hoje eu consigo lidar com isso com muito mais serenidade.

As pessoas buscam a Igreja para resolver problemas?
Existe uma dimensão de consolo que não acho que seja alienante. Consolo gera esperança. Mas é diferente de acessar Deus para resolver. E existem igrejas que fazem uso de uma experiência religiosa como se fosse uma prateleira. Determinam o que Deus vai fazer, com dias definidos: quinta-feira é bênção financeira, sexta-feira é bênção sentimental. Ou seja, é a pretensão humana de classificar Deus.

O que é milagre para você?
Milagre é o repartir do pão, é quebrar a dureza, o egoísmo, a prepotência e a vaidade do coração dos homens. Quanto ao milagre no seu sentido mais corriqueiro, eu não duvido que aconteça. Só não posso colocar minha fé em Deus como dependente disso. Critico quem centra a pregação do Evangelho naquilo que não é o centro do Evangelho.

E qual é, a seu ver, o centro do Evangelho?
É o amor na sua profundidade ética. É o amor que consola, que transforma muros em pontes, que quebra preconceitos e resgata a dignidade do ser.

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