‘Passo o dia em casa me ouvindo’

‘Passo o dia em casa me ouvindo’

Redação

28 de dezembro de 2009 | 09h56

Cauby,78, planeja disco com canções de Sinatra e Nat King Cole. Como em seu novo álbum, no qual canta Roberto Carlos

Brilhos, paetês, maquiagem, gestos, espelhos. Cauby Peixoto se prepara para mais um show com plateia lotada no Bar Brahma, em São Paulo, onde faz temporada há cinco anos. Vai apresentar músicas de seu novo CD, Cauby Interpreta Roberto, com composições do Rei.

É um caso raro de longevidade artística. Ídolo das menininhas nos gloriosos tempos da Rádio Nacional nos anos 50 – onde se formou o primeiro pelotão das “macacas de auditório” do Brasil – ele é até hoje um sucesso, onde quer que cante. E sua receita, a cada dia dessas cinco décadas, é simples: “Eu vivo o hoje”. Tanto que se sente “em casa” em São Paulo, um mundo tão diferente do Rio em que se inventou.

Nesta conversa com a coluna, ele confidencia: longe do palco e dos aplausos, sua vida é monótona. E sua diversão, aos 78 anos, é cantar… e se ouvir.

Satisfeito com o novo disco com músicas de Roberto?
Sim, fiz um CD muito bom, com músicos excepcionais. Acho que ele vai adorar. O Rei ainda não viu nada, nem o show. Ele é muito ocupado, quase não pode sair.

Como é sua relação com ele?
Muito boa. Ele era meu fã. Eu tinha muito sucesso na época. Ele ia nas rádios para me mostrar suas músicas. Só que as meninas não deixavam. Mas às vezes eu chamava: “Roberto, vem, vem…”. Eles vinham me mostrar músicas mas eu acabava gravando outros compositores mais famosos, né?

Você lhe dava conselhos, já que sua voz já era tão admirada?
Era mesmo. Mas eu nunca estudei, não colocava a voz. É natural, não dava para dar dicas. Porque isso nasce com a gente. Ou tem ou não tem.

Que tipo de comparação imagina que será feita, quando ouvirem as músicas de Roberto Carlos em sua voz?
Pois é, agora vão comparar e eu não poderei fazer nada. Não posso dizer que eu sou melhor. Não diria isso (risos). Mas o povo diz, o jornal diz, as revistas dizem, comparam. Posso dizer? Não posso, né?

É preciso ter voz para cantar no Brasil?
Ainda precisa. Embora haja cantores que não têm voz. Mas estes aparecem menos. Não chegam a ser um Cauby Peixoto, modéstia à parte.

Costuma ir a shows?
Não vou não. Só ao meu mesmo.

O que faz quando não está no seu show?
Estou sempre estudando, ensaiando. Por exemplo, agora estou ouvindo esse meu CD novo para ver qual música devo trabalhar mais para fazer sucesso. No caso, será Distância. “Nunca maaaaais você ouviu falar de mim. Mas eeeu continueeei a ter voceeeê…” (cantando).

Como você se diverte?
Fico em casa me ouvindo. Vendo nas gravações o que eu faço de melhor e de pior. Levo uma vida que muita gente considera monótona. Não saio, não vou me divertir em lugar nenhum. Me divirto no meu show, onde eu canto, onde eu trabalho.

Mora sozinho?
Moro.

Sente-se sozinho?
Não.

Como preenche a vida?
Sou uma pessoa que vive para o canto. Não dependo de uma pessoa. De vez em quando… uma mulher… aquelas que eu já conheço vêm me servir um carinho, né? Vez ou outra é bom.

Você é vaidoso?
Sou muito, muito vaidoso. E as meninas falam muito das minhas roupas, me dizem as cores que devo usar. A mulher gosta muito disso e faço exatamente para elas.

Como se veste em casa?
Em casa é só uma roupinha rasgada, um chinelinho. Nada de brilho. Como se eu fosse outra pessoa.

Toma cuidados com a saúde?
Felizmente tenho uma saúde boa. Me resfrio de vez em quando. Tô curando agora uma tosse. Descanso muito, durmo cedo, durmo depois do almoço.

Ganhou muito dinheiro na carreira?
Sim. Não sei os outros, mas os famosos ganham muito dinheiro. O Roberto, por exemplo, ganha muito, ganha demais. O pessoal me paga muito bem, não posso reclamar. Você viu, no Bar Brahma, eu cantei My Way e fui aplaudido de pé?

Você nasceu em Niterói, começou sua carreira no Rio. Vai muito para lá?
Pouco. Tenho paixão por São Paulo. O Rio não me faz falta. Tenho quase tudo aqui, gosto desta gente. Conheci São Paulo com 15 anos, ainda usava calça curta. Aqui comecei a me vestir melhor. Eu via as mulheres se vestirem bem, os homens com gravatas. Aqui aprendi a ser gente. Eu era um moleque de rua. Aqui fui obrigado a ser gente, e gostei.

O meio o influencia?
Sim. Porque aprender a ser gente foi a melhor coisa que me aconteceu. As portas se abriram. Meu irmão pianista me ensinou a ser uma pessoa que sabia entrar em qualquer lugar.

E o que acha do Rio nos dias de hoje?
Eu me lembro dos tempos antigos, mas passou. E eu vivo do hoje. Acho uma pena olhar para o Rio e não sentir por lá o que sinto em São Paulo.

E o que acha da Copa e da Olimpíada no Brasil?
Não faz o meu gênero. Eu não gostava de futebol, esportes… Eu gosto de cantar. Não iria ver um jogo. Talvez pela televisão, se não tiver outra coisa melhor para ver.

Vai gravar Sinatra no ano que vem?
Tenho esse projeto de música americana. Eu falo e canto muito bem em inglês. Vou fazer um CD só com Nat King Cole e Frank Sinatra. Vai ser muito bom, né? Vou começar a mexer nisso depois do Natal. Quero Let Me Try Again, I’ve Got You Under My Skin

Já tem os direitos das músicas?
Já sim, está tudo certo. E vai ficar muito bom. Meu inglês é muito bom. Vivi nos EUA dois anos. Mas não fiquei porque a saudade bateu. Eu era grande aqui, tinha tudo, era famoso. Saudades da minha terra, do meu povo, do meu sucesso.

É bom fazer sucesso?
É. É bom. Aaahh… é muito bom ser conhecido! Eu fui logo conhecido porque eu era acessível. Sempre fui muito simples, uma pessoa humilde.

Fazendo sucesso tão jovem, como administrou a carreira?
Tive um padrinho que segurava a barra, era muito inteligente. Ele me dizia como agir com as meninas. As roupas eram alinhavadas para dar aquele efeito quando elas puxavam. Eu fiquei só de cueca uma vez. E de propósito. Na saída da Rádio Nacional tinha um hall cheio de meninas me esperando. Uma puxou a camisa e outra puxou a calça e, pum!, desabotoou. Daí eu fui correndo até a Rádio Mayrink Veiga, a duas quadras dali. E os fotógrafos se servindo, pá, pá, pá, pá! Foi um escândalo. Mas foi bom…

O assédio era encarado como parte do trabalho?
Olha, eu fazia tudo o que meu padrinho mandava. “Faz assim, tira a camisa, rasga…” Eu fazia tudo.

Se arrepende de algo?
Não.

Por Débora Bergamasco

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