Partidos ‘precisam reinventar a política’, diz Álvaro Moisés

Partidos ‘precisam reinventar a política’, diz Álvaro Moisés

Sonia Racy

20 Setembro 2018 | 01h18

FOTO: MARCIO FERNANDES/ESTADÃO

Vença quem vencer a eleição presidencial, a política brasileira caminha para uma nova fase: a da reinvenção da política. O PSDB tem de “criar coragem, lavar a roupa suja, reconhecer de forma decisiva seus erros, redefinir a rota, reinstituir-se como partido democrático e moderno. E o PT deveria fazer a mesma coisa, mas não sabemos se ele é capaz disso”. O cenário foi apresentado à coluna pelo cientista político José Alvaro Moisés, da USP, num momento em que o encolhimento da candidatura de Geraldo Alckmin na disputa presidencial abre uma zona escura para o tucanato – ao menos no curto prazo – e parece tirar da cena política uma bipolarização partidária que perdurou por três décadas ou mais.

A campanha ainda está em curso, mas já se poderia dizer que há uma nova polarização, petismo x antipetismo, está tomando corpo. Mas a direita está virando personagem de peso na rotina política do País? Pesquisador atento desse tema há quatro décadas, Moisés detecta o movimento mas acha difícil prever de quanto será esse peso. Seus estudos detectaram que há um núcleo permanente de 15% do País que, ao longo dos anos 80, 90 e 2000 namorou convictamente a ideia de uma ditadura. E ao lado dele, no apoio a Bolsonaro, há agora outras direitas não tão radicais que cresceram por causa da desarrumação econômica, da insegurança urbana e porque ninguém lhes ofereceu respostas satisfatórias para alterar esse quadro. “Isso abriu espaço para alguém que falasse duro e valorizasse o combate à criminalidade.”

Que direita seria essa? Vem com força para tomar a cadeira do PSDB? “Não dá pra dizer que essa onda vá perdurar”, pondera o analista. “Vai depender de qual lado subirá a rampa e que alternativas o rival vai adotar e oferecer”. Mas ele pede cautela nas previsões. “Pois esta campanha é um fenômeno excepcionalíssimo, marcado pela comoção. De um lado, Lula preso conseguiu mostrar-se como vítima. Do outro, Bolsonaro está numa cama de hospital atingido por uma facada. Não sobrou espaço para as lógicas do PSDB no confronto.”

Outro alerta de Moisés: não é por causa disso que os tucanos estão murchando. “Esse enfraquecimento  da sigla tomou corpo a partir de movimentos erráticos que ela assumiu nos últimos anos. Em 2014, ela contestou o resultado da eleição de Dilma. Depois, envolveu-se de forma inadequada no processo para seu impeachment. Terceiro, veio o apoio ao governo Temer. Para completar, a Lava Jato incumbiu-se de mostrar que também ele, PSDB, tinha culpas no cartório. Culpas agravadas quando não foi pedido a Eduardo Azeredo que deixasse o partido ao ser denunciado. “É uma sequência ruim de atitudes ambíguas, que prejudica os tucanos como ideia e como força eleitoral. E que coincidiu com a impaciência da população ante a piora da crise nacional.”

Fatores como esse “atingiram na prática todos os partidos”. É o que leva Moisés a imaginar que “a saída em 2019 é trabalharem todos por uma reinvenção da política”. / GABRIEL MANZANO

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