‘Para resistir ao confinamento, cuide do outro’, recomenda o velejador Beto Pandiani

‘Para resistir ao confinamento, cuide do outro’, recomenda o velejador Beto Pandiani

Sonia Racy

05 de abril de 2021 | 00h50

Beto Pandiani. Foto: Igor Bely

 

Nesta pandemia que impõe o confinamento sem data para acabar, o velejador Beto Pandiani tem feito palestras para falar sobre a situação de isolamento. Em travessias do Atlântico e do Pacífico, está acostumado a situações inóspitas nas quais é obrigado a dividir um espaço de apenas nove metros quadrados por meses, com um parceiro. Nessas condições, Pandiani já teve que encarar dias de vento fraco, quase parado em meio a um vasto oceano, sob muito sol ou muito frio, agravadas por quebras da embarcação. “Imagina como fica o relacionamento numa situação extrema dessa, se você não cuidar, ele acaba afundando o barco”, contou ele à repórter Paula Bonelli, por meio de videoconferência.

Para enfrentar o mar ou a pandemia, ele recomenda, antes de tudo, cuidado: “É simplesmente colocar o foco no outro, diferente do que faz a nossa sociedade, que vive pedindo por direitos individuais. Quando você vai para o mar, a natureza não te dá direito a nada. A única coisa que você tem é dever. Portanto, para resistir ao confinamento, cuide do outro”.

O velejador reconhece que bateu muito a cabeça, até que “uma hora comecei a ver que precisava parar de olhar para o meu umbigo e olhar para o outro”. Chegar à outra margem exige, em sua definição, um fino equilíbrio entre as partes. Se você “quebra a confiança, quebra toda a estrutura”, receita.

Filho de um também velejador, Pandiani competiu por dez anos regatas, em catamarã, e chegou a ser campeão americano em Chicago, em 1989. Depois passou a fazer longas travessias à vela, encarando primeiro o trecho Miami-Ilhabela, em barco aberto, o que lhe deu experiência para ainda maiores aventuras.

Agora, ele planeja a próxima viagem, quando pretende contornar a calota polar do Alasca até a Groenlândia. Essa jornada vai virar documentário sobre mudanças climáticas. A seguir, os principais trechos da conversa.

Você é um especialista em quarentenas?

Sim, sou, porque o barco é muito pequenininho, sem cabine. Então ficar confinado com o seu companheiro meses, num ambiente incerto, com recursos bem limitados, sem saber o que vai acontecer amanhã, é a situação que todo mundo está passando. A diferença é que eu escolhi estar nesse lugar e as pessoas não, mas a adaptação passa pelos mesmos tipos de dificuldades que eu tive.

Quais dicas pode dar?

Quando estávamos montando o barco para a Antártida, depois de um ano e meio de projeto, uma superlogística, o meu amigo, o sul-africano Duncan Ross, escreveu no barco com caneta piloto: paciência, persistência e prudência. E foram essas palavras que nos levaram para a Antártida. E vejo que agora as pessoas precisam escrever essas três palavras na porta de casa.

Qual é o segredo da travessia?

Quando você sai para uma viagem de barco, nunca tenha dúvida onde você quer chegar. Vejo que está faltando no nosso País um foco na chegada, seja por parte do governo, seja por parte das pessoas. Por parte do governo, falta estabelecer uma meta. Na sociedade, devemos fazer um sacrifício de isolamento agora pra diminuir depois. Tudo tem que ser planejado e anunciado.

A ansiedade é normal?

É, mas a primeira coisa é diminuir isso. E não crie uma fantasia sobre tempo. Esqueça o prazo. Temos que viver o presente para cuidar do nosso emocional, porque cada vez que este prazo volta a ser esticado, bate um desânimo, sabe? Tente se adaptar da melhor maneira possível a essa realidade

O confinamento no veleiro parece mais prazeroso…

É, mas o trabalho no meu barco, nas várias viagens, foi cansativo. Atravessar o Pacífico num barco sem cabine, você dorme praticamente ao relento. A gente fez um casulo lateral como se fosse um sarcófago do tamanho de um sleeping bag, de um saco de dormir. Somos obrigados a fazer a gestão do sono, da alimentação, da água, do relacionamento com o parceiro.

Você se saiu bem nas relações com as pessoas no barco?

O Igor Bely foi meu companheiro das travessias do Atlântico e do Pacífico, tivemos um relacionamento excepcionalmente bom nas duas viagens de meses e meses, onde nós ficamos só os dois. Tivemos dias de muito frio, de calor, de chuva, de vento fraco, nove dias de calmaria com sol, e a gente parado no meio do oceano. Mais mau tempo, quebras que deram a sensação que o barco ia afundar, e lidamos com tudo isso. Então, imagina como fica o relacionamento numa situação extrema dessas, se você não cuidar ele vai acabar afundando o barco.

Beto Pandiani. Foto: Igor Bely

Isso parece complicado.

Sim, é um aprendizado. Foi simplesmente um colocando o foco no outro. É o contrário da nossa sociedade, cada um pedindo por seus direitos individuais. Quando você vai pro mar, a natureza não te dá direito a nada. A única coisa que você tem é dever. Para resistir ao confinamento, cuide do outro.

A confiança é fundamental.

Sim, quebrou a confiança, quebrou toda a estrutura. Agora, eu cometi erros nas primeiras viagens, alguns companheiros meus também. Esse amadurecimento foi uma construção. Eu não nasci assim. Mas o Igor e eu, além de termos sido os únicos velejadores que atravessaram o Atlântico Sul e o Pacífico Sul num veleiro sem cabine, acho que também somos os únicos que nunca brigaram.

Quais são os planos de vocês agora?

Ele é o meu companheiro da próxima viagem ano que vem, que vai ser a rota polar, que sai do Alasca e vai pra Groenlândia. Essa rota se chama Passagem Noroeste, muita coisa já aconteceu nesse lugar na história, de 1800 para cá. Nos últimos 20 anos, com as mudanças climáticas no Ártico, a calota polar está se descongelando. Em cima é gelo sobre água, não é igual à Antártida, que é gelo sobre terra.

Quando vocês partem?

No verão do Hemisfério Norte. Nós temos 100 dias pra fazer 5,2 mil quilômetros contornando a calota polar. Vamos enfrentar ventos fortes, gelo, calmaria. O nosso barco vai ter um sistema de pedal para dias sem vento. É um projeto muito ousado e ao mesmo tempo muito tecnológico no aspecto de sustentabilidade. O barco vai gerar sua própria energia e a nossa energia pedalando carrega a bateria.

E o que mais te motiva em projetos desse tipo?

O Amyr Klink mesmo brinca, “não podemos brincar com o Beto, ele é uma pessoa perigosa, falamos umas bobagens ele vai lá e faz”. Eu amo velejar, esse tipo de barco catamarã, é um tipo de barco veloz, muito emocionante. Eu comecei a competir pela adrenalina. E aí, quando eu parei de competir, fiz o trecho Miami-Ilhabela, velejei em mar aberto, surfei em ondas no Caribe, ainda por lugares completamente selvagens. A gente aprende como viver em lugares inóspitos, com pouco. E aí, um dos mandamentos é: viagem leve, viagem longe”. Não dá pra levar quase nada, só o essencial.

Mas como lidar com o medo nestas aventuras? Você não teme morrer?

Nunca tive medo de morrer. E nunca viajamos para tanto. A gente viaja para voltar para casa.

 

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