Para renovar a política é urgente democratizar os partidos, diz Romano

Sonia Racy

23 de maio de 2016 | 00h30

FOTO ANTONINHO PERRI

FOTO ANTONINHO PERRI

Para o professor de Ética da Unicamp, o desafio de Temer será conciliar as demandas do PMDB e do centrão com as metas do governo, num ambiente onde a ética é escassa

Completado os primeiros dias do governo interino de Michel Temer, o filósofo e professor de Ética da Unicamp Roberto Romano diz que as características da política brasileira impedem o Brasil de ser um país democrático. Para o catedrático, Temer terá de enfrentar o mesmo desafio dos governos anteriores: conciliar uma agenda de governo com as exigências dos parlamentares – dos quais o Planalto depende para aprovações de reformas no Congresso. Nesta entrevista à repórter Marina Gama Cubas, o filósofo destaca que o problema ético da política brasileira está mais embaixo do que se imagina: está na direção dos partidos políticos.

E alerta que o País vive uma crise de renovação das lideranças políticas. “O jovem que queira militar em um partido político tem que aderir aos seus donos, que estão no comando há 20 anos. E isso, para muitos, não interessa”. A seguir, os principais trechos da conversa.

Qual o maior desafio do presidente Temer em seu próprio partido e no governo?
Dentro do PMDB, é conseguir um mínimo de coesão em torno de sua liderança. Ele não é o líder mais relevante, não tem a capacidade de coordenação política e de flexibilidade que tem Renan Calheiros e que tinha, ou ainda tem, Eduardo Cunha. O PMDB é uma federação de lideranças regionais e a base delas é justamente o atendimento às exigências dessas regiões. Por isso, se não conseguir convencer seus pares de que seu governo vai distribuir recursos para as regiões, Temer não vai conseguir nada junto ao partido. Já no governo, o maior desafio é o centrão. De certo modo, o centrão e Cunha, nos bastidores, dão um sinal de para onde vai sua gestão. Se Temer começar a alimentar esse centrão e se dobrar às suas exigências, seu governo se tornará inviável.

Ele entregou boa parte dos ministérios a parlamentares. É o oposto do “ministério de notáveis” que prometeu?
Sim. E lembro, a propósito, uma diferença entre Temer e Itamar Franco, que assumiu a presidência após a saída de Collor em 1992. Itamar tinha origem peemedebista mas já havia saído do partido. Surgiu como uma solução de fora do trato político cotidiano, desse toma lá da cá. Tinha as mãos mais livres para iniciar reformas e foi isso que lhe permitiu escolher técnicos competentes – que fizeram o Plano Real, por exemplo. E mais: nomeou como ministro da Educação o doutor Murílio Hingel, que fechou o Conselho Federal da Educação, então envolvido em corrupção. O Temer tem um problema a mais: ele integra organicamente o PMDB. Nessa condição, além de ter que conciliar os interesses opostos dentro do seu partido precisa tratar com os nanicos, que se uniram para ter força – hoje eles são quase maioria absoluta na Câmara. É um desafio duplo. A questão é como encontrar um atalho para não soçobrar até 2018.

Acha que isso é possível?
Não conheço as potencialidades políticas do presidente. Esse é um ponto que mostra certa fraqueza na construção de cenários, para qualquer analista. Temer nunca foi um líder dentro do seu partido. Nunca teve uma liderança ao estilo do Ulysses Guimarães. Jamais foi um líder oligárquico à semelhança de Orestes Quércia e não tem a tradição de Executivo como Itamar Franco – que antes tinha sido prefeito e governador. As escolas de Temer são a cátedra de direito constitucional, no qual é muito bom, e o parlamento. Não sabemos até onde ele pode ir como líder da coordenação.

Essa política da coalizão coloca em xeque a democracia?
Vira uma partidocracia. Porque, se o presidente não consegue governar, fica à mercê dessas maiorias voltadas para a ocupação de cargos na máquina federal. E, claro, quando você radicaliza a compra e venda de apoio, começa a utilizar o dinheiro público para ajudar os partidos. Isso é a base do mensalão, do petrolão e tudo mais.

Como mudar a cultura política?
O primeiríssimo ponto é pela ação da opinião pública e da população mais politizada, radicalizando o que já tem sido feito, por exemplo, com a Lei de Improbidade Administrativa, com a Lei da Ficha Limpa. Mas é urgente democratizar por dentro os partidos políticos.

De que forma?
As direções dos partidos políticos brasileiros – os grande e os pequenos – permanecem no cargo por mais de 20 anos. Não existe candidatura, nem propaganda política, sem autorização deles. São donos do cofre, das candidaturas e das alianças. E o que prevalece são relacionamentos de troca entre os dirigentes dos partidos. Com isso, você não tem renovação. Não há mais lideranças como Ulysses Guimarães, como Mário Covas, Luiz Inácio Lula da Silva – no passado – e Leonel Brizola, que tinham expressão nacional. Outro ponto: nenhum partido brasileiro tem eleições primárias. Muitos dizem que o eleitor colabora com esse descalabro porque não se compromete com os políticos e nem sabe o nome do deputado em quem votou. Mas, pergunto, como a pessoa vai estar comprometida se ela não foi consultada no processo anterior? Quando o eleitor chega à urna, o prato já está feito. Então, se não houver essa democratização dos partidos políticos não vai ter juventude dentro dos partidos. Porque o jovem que queira militar vai ter que aderir a esses donos dos partidos.

É necessária outra forma de pensar a política brasileira?
Acho que é necessária uma reforma ética.

O que seria essa reforma?
Ética é o conjunto de atitudes corporais e mentais que, uma vez aprendidas ou praticadas durante longo tempo, tendem a se tornar automáticas. A ética da política brasileira é sempre a troca de poder descartando programas, posições doutrinárias etc. É aquela velha pergunta: “O que eu vou ganhar com isso? Ou o que o meu partido vai ganhar?” Não se pergunta: “Como eu posso colaborar? Como o meu partido poderá colaborar para o refinamento e a melhoria da sociedade e do Estado?” Quando você chega nesse automatismo, só uma crise forte criará algo novo na política brasileira. Numa crise muito forte, o automatismo já não é mais eficaz – e é o que está ocorrendo agora. O desafio da crise é justamente você inventar, criar novas formas de relacionamento político. O espaço está aberto para isso.

O que se viu na votação do impeachment na Câmara pode impulsionar essa reforma?
Há setores da sociedade que estão assumindo posições cada vez mais fortes na direção da democratização. Eles podem pressionar pela mudança na estrutura dos partidos. Até aqui, o efeito desse espetáculo indecoroso dos políticos foi a criação de uma maior desconfiança no sistema de representação parlamentar. Pesquisas feitas na América do Sul mostram que aumentou o ceticismo pessoas diante do sistema de representação e isso é muito perigoso.

Os políticos e os brasileiros subvalorizam a democracia?
Não vivemos a democracia ainda, não vivemos sob o signo da responsabilização. O que importa numa democracia é o uso da responsabilidade no dia a dia. Se você é um prefeito e faz o projeto de uma ponte, tem que levar essa ponte até o final. O que se vê no cotidiano das administrações brasileiras é antidemocrático. Você começa uma estrada e não termina, começa um hospital e não termina. Quando termina, acontece o que ocorreu com a passarela ciclística no Rio de Janeiro. Vivemos num regime que ainda não incorporou as bases modernas da democracia.

Existe luz no fim do túnel?
A única oportunidade que vejo de mudança reside nessa cidadania que luta e que exige através de instrumentos vários, como a internet e a imprensa, e luta contra essa ética antidemocrática dos nossos políticos. O absolutismo foi conhecido como o regime mais corrupto da humanidade, porque nele tudo se vendia. Mas no absolutismo nunca se teve notícia de um rei pagar a carruagem do cardeal ou do duque. Aqui no Brasil o povo paga a carruagem, do vereador ao ministro, e são bilhões que vão nesse privilégio, que poderiam se aplicados em escola, tecnologia e segurança.

As manifestações de rua vieram para ficar?
Sim. É um fenômeno muito interessante. E muito saudável, se se retirar o sectarismo presente nelas.