Para Delfim, Temer precisa ‘convencer o País de que ajustes não são maldade’

Sonia Racy

16 de maio de 2016 | 00h40

 

 

FELIPE RAU/ESTADÃO

FELIPE RAU/ESTADÃO

Crítico do governo Dilma e ciente dos desafios
que Michel Temer enfrentará, ex-ministro
acha crucial que ele convença o eleitor
de que corrigir os erros é a única saída.

Também neste governo Temer, Delfim Netto certamente será chamado a opinar. Como vem fazendo nos últimos 50 anos, tendo começado nos governos militares quando ficou conhecido pelo “milagre brasileiro” (1968-1973), nos tempos em que o Produto Nacional Bruto (PNB) crescia, em média, 10% ao ano.
Muito próximo a Temer, com quem costuma almoçar regularmente em São Paulo, o ex-ministro, ex-deputado e afiadíssimo economista de 88 anos, 24 deles no Congresso como deputado, acha que Temer “recebeu um presente de Deus, que pôs o dedo nele e disse: ‘Você é um político eficaz. Estou lhe dando a chance de ser um estadista. Você não tem mais passado, você só tem futuro. O seu futuro vai ser escolhido agora. Você vai fazer nesse curto prazo o que tem que ser feito. Plante carvalho ao invés de plantar couve”. Sobre Dilma, afirmou: “A aprovação dela melhorou, quanto mais ela errava mais melhorava”.
Semana passada, pouco antes de Temer assumir, ele falou à coluna no seu escritório em Higienópolis.

Na atual situação, só o político salva a economia ou só a economia salva o político?
Na verdade, em qualquer circunstância, o economista tem a pretensão de que as suas medidas sejam tão perfeitas que mesmo quando elas impõem um sofrimento dramático à sociedade, como ele sabe que está apoiado na ciência, faz aquela maldade com a maior tranquilidade por acreditar que ela vai salvar o cidadão. Há vários equívocos nisso. Primeiro, que a economia não é uma ciência. Não existe nenhuma hipótese de você ter soluções científicas para problemas econômicos. O Temer tem toda razão quando diz que não há escassez de diagnóstico. Todo mundo sabe o que fazer, não importa a escola a que se pertença. Há uma pequena diferença aqui ou ali, mas todos sabem que você tem que fazer um ajuste nesse desequilíbrio fiscal, estrutural, que está dentro da Constituição. Também não há nenhuma escassez de talentos para executar essa tarefa.

E por que não se executa?
Porque para executar essa tarefa precisa de uma maioria política sólida convencida de que aquela é a solução. Uma maioria que não se restrinja ao Congresso, mas que vá aos eleitores mostrar que não se trata de nenhuma maldade, e sim de corrigir alguns defeitos do processo, e que precisamos fazer.

Está claro o que precisa ser feito. Mas como?
Tem de convencer a sociedade de que não ela não vai ficar sem a aposentadoria. Na verdade, vão se criar condições para que todos se aposentem. Vão se eliminar as grandes diferenças entre o setor público e o privado, corrigir problemas da Previdência no setor agrícola. Sem atacar direitos adquiridos. Então, só o político pode salvar o economista.

O governo Temer terá forças para aprovar tais medidas?
Deixa eu lhe dizer: o governo começa com os 367 votos na Câmara e 55 no Senado. Quantos ele vai ter daqui 90 dias, não sei. Mas uma coisa é segura: é preciso levar as propostas constitucionais e deixar o Congresso trabalhar… Ele precisa de trabalho. Você tem que levar ao Congresso o que você precisa, o que a nação precisa – e ele em geral melhora a proposta. Tem que ocupar o Congresso com coisas corretas.

Esta é a função do Executivo?
Sim. Se o Executivo não tem protagonismo, não funciona. Não se pode ter um presidencialismo de coalizão que nem presidencializa e nem coaliza. Então, ele começa presidente, com capacidade pra coalizar. Ele tem que deixar no Congresso as necessidades do País, porque o Congresso não quer o mal do País. Ele se desorganizou por causa da disputa entre Executivo e Legislativo, que foi uma disputa insensata – a intervenção do Executivo na eleição da Presidência da Câmara.

Qual será, nesse processo, o impacto da saída de Eduardo Cunha?
Ele pode ter todos os problemas, mas nunca houve um presidente com a eficácia do Cunha, que conhecesse tão bem o regimento, que seja capaz de fazer as coisas caminharem. Não é possível dizer que sob sua presidência o Congresso não tenha andado muito mais depressa. Aprovou maluquices, mas podia ter aprovado coisas muito boas.

Acha que o destino de Renan tende a ser o mesmo de Cunha?
Não há a menor dúvida de que a Lava Jato é um momento de inflexão. O Brasil será (depois dela) completamente diferente. A manifestação da Andrade Gutierrez, reconhecendo os equívocos, é apenas uma. Ela está acontecendo em outros campos, em outras empresas, sem esse pedido público de perdão. E as instituições estão cada vez mais sólidas e ajudarão o País a crescer mais depressa. O STF tem se comportado, na minha opinião, de maneira absolutamente correta.

Com a indicação de Henrique Meirelles, a iniciativa privada sossegou em relação à parte técnica da Fazenda. Hoje estão mais voltados para a atuação de Romero Jucá, que será o grande responsável pela relação entre Executivo e Legislativo. Concorda?
O Jucá é um craque, está nisso há mais de 40 anos, trabalhou conosco, com Andreazza, foi interventor em Rondônia, foi governador. Conhece Orçamento como gente grande, tem uma habilidade política extraordinária. E vou dizer uma coisa, a minha hipótese é que ele será um excelente ministro do Planejamento. É operacional, sabe o que precisa ser feito.

Ante as denúncias da Lava Jato, acha que a situação dele é frágil?
Uma simples denúncia não significa nada. Ele vai ser julgado, se for condenado é outra coisa.

Acha temeroso Temer nomear gente que possa, a curto, médio ou longo prazo, ser alcançada pela Lava Jato?
Na minha opinião, ninguém pode prejulgar isso. Quer dizer, a presunção de inocência continua sendo um dos fundamentos de toda a sociedade civilizada. Então, quem for acusado vai se defender.

O sr. tem dito que tem muita gente querendo trabalhar no governo Temer. Mas por que são sempre os mesmos? Por exemplo, o ex-presidente Lula defendia Henrique Meirelles para Fazenda e também o Jucá para ser o líder de governo.
Porque o Lula é um pragmático. O Lula é uma inteligência privilegiada e um grande administrador. Tem uma intuição muito poderosa. De forma que quando ele defendeu o Meirelles e o Jucá, na minha opinião ele sabia o que estava fazendo.
O sr. já esteve muito próximo da presidente Dilma. Depois, houve um certo afastamento.
Eu acho a Dilma, pessoalmente, absolutamente correta. Nunca tive nenhuma amolação com ela. Eu me separei, diminuí a minha presença, e ela também não me convidou mais. Mas em dezembro de 2012, quando houve aquela quadrangulação fantástica que transformou chumbo em ouro…

Como assim?
Ela transformou a dívida pública, colocou recursos no BNDES, o BNDES pagou e virou superávit primário. Aí, na verdade, acho que foi o instante em que o governo atingiu uma situação muito delicada. Ela fez em 2011 um governo muito bom, em 2011 cresceu 3.9, a inflação ficou no limite superior da meta…

A complicação econômica não veio de anos anteriores?
Não, ela estava só corrigindo algumas coisas do Lula. Tanto assim que a relação dívida-PIB caiu. Teve superávit primário, teve superávit fiscal. Ela começou a errar em 2012, quando fez a intervenção na energia, quando começou a fazer voluntarismo. Quando fez a intervenção na taxa de juros.

Mas ela já não influía nas decisões da Petrobrás antes?
Não, não tinha destruído ainda o setor energético, não tinha destruído o setor sucroalcooleiro. Aqui é uma coisa muito interessante, para a qual a gente deveria chamar a atenção. Dilma atingiu o máximo da sua popularidade no Datafolha quando estava no máximo dos seus erros. Entrou em 2012 com aprovação elevada. Quando pôs a mão na energia elétrica a aprovação dela subiu 6 pontos. Quando pôs a mão no câmbio, na queda de juros, subiu mais 6 pontos…

O sr. quer dizer que ela entrou numa fase populista?
Esse é que é o problema central… quando você foca no curto prazo sem levar em conta o longo prazo. A aprovação da Dilma melhorou, quanto mais ela errava mais melhorava.

O senhor culpa as pesquisas?
Não. As pesquisas são ótimas porque mostram como você pode errar com conforto. Na minha opinião, a Dilma deixa uma lição para os futuros presidentes, para pessoas que têm responsabilidade. É que não se pode administrar olhando a aprovação de curto prazo. Tem que olhar o futuro.

Que conselho daria a Temer?
Ele é normalmente um homem muito cuidadoso. E a meu ver não tem nenhuma razão, hoje, pra se meter numa política voluntarista.

Se daqui a 180 dias o processo reverter e Dilma voltar ao governo, o que acontece?
Tudo vai piorar. Ou seja: pobre Brasil, vai ter que esperar 2018. A ideia de que a Dilma recupere o seu protagonismo, eu até gostaria, mas acho que é impossível.

Temer tem muito pouco tempo para mostrar a que veio. Ele deve olhar as pesquisas?
Não, o Temer não tem que olhar para pesquisas coisa nenhuma. Ele recebeu um presente de Deus, que pôs o dedo nele e disse: “Você é um político eficaz. Estou lhe dando a chance de ser um estadista. Você não tem mais passado, você só tem futuro. O seu futuro vai ser escolhido agora. Você vai fazer nesse curto prazo o que tem que ser feito. Plante carvalho ao invés de plantar couve”.

Como ele vai tomar medidas duras e agradar ao Congresso?
Há no fundo uma mudança de concepção. O Congresso sabe que o que vinha sendo feito é impossível. Se continuasse assim, iria para o buraco. Se esse negócio agora não der certo, a probabilidade de essa gente se reeleger é zero. Em 2018 vão todos para casa. Você não pode ter o Brasil sem administração. Essa narrativa de que tudo o que existe é maldade é equivocada. A correção vai ser benigna.

No médio e no longo prazo?
Na reforma da Previdência, ninguém pretende dizer pro sujeito: “Você perdeu sua aposentadoria”. Não existe isso. Ou então: “Você perdeu a sua Bolsa Família”. Não existe isso. Você precisa de um governo ativo, que tenha comunicação não só com o Congresso, mas com a sociedade, para explicar o seguinte: “Eu não estou tirando o seu direito, estou tirando, na verdade, o parasitismo que tem nesse direito. Estou tirando aquilo de que grupos bem organizados se apropriaram e que você, brasileiro, paga”. Quer dizer, você vai ter que mostrar à sociedade que corrigir a aposentadoria é para poder continuar pagando aposentadoria. Que corrigir a vinculação é para poder melhorar a qualidade da administração e exigir eficiência. Terceiro, que continuar a usar o salário mínimo como um instrumento importante de redistribuição de renda só pode acontecer se eu eliminar o seu papel de indexador. Quarto, que eu preciso de uma liberdade de negociação entre trabalhadores e empregados. E por quê? Porque o sistema brasileiro pressupõe que o trabalhador é um idiota e que o empresário é um ladrão, então precisa ter um juiz no meio. Nada disso. Sob o controle do sindicato, deixe que trabalhadores e empregados coloquem na mesa transparentemente o futuro da empresa e discutam entre si como distribuir o excedente.

Essa receita, existe há vinte anos. Por que é que, desta vez, ela vai andar?
Porque a minha esperança é que o Temer continue sabendo fazer tricô com quatro agulhas.