Para deixar de fumar

Sonia Racy

02 de novembro de 2011 | 23h01

Drauzio Varella está próximo de sua maior conquista. Vem se empenhando em uma grande campanha de mobilização popular para que fumantes deixem o vício. Uma semana antes de Lula ser diagnosticado com tumor na laringe – do qual o tabagismo é fator de risco –, o médico recebeu a coluna para falar sobre seu novo quadro no Fantástico, Brasil sem Cigarro. A estreia, domingo, acompanhará alguns personagens que querem parar.

A coluna voltou a falar com Drauzio assim que o câncer do ex-presidente foi diagnosticado. Sua opinião? “Não comento casos de pacientes tratados por outros médicos. Acho antiético.”

Por que uma campanha dessas agora?

Já conseguimos muito no Brasil. Baixamos o índice de fumantes, que era de 60% dos adultos acima de 15 anos na década de 60, para 16%. Fuma-se menos aqui do que nos EUA e em muitos países da Europa. E até o fumante que jura que não quer parar, na realidade quer, sim. Ele sabe que precisa deixar o vício. Comigo foi assim durante 19 anos.

E como decidiu parar?

Um dia, pensei: “Não tem mais cabimento fumar”. Nunca mais coloquei um cigarro na boca.

E o álcool?

O problema do cigarro é pior. A droga fumada é compulsiva. Não existem 16% de adultos alcoólatras no Brasil. O problema é grave, tem custo social alto, mas quem bebe com controle não é alcoólatra. Na outra mão, todos os fumantes são, necessariamente, dependentes de nicotina.

E os que dizem “não fumo mais, é só um cigarrinho de vez em quando”?

Isso não existe, porque ninguém se cura da dependência química. Quando para de fumar, vira ex-fumante. Mas a vontade sempre existirá.

Ex-fumantes reclamam muito de sonhar que estão fumando.

É um sonho recorrente. O alcoólatra também sonha que está tomando uma cerveja, caipirinha. Eu já sonhei que estava fumando. E acordei assustado.

Como deixar o vício?

É essencial estabelecer uma data, porque todo ex-fumante se lembra de quando parou. Nós escolhemos o dia 13 de novembro. Também é importante ter um pouco de controle sobre o próprio corpo. Comece cortando o número de cigarros pela metade. Depois, atrase, em duas horas, o primeiro cigarro do dia. Assim, o fumante começa a perceber que pode mandar no cigarro. Se consegue ficar duas horas sem fumar de manhã, por que não tentar um dia inteiro?

Quais os medos do fumante?

Toda droga destrói o caráter do sujeito. Ele acha que não vai conseguir. Então, um grande medo é lidar com a ansiedade provocada pela crise de abstinência. Existe o medo de engordar, de perder a concentração. Ele quer parar de fumar e continuar feliz. Isso não existe. O organismo vai pedir o cigarro. A nicotina não vem sozinha, mas com quatro mil compostos diferentes. E a uma temperatura altíssima. Vai parar nos brônquios e alvéolos. E toda aquela fuligem não tem por onde sair.

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