Para cineasta, um país sem memória ‘é difícil a gente saber o que é”

Para cineasta, um país sem memória ‘é difícil a gente saber o que é”

Sonia Racy

23 de novembro de 2015 | 02h00

Foto Iara Morselli

Foto Iara Morselli

Depois do sucesso com o documentário sobre Vinícius de Moraes, o cineasta Miguel Faria Jr. lança outro com Chico Buarque, fala da dificuldade de obter material e lamenta que o País não saiba preservar o passado

A vontade de levar adiante uma reflexão sobre o artista e seu tempo – iniciada com um documentário sobre Vinícius de Moraes em 2005 – levou o cineasta Miguel Faria Jr. a propor ao amigo Chico Buarque um novo filme. Dessa vez, com o compositor comentando sua obra musical e literária, o contexto histórico de sua trajetória. “No começo ele ficou um pouco receoso, mas depois foi supergeneroso. Só disse que não queria participar, queria ver pronto. Eu falei: ‘Está bem, preciso de você para cantar duas músicas e, sei lá, 15 dias de entrevista’”. O filme começou assim, “sem nenhuma pretensão de cobrir a biografia do Chico”.

Amigos de longa data, a proximidade ajudou e atrapalhou. “É uma responsabilidade quando uma pessoa lhe dá carta branca. Você não quer quebrar a confiança, mas também não quer fazer um filme chapa branca”, resumiu o cineasta em entrevista à repórter Marilia Neustein, durante passagem por São Paulo para divulgar o longa. A estreia, em rede nacional, é na quinta-feira.

Indagado sobre o tratamento que se dá, no País, à preservação da memória, Faria Jr. afirmou: “Me dá muita pena. Os materiais de arquivo estão em péssima condição. Realmente isso não é uma preocupação”. Abaixo, os melhores trechos da entrevista.

Como foi a ideia de fazer o filme e afinar para chegar nessa linguagem?
A história é a seguinte: em 2005 eu fiz um filme sobre o Vinícius de Moraes. Ele nasceu em 1913, começou a trabalhar em 1930 e produziu intensamente música e literatura até os anos 70. O filme acompanha um pouco essa trajetória do Vinícius e as transformações que o país viveu dos anos 30 até os 70. Aborda como essas mudanças influenciam um artista, como seu trabalho reflete aquele tempo, como tudo isso influencia o comportamento de várias gerações. Quando acabei o filme, queria continuar com essa reflexão. E nada mais natural do que o Chico Buarque. É meu amigo, um ícone, um artista que continuou na linha que tem a ver com a do Vinícius. O filme não tem nenhuma pretensão de cobrir a biografia do Chico. Até porque muitas coisas que abordam a biografia dele já foram feitas.

E como foi a busca desse formato de documentário?
Nesse processo de criação, não tinha melhor pessoa para falar sobre o Chico do que ele mesmo. Então eu comecei a entrevistá-lo. A conversa seguia uma certa cronologia da vida dele, o caminho rumo à maturidade. Um homem de 70 anos falando. Eu tentei ser o mais natural possível. Gravamos muitas horas. Temos muito material, e o trabalho de edição foi complicado e importantíssimo.

Como documentarista, acha que o Brasil é pouco generoso com sua memória? Que não existe interesse em se preservar a história?
Acho que sim. Tanto que tivemos muita dificuldade com o material de arquivo do filme – a preservação das imagens é muito ruim. E estamos falando de coisas de dez, quinze anos atrás! A precariedade da captação em vídeo e da conservação é impressionante. Acho triste. O melhor que se tem de pesquisa no documentário é um material de fora do País, incrivelmente bem conservado. Pela televisão francesa, alemã, portuguesa, italiana… Mas não é só esse tipo de conservação. Mesmo da arquitetura, nas ruas. Eu fiz um filme do Xangô, que se passava no final do século passado, e tive que filmar em Portugal, porque aqui não se encontrava um cenário. Me dá muita pena isso. Se um país não tem memória, é difícil a gente saber o que ele é.

O filme aborda muito o período da ditadura e as dificuldades do Chico na época. Hoje, há até grupos que pedem a volta daquele regime. Como vê isso?
Acho que, primeiro, faz parte um pouco dessa falta de memória. As pessoas mais jovens não viveram aquele período. Mas isso é algo cíclico na história do Brasil. As tentativas de golpe. Desde a proclamação da República é assim, sempre os militares intervieram e saíram. Em 1964 resolveram não sair. Então, foi um momento dramático. Fico muito assustado com essa falta de tolerância que estamos vivendo. E o Chico é uma pessoa que comprou uma briga pessoal também, independente da coisa política. Chatearam muito ele, prenderam, censuravam por bobagem. Isso fica muito evidente no filme e foi uma preocupação mostrar isso.

E você sempre gostou de história? Porque no filme sobre Vinícius também fica clara essa disposição de fazer uma contextualização histórica
Eu adoro história mas, pra mim, esses filmes representam um pouquinho do que eu vivi. É a minha geração. O Vinícius foi meu amigo, fui casado com a filha dele muitos anos. Já o Chico é o meu melhor amigo. Pra mim é presente, não passado. Essa história se confunde um pouquinho com o presente.

Quais as maiores dificuldades que teve para fazer o filme?
A proximidade tem um lado que facilita o outro que atrapalha. É uma responsabilidade quando uma pessoa lhe dá carta branca. Você não quer quebrar a confiança, mas também não quer fazer um filme chapa branca. Essa é uma dificuldade. Por outro lado, facilita muito. Quando eu propus a ideia ele topou, com um pouquinho de receio, mas foi supergeneroso. Só disse que não queria participar, queria ver o filme pronto. A gente se encontrava muito mas não tocava no assunto do filme. Depois de pronto, ele disse que gostou. Ele é um pouquinho suspeito, mas disse que gostou.

Você já disse em outras ocasiões que ele não é tímido, é reservado…
Já falei isso. O Chico não é nada tímido. No entanto, é um cara que fez sucesso muito cedo e levou muita porrada. Então foi ficando uma pessoa defendida, se não tiver uma certa confiança ele é bem complicado. E muito assediado por jornalistas com muita pergunta agressiva, indiscreta. Não é um cara disposto a expor sua vida. Então foi criando uma capa, algo que não é ele. No filme do Vinícius, o Chico diz não saber se uma pessoa como o Vinicius poderia existir nos dias de hoje, com aquela generosidade, aqueles valores… Mas o Chico também é um artista assim e continuou. Foi tendo que se adaptar, criando uma couraça aqui, outra ali. O que eu quis passar no filme foi o trabalho que dá ser um artista, tentar se manter íntegro para a sua criação, não se atrapalhar com fofoca… coisas assim.

Seu filme sobre o Vinícius surpreendeu pelo número de espectadores. Você ficou surpreso na época?
Fiquei. Foi genial, porque quando fiz o filme eu não tinha a menor ideia. Achei que o destino dele ia ser só televisão. Foi uma surpresa ótima, não esperava nada. Já neste filme de agora estou mais tenso, na expectativa.

Nesses dez anos entre um documentário e outro, o que você sente que mudou , em termos de produção e de interesse de parte do público?
Esse foi o primeiro filme que eu fiz em digital, por exemplo. O do Vinícius era em filme. Isso mudou muito. Não sei se mudou exatamente para facilitar, como a maioria das pessoas acham. Para você ter uma qualidade é uma trabalheira. E a partir do Vinícius houve uma onda de público, muito filme sobre compositor de música, o interesse aumentou muito. É superbacana. É difícil porque o mercado brasileiro é difícil, o documentário tem um público ainda restrito, mas que fica cada vez maior. E não é só no Brasil, acho que no mundo inteiro está acontecendo isso.

E você pensa em voltar a fazer ficção?
Penso. Entre o Vinícius e este filme de agora tentei fazer dois filmes de ficção que não consegui. Adaptar o livro do Chico, Leite Derramado – que acabou não acontecendo porque era uma produção caríssima, meio inviável para o Brasil. Depois escrevi um outro roteiro sobre a inveja, tema de um livro do Zuenir Ventura, e também foi a mesma história, acabou não saindo. Essas coisas acontecem, projetos que vão para o paraíso.

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