Para Calloni, o mundo está ‘assustado’ e se protegendo ‘de maneira histérica’

Para Calloni, o mundo está ‘assustado’ e se protegendo ‘de maneira histérica’

Sonia Racy

22 de abril de 2019 | 00h30

ANTONIO CALLONI. FOTO: RAMON VASCONCELLOS/GLOBO

ANTONIO CALLONI. FOTO: RAMON VASCONCELLOS/GLOBO

Para Antonio Calloni, que interpreta um estuprador
na série Assédio, da Globo, entre o bem e o mal
‘o ser humano é capaz
de tudo’ e cabe às pessoas fazer
suas escolhas.
E avisa: “O meu trabalho
de pesquisa é a própria vida”.
 .

Em sua próxima passagem pela TV aberta, o ator Antônio Calloni vai viver um personagem que descreve como “um monstro”, que “cometeu crimes hediondos” e é punido por isso. Ele interpreta o antagonista da série Assédio – exibida pela Globoplay e que chega à TV aberta no dia 3 de maio. Trata-se do fictício Roger Sadala, personagem inspirado em Roger Abdelmassih, condenado a 181 anos de prisão por 48 estupros contra 37 mulheres.

Porém, em entrevista à repórter Paula Reverbel, o ator reitera que não se deve negar a humanidade do personagem. “Ele cometeu crimes hediondos, mas é um ser humano. Quem está distraído pode achar que se trata de defendê-lo. “Não é uma defesa”, explica. Para o artista, todas as pessoas são capazes de fazer o bem o ou o mal, cabendo a cada um a responsabilidade de optar por escolhas que resultem em coisas boas. Mas ele adverte: “O mundo está muito assustado, está com medo e vem se protegendo de maneira histérica”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Você teve que entrar na cabeça do vilão para conseguir interpretá-lo?
Em primeiro lugar, não acho que ele seja um vilão. É um criminoso, cometeu crimes hediondos, mas é diferente do vilão. Vejo-o como um cara doente que, por causa da doença, cometeu os crimes e foi punido por isso. Outra coisa importante a deixar claro é que o Roger Sadala é livremente inspirado na história de Abdelmassih. Então, não tive a preocupação de fazer o Abdelmassih, não é esse o propósito. Mesmo porque não sou careca, tenho olho azul…

Por que diz que o personagem do Roger não é vilão?
Não sei se dá para entender bem o meu raciocínio. Eu não estou querendo de maneira alguma – pelo amor de Deus – livrar a cara dele não, mas ele é um criminoso que cometeu crimes hediondos. É diferente de um vilão, não é? Porque ele tem uma família que ele ama – à maneira dele. Ama a mulher dele, ama os filhos, ama a mãe dele, muito. O que não justifica nada do que ele fez, ele não pode fazer o que bem entende da vida. Mas o que quero dizer com isso é que ele tinha uma vida cotidiana de um grande médico. Não se trata daquele vilão clássico, ele é um criminoso. É bem diferente.

Então você não quer negar o lado eventualmente bom desse personagem, é isso?
Não quero negar, de jeito nenhum. Até porque tem uma coisa que a gente reluta muito a aceitar: nós somos capazes de fazer o bem e de fazer o mal. Somos capazes de amar, de odiar, de agredir, de fazer carinho. Todos nós somos capazes de absolutamente tudo. Algumas pessoas não querem admitir. O que quero dizer com isso é que nada que é humano me é estranho.

O que é humano para você?
Vou lhe dar um exemplo: eu, Antônio Calloni, sou capaz de fazer tudo, tenho a possibilidade da escolha. Como posso escolher, eu escolho ser bom. Escolho fazer coisas boas, produzir coisas boas para mim e para a sociedade. Agora, eu tenho dentro de mim todas as possibilidades, assim como você, assim como todo mundo. Às vezes me perguntam: “de onde você tirou a agressividade, de onde você tirou a maldade?” Como se ela estivesse fora da gente. Não está. Isso é uma coisa óbvia que eu estou lhe falando, mas às vezes não enxergamos o óbvio. Tentamos fazer um raciocínio sofisticado antes de entender o que é simples. Resumindo: somos capazes de tudo. E tomara que façamos escolhas boas.

Como se preparou para fazer esse papel?
É claro que eu fui numa clínica de reprodução assistida – o mesmo laboratório que eu já tinha visitado em função da novela Escrito nas Estrelas, em que eu era um médico super do bem – e conversei com o (dr. Luiz Fernando) Dale. Ele é um cara que inclusive conheceu o Roger (Abdelmassih) e declarou a um jornal aí que eu incorporei o espírito dele. Fiquei muito feliz com isso. Também vi muitos depoimentos do Roger Abdelmassih e estudei casos de outros criminosos. Mas a preparação para esse personagem é exatamente a mesma de outros personagens.

A mesma?
Sim, a mesma. Eu trabalho com a vida. A vida como ela é, parafraseando Nelson Rodrigues. O meu trabalho de pesquisa é a própria vida, ou seja, eu estou sempre pesquisando. Não chego ao ponto de ficar observando tudo cientificamente: vivo de maneira relaxada e sinto muito prazer em viver e fazer o meu trabalho. Mas a pesquisa do ator é constante. Sem ser chato – não estou observando as coisas de uma maneira distante, eu estou vivendo plenamente tudo o que eu tenho que viver.

Do que você mais gosta na história contada pela série?
Ela mostra a batalha e a vitória de um grupo de mulheres corajosas. Esse é o mérito da série. Através da história desse cara, que consegue ser ao mesmo tempo protagonista e antagonista, a série mostra a batalha, a coragem e a vitória dessas mulheres. Isso que é bonito e é por isso que eu tenho muito orgulho de tê-la feito.

Muitos casos de abusadores seriais têm vindo à tona. Esse tipo de narrativa – sobre a batalha e a volta por cima das pessoas afetadas – é importante nos dias de hoje?
Sem dúvida. Tem uma função política fantástica. A gente está em um momento em que a ferida em si – essa coisa machista que já vem de anos – parece um furúnculo. Esse pus está saindo e vai ter uma hora em que você vai limpá-lo. Porque não é possível mais as mulheres sofrerem esse tipo de violência. Então essas narrativas contribuem para essa discussão. Fora isso, a série tem um tratamento artístico que é de Primeiro Mundo. As pessoas não só vão se sentir provocadas politicamente, mas também artisticamente. Vão se emocionar, vão vibrar com os personagens. Vão sentir raiva desse médico. E vão discutir esse problema que – meu Deus do céu – tem que acabar!

A roteirista, Maria Camargo, falou de cuidados tomados para não se glamourizar a violência.
É. Sem glamourização do estupro. As cenas de estupro, na verdade não são cenas de sexo, são cenas de violência. Isso que a gente quis mostrar. E isso é bacana. Porque o Roger Sadala é carinhoso com a mulher dele. Tem o início de uma cena de sexo com a mulher dele que é um momento carinhoso. Tem algumas outras cenas que são, vamos dizer, mais quentes, com a personagem da Paolla Oliveira. Cenas de sexo consensual, ela gosta dele. Mostra que é possível que esse cara seduza uma mulher normal. Apesar de ele ser um monstro.

É verdade.
Por isso que estou lhe falando: ele cometeu crimes hediondos, mas é um ser humano. E, às vezes, quando a gente diz que ele é um ser humano, quem está distraído pode achar que o estamos defendendo. Não é uma defesa. As pessoas querem tirar a responsabilidade das costas, mas nós somos capazes de tudo. Façamos boas escolhas. O Brasil está precisando disso.

Aproveitando o gancho para falar de Brasil, aceita comentar o momento que vive o País?
Eu estou bem atento à situação política do Brasil e bastante preocupado e atuante no meu dia a dia. Tenho só uma rede social, que é o Instagram, e eu sempre posto coisas no meu stories. Me interesso pela política e me manifesto sempre pessoalmente na minha roda de amigos e através da única rede que tenho. O que eu tenho para te dizer é que a gente está com um talento para o não debate que é uma coisa sensacional. Nós conseguimos não debater as coisas de uma maneira brilhante. Você entendeu o que eu estou falando, né?

Acho que sim.
O que eu quero dizer com isso é que as pessoas acham que só existe dia ou noite. Entre o dia ou a noite, existe o amanhecer, o entardecer, o pôr do sol. Existem várias nuances de temperaturas, de luminosidade. E as pessoas estão deixando de ver todas as nuances para ver só o dia e só a noite. Perderam todas as nuances entre o bem e o mal. O bem pode conter o mal, o mal pode conter o bem. As pessoas não entendem isso. Estão exacerbadas. O mundo está muito assustado, está com medo e vem se protegendo de maneira histérica. Ou a gente passa por isso com um certo equilíbrio ou não vai dar certo.

Você se arrisca a dizer explicitamente quem você acha que são os histéricos?
Não, não me arriscaria a apontar qual é o grupo mais histérico porque existem vários deles. Não é por medo de me colocar, é porque as coisas estão muito misturadas. A histeria é quase geral hoje em dia, a gente tem que garimpar as pessoas equilibradas. Elas existem. É importante não demonizar a classe política porque existe no meio dela pessoas equilibradas. Agora, ainda existem muitos políticos que não necessitam ser demonizados porque eles já fazem esse trabalho brilhantemente bem, se encarregam disso com maestria. Mas é importante realçar: existem políticos equilibrados sim, a gente tem que apoiar. Eu tenho fé na política. Eu acho que só através dela e do trabalho é que vamos para frente.

Você disse que sente muito prazer fazendo seu trabalho. Há atores que dizem ter uma relação mais sofrida…
Eu detesto sofrer! Em qualquer circunstância: eu não gosto nem de dor de dente, nem de dor de cabeça, eu não gosto de nenhum tipo de dor, mesmo que seja pouca. Detesto. Não vejo a menor graça no sofrimento. Acho graça no prazer. Sempre sinto um extremo prazer quando estou exercendo o meu ofício. Não é um mar de rosas, existem dificuldades, a frustração, os problemas. Não estou imune a essas coisas. O que estou falando é que não valorizo essas coisas. Eu valorizo o prazer.

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