“Pânico também pode causar falta de ar”, diz pneumologista

“Pânico também pode causar falta de ar”, diz pneumologista

Sonia Racy

21 de março de 2020 | 00h51

Pneumologista Carlos Jardim – Foto: Site Drauzio Varella

“Pessoas que já têm diagnóstico de asma, bronquite crônica, enfisema ou outras enfermidades pulmonares ou cardíacas podem ter um agravamento pontual de sua condição, mesmo que não seja pelo coronavírus. Ninguém deve interromper tratamentos crônicos dessas doenças sem orientação médica por medo de ficar mais suscetível ao vírus do momento. A melhor chance de passar bem por esse período é cuidar da saúde, tomar os remédios de uso habitual, ter cuidado redobrado com a higiene e seguir as recomendações das autoridades sanitárias que podem mudar ao longo do tempo, à medida que entendemos mais o que se passa. E procure atendimento se a falta de ar for intensa lembrando que o pânico pode também provocar falta de ar”.

A informação acima é do pneumologista Carlos Jardim. O médico, que também é professor, acredita na profunda dissecação da informação como ferramenta para tentar orientar a busca por atendimento. Bem como para reduzir a ansiedade e o medo do pior. E dá mais dados: de acordo com os primeiros estudos populacionais publicados por médicos chineses, 99% dos pacientes com Covid-19 têm febre, 70% apresentam cansaço ou fadiga e quase 60% têm tosse seca.

Aponta também que cerca de 30% dos pacientes se queixaram de falta de ar. “Esse sintoma se correlacionou com um número maior de pneumonias que, por sua vez, levou à hospitalização”, explica. O tempo médio entre o início dos sintomas e o aparecimento da falta de ar, na China, foi de uma semana. “Às vezes é difícil entender se a falta de ar é cansaço ou falta de fôlego – existe um grande campo de estudo que investiga esse sintoma que no jargão médico tem o nome de dispneia.

Para ajudar a perceber se você ou alguém que você conhece sente falta de ar em repouso ou com pequenos esforços – ,como ir ao banheiro ou ao se vestir – o sintoma deve ser valorizado, no ver o ex-coordenador da comissão de circulação da SBPT. Agora, se a falta de ar acontece somente com grandes esforços, como subir escadas, lavar roupas, carregar sacolas de compras, “é muito provável que isso seja uma manifestação do cansaço ou fadiga.

O fato é que os pulmões são a maior superfície de contato do corpo humano com o mundo. Segundo explica Jardim, para que o nossas células recebam oxigênio, há um delicado e engenhoso sistema que leva o ar ao encontro do sangue. Para uma operação tão importante, um grande número de processos deve ocorrer sem falhas. “A emergência da pandemia de Covid-19 trouxe à luz o que pode acontecer quando um vírus consegue vencer as barreiras impostas aos invasores: a pneumonia viral, contínua”.

A doença começou a ser investigada na China. Após alguns meses, com a epidemia instalada em diversos países, os médicos e cientistas começaram a aprender como a doença se manifesta e quais são os sinais de alarme indicando maior gravidade. “Com a impossibilidade de atendimento a todos, entidades internacionais e nacionais nos dizem: procure o hospital se houver suspeita da infecção acompanhada de tosse, febre e falta de ar”, diz Jardim.

Mas esses não são também sinais e sintomas comuns responsáveis por grande parte da procura aos serviços e emergência e consultórios? “Olha, pessoas que já tem diagnóstico de asma, bronquite crônica, enfisema ou outras enfermidades pulmonares ou cardíacas podem ter um agravamento pontual de sua condição, mesmo que não seja pelo coronavírus. Ninguém deve interromper tratamentos crônicos dessas doenças sem orientação médica por medo de ficar mais susceptível ao vírus do momento.”

Ainda segundo o médico, a melhor chance de passar bem por esse período é cuidar bem da saúde, usar os remédios de uso habitual, ter cuidado redobrado com a higiene e seguir as recomendações das autoridades sanitárias que podem mudar ao longo do tempo, à medida que entendemos mais o que se passa. E procure atendimento se a falta de ar for… intensa.

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