Pandemia da covid-19 trouxe alerta a obesos

Pandemia da covid-19 trouxe alerta a obesos

Sonia Racy

31 de maio de 2020 | 00h42

MAURICIO HIRATA – IKE LEVI

Mauricio Hirata já está experimentando o tal “novo normal” ante a pandemia da covid-19 desde que reabriu sua clínica, na Vila Olímpia, no último dia 11, após dois meses fechada. Lá, oferece até máscara face shield aos pacientes. “Tem gente com receio ainda, faz parte”, diz à coluna o endocrinologista, especializado em obesidade, conhecido como ‘médico dos famosos’.

Ele não revela nomes, nem valores. Conta que se sentiu “emocionado” nesse retorno. “Porque a gente cria vínculo afetivo e a falta de contato gera tristeza”, diz o endócrino que mantém a telemedicina e integra o corpo médico clínico do Einstein.

Outra clínica renomada, a Ravenna – nome do conhecido método de emagrecimento trazido ao Brasil em 2009 pelo argentino Máximo Ravenna – segue fechada, em Pinheiros. Mas o telemedicina e os grupos de atividades diversas no Zoom estão ‘bombando’. Exemplo? Moema Soares, sócia das três filiais – SP, Rio e Bahia –, lotou turma de spa online, com 100 pessoas. Quando? Na semana de 8 a 11, véspera do Dia dos Namorados.

Moema, como Hirata, não revela valores dos tratamentos – mas diz que SP e BSB têm os preços mais caros. Seu método consiste em quatro etapas de reeducação alimentar até chegar ao “clube”. É a fase ‘ouro’. Quem chegou lá? Dilma Rousseff, que perdeu 18 quilos em plena campanha à reeleição para presidente.

O Ravenna atende também quem não precisaria perder peso. Caso de Adriane Galisteu que “quis massa muscular”. “Ela é meu orgulho”, diz Moema, que é engenheira química e, com o método, perdeu 47 quilos. Faz manutenção com o ‘cardápio gourmet’. “Eu e a Baby Consuelo adoramos o bobó de camarão com abóbora. A ideia é emagrecer sem sofrer”, conta, citando a cantora cliente. O delivery do restaurante da clínica, aliás, duplicou a demanda.

MOEMA SOARES – FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Com a covid-19, Moema notou que obesos, mulheres com “ninho vazio” e pessoas que moram sozinhas reapareceram à clínica. “Na obesidade, tem muita solidão e ansiedade. Com isso, come-se mais também. Ficamos alertas com a covid-19, mas sem estressá-los”. Esses e outros motivos fizeram o centro médico reforçar equipes de terapia – disponíveis online nos três turnos, incluindo nos fins de semana.

A incógnita sobre quando se dará o fim do isolamento impôs preocupação de ordem prática, na opinião de Hirata: como atender pacientes com doenças crônicas, que precisam de acompanhamento especial? É o caso da obesidade.

O Ministério da Saúde apontou, em abril, uma tendência relacionada às mortes por coronavírus: a obesidade estava mais presente nos óbitos de jovens que nos de idosos. “A pessoa obesa tem três vezes mais chances de ter complicação por covid-19. O obeso tem artérias inflamadas e até o pulmão”, alerta Hirata – acrescentando que diabéticos, hipertensos e cardiopatas também estão nesse grupo que pode sofrer versões mais graves de covid-19. “A telemedicina pode até ser irreversível, mas nada substituirá o contato humano”.

Ele atesta que o isolamento já causou danos psicossomáticos. “Nós, médicos, teremos que dominar essas questões emocionais”. Outro problema é o aumento exponencial do consumo de álcool na quarentena. Ele tem dito aos pacientes que bebida alcoólica é um “falso relaxante” e, com o tempo, a sensação será de dependência.

Com a pandemia, Hirata observou também as pessoas dando mais valor à vida. “Paciente viu que não dá nem pra gastar o dinheiro que tem se não tiver saúde. Está errado em deixar pra se cuidar só pós-pandemia”. Sansei – terceira geração de japonês, ele menciona diferenças culturais que a covid-19 acentuou. “Brasileiro é emotivo, gosta de beijar, abraçar, acho que vamos rever isso. O japonês não tem esse hábito do contato físico. Em Tóquio, o governo removeu o estado de emergência esta semana”, compara o médico.

Aos 58 anos, Hirata, ao contrário de muitos na pandemia, parou de beber, perdeu o apetite. “Parece que o mundo vai acabar. Há uma epidemia de pessimismo também”, diz ele, que se isolou na casa de praia na Riviera de São Lourenço. Já Moema, 58 anos, sem previsão de reabrir a clínica, não pode voltar para sua casa, em Salvador. “Eu fazia três voos por semana. Tô sofrendo de abstinência”. \CECÍLIA RAMOS

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.