Palavra da casa

Palavra da casa

Sonia Racy

12 de abril de 2014 | 01h07

Foto: Denise Andrade/Estadão

Apesar das especulações, Beatriz Pimenta Camargo diz que não vai abandonar o Masp. Tem, sim, lutado para mantê-lo de pé. Mas que a vida não está fácil para museus independentes, não está. É o caso da instituição fundada por Assis Chateaubriand, que passa por crise sem paralelo em sua história, fruto da diminuição dos patrocinadores privados – hoje, grandes empresas e bancos têm fundações próprias. Esse fato, somado à frustração da não concretização de uma parceria costurada com conhecida escola para ocupar o novo prédio do museu, na Av. Paulista (doado pela Vivo), abalaram o fluxo de entrada de recursos. A receita originada pelo grupo educativo seria mais do que suficiente para cobrir os custos. “Foi diante desse quadro que decidimos buscar novos caminhos”, conta Beatriz, presidente do Masp.

O vazamento parcial da negociação de parceria com acionistas do Grupo Itaúsa provocou mal-estar entre os integrantes da instituição. “Ainda bem que eu já havia convocado o conselho para uma reunião, quinta-feira passada, com o intuito de pedir aprovação e contribuições para seguir nessa linha”, explicou à coluna. E conseguiu. Além do apoio dos presentes, houve um movimento de doações, que chegaram, pelo que esta coluna apurou com um conselheiro, a mais de R$ 1,8 milhão. Mas Beatriz desconversa: “O que cada um deu é de foro íntimo, só eles podem divulgar. Mas posso te dizer que saí feliz”.

O fato, segundo ela, é que há muito tempo o museu tem tido dificuldade de captar recursos – que permitam seu equilíbrio econômico. Ela não confirma a dívida de R$ 10 milhões, como tem sido veiculado. Entretanto, cita um dado básico para se saber o tamanho da encrenca. “O prédio que ocupamos foi cedido em comodato pela Prefeitura, que nos paga anualmente, conforme está no contrato, R$ 1,5 milhão para manutenção do imóvel. Somos gratos, mas só de conta de luz gastamos R$ 1,8 milhão por ano. O consumo é gigante, frente à necessidade de ligarmos o ar-condicionado 24 horas.” O Masp recebe alguma ajuda do Estado ou do governo federal? “Nenhuma”, diz.

A ideia em curso hoje é implantar uma gestão compartilhada com o Itaú e outros parceiros. Por que Itaú? “Procuramos vários grupos, que não se mostraram receptivos como o Itaú, banco já envolvido com assuntos culturais. Nas conversas, eles acenaram com a possibilidade de colaborar por meio de entrada substancial de recursos. Entendem a importância do nosso acervo e, em determinado momento, acharam que precisam de um segundo parceiro. Nós concordamos, e eles sugeriram o Bradesco.”

Da parte do Masp, ficou a cargo de Beatriz encontrar, dentro do conselho, novas doações. Coisa que já começou a fazer esta semana. Ela contatou também uma agência de publicidade para trabalhar a marca Masp, “valiosíssima”. E pensa ainda em deflagrar campanha publicitária pedindo aos paulistanos que contribuam. “A recuperação desse ícone de São Paulo é vital para a cidade. Trata-se do maior museu do hemisfério sul. Uma pena estar atravessando esses problemas que impedem seu desempenho a todo vapor.”

Quem vai tocar esse processo? Ela e Heitor Martins (ex-presidente da Bienal), a quatro mãos, serão responsáveis pelo andar da carruagem, caso as parcerias com Itaú e outros se confirmem. “Nas conversas com o banco surgiu o nome do Heitor. Sou conselheira da Bienal e vi o trabalho que ele fez por lá, minimizando, com competência, as questões financeiras que, todos sabemos, não eram pequenas.” O buraco na Bienal era de R$ 8 milhões? “Isso você poderia perguntar a eles. Entretanto, há uma grande diferença entre o problema que a Bienal teve e o que o Masp tem: a feira não possui patrimônio e nosso acervo, inteiramente tombado, vale 2 bilhões.”

Então, por que não vender obras para aliviar o caixa? “Uma medida nessa linha precisa ter o apoio da diretoria e do conselho. E mais: teríamos de ter garantia de que isso salvaria o Masp. Aí eu concordaria. Mas só quando esgotadas todas as alternativas.”

Próximos passos? “Garantir a participação de grupos, empresas privadas, e tocar o barco.”

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