Países emergentes são a bola da vez na economia

Países emergentes são a bola da vez na economia

Sonia Racy

29 de agosto de 2021 | 00h35

Marcos Tryjo. Foto: Gabriela Biló

Há pouco mais de um ano, Marcos Troyjo assumiu a presidência do banco dos Brics (NDB), criado em 2014. “Quando chegamos aqui, o Brasil representava apenas 10% dos projetos aprovados. Agora já são 20%”, comemora o ex-secretário de comércio exterior – ele mora em Xangai.

Na conversa, semana passada, com a coluna, direto da cidade que mais cresce na China, o especialista em economias emergentes se mostrou bastante otimista com as perspectivas de importação e exportação do País. Aqui vai a entrevista:

 O cenário internacional parece bastante conturbado. Ainda assim, você vê oportunidades para o Brasil?

Sem dúvida. Há inúmeros pontos favoráveis em um país com as características do Brasil. Talvez o fenômeno mais importante do nosso tempo, com impacto nos próximos 50 anos, seja o rebalanceamento dos eixos econômicos globais. Daqui para diante, o conhecido G7 (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá) terá peso econômico relativamente menor do que aquilo que gosto de chamar de E7(China, Índia, Rússia, Brasil, Indonésia, México e Turquia), conjunto das sete maiores economias emergentes.

 Houve ultrapassagem dos emergentes? 

Somos testemunhas oculares de um interessante eclipse. As economias mais maduras continuam extremamente importantes. No entanto, quando se mede o PIB pela paridade do poder de compra, o G7 em 2021, deve fechar com US$ 42 trilhões. Já o E7 terá PIB somado de US$ 53 trilhões.

 Mas isso não se deve ao fator China, que apresenta PIB muito maior que os outros emergentes? 

Vamos tirar a China e os Estados Unidos. O PIB do E6 é maior que o G6. Essas novas realidades do mundo emergente estão aqui para ficar. Demografia, escala e velocidade do crescimento fazem a diferença.

 O que isso significa para o Brasil? 

Novos — e volumosos — fluxos de comércio e investimento. Já se nota isso de maneira clara na balança comercial. Em 2021, o Brasil deve ter uma corrente comercial de meio trilhão de dólares — a maior da história. Nos últimos 12 meses, o Brasil exportou mais para a Ásia (mesmo descontando China e Japão) do que para a União Europeia. O Brasil terá em 2021 o maior superávit comercial de todos os tempos.

 Muito desse resultado se deve aos mercados emergentes? 

Certamente. As comparações impressionam. Hoje, o Brasil exporta mais para Cingapura do que para a Alemanha. Mais para a Coreia do Sul do que para Espanha. Mais para a Malásia que para Itália, mais para a Índia que para o Reino Unido. Mais para a Tailândia que para a França. Mais para Bangladesh que para a Austrália, Dinamarca, Finlândia, Áustria e Israel somados.

 Mas o que mais impressiona é o comércio com a China, não? 

Sim, a relação com a China é um bom exemplo. Em 2001, o comércio Brasil-China era de US$ 1 bilhão por ano. Hoje, é de US$ 1 bilhão a cada 60 horas. Nos próximos 10 anos, a China deve importar um total de US$ 25 trilhões. Como o Brasil representa 4% de tudo que a China compra do mundo, se tão somente mantivermos nossa fatia, nossas exportações para a China serão de US$ 100 bilhões por ano. Isso representa, em 20 meses, valor equivalente ao que o Brasil economizará com a reforma da Previdência em 10 anos.

 Essa tendência deve continuar, exportações crescendo para os emergentes? 

Deve, sim. O Brasil tem de aproveitar isso ao máximo. Países de grande contingente populacional como Índia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão, Vietnã e Egito devem crescer fortes. Só aqui, estamos falando de 2 bilhões de pessoas. Quando o PIB sobe 7% ao ano, ele praticamente dobra a cada década. Esses países ainda se encontram em patamares de renda comparativamente baixos. Com o crescimento acelerado, grande parte da renda incremental vai para o consumo primordial e obras de infraestrutura. Isso significa que o Brasil pode potencializar suas vantagens comparativas como superpotência do agronegócio e dos produtos minerais. Daí, junto com o resultado das reformas estruturantes, vem uma parcela fundamental do investimento que o Brasil tem de fazer em infraestrutura e reindustrialização para a Economia 4.0.

 Hoje, você é presidente do NDB (Banco do BRICS). Qual o foco no momento? 

Nossa missão no NDB é mobilizar recursos para infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos BRICS e demais economias emergentes. Desde sua fundação em 2015, o NDB já aprovou 80 projetos. A carteira hoje totaliza R$ 160 bilhões. São financiamentos para transporte, água e saneamento, energia limpa, infraestrutura social, rodovias e ferrovias. A gente se soma aos esforços existentes de outras instituições multilaterais, como o Banco Mundial. Nosso objetivo estratégico é nos posicionar como referência para as economias emergentes.

 Qual a importância do banco para o Brasil? 

É no NDB que, percentualmente, o Brasil conta seu maior patrimônio acionário. No Banco Mundial, por exemplo, o Brasil é sócio-minoritário, com pouco mais de 2% das ações. No NDB, o Brasil tem 20%, bem como os outros sócios. O Brasil e os demais BRICS integralizam o capital do banco. Sentamos todos os dias junto às maiores economias emergentes do mundo e trabalhamos em áreas como infraestrutura, onde nossos interesses coincidem. Além disso, somos um banco voltado a atender demandas. É dizer, os projetos que o NDB financia no País são aqueles que o próprio Brasil indica como prioritários. Nossa presença aumenta a oferta de capital de longo prazo à disposição do Brasil.

 E vocês têm conseguido fazer isso? 

Sim, só para o Brasil, desde sua fundação há seis anos, o NDB já aprovou R$ 27 bilhões. Por exemplo, ajudamos a financiar o Complexo de Pirapora, no norte de Minas Gerais, maior usina de energia solar da América Latina. Ela produz energia suficiente para o consumo de 420 mil famílias. Investimos em usinas eólicas na Bahia, em Pernambuco e no Piauí que abastecem 570 mil residências. No Pará, apoiamos projetos de drenagem e saneamento. No Rio de Janeiro, ajudamos na redução do impacto ambiental da emissão de efluentes. No Paraná, estamos presentes na modernização do BRT de Curitiba. Ou seja, há uma presença bastante significativa no Brasil. Mesmo assim, o NDB ainda é pouco conhecido.

 O que você conseguiu realizar em pouco mais de um ano tocando o banco? 

Criamos no NDB uma área concentrada exclusivamente no setor privado. Fundamos um departamento voltado ao chamado “ESG”, estabelecemos um setor de gestão de talentos e equilibramos a distribuição geográfica dos financiamentos. Quando chegamos aqui, o Brasil representava apenas 10% dos projetos aprovados. Agora já são 20%.

 O que vem pela frente?

Com a autorização de nossos países-membros, iniciamos a negociação para a entrada de novos sócios, o que devemos anunciar em breve. Hoje temos R$ 5 bilhões dirigidos à garantia de crédito a pequenas empresas. E também cerca de R$ 12 bilhões para infraestrutura sustentável e clima, que podem ser utilizados por governos estaduais, municípios e setor privado – tudo no chamado crescimento verde. São R$ 17 bilhões já prontos para desembolso. Mais R$ 5 bilhões para infraestrutura devem ser aprovados nos próximos 12 meses.

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