País precisa ter competição para avançar, diz economista
Sonia Racy
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JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS. FOTO ESTADÃO
também é essencial para atrair investimentos e crescer
Nós tivemos, reconhecidamente, a maior crise em 2014, 15 e 16. Nunca vivemos uma experiência de crise tão profunda. O PIB caiu acumuladamente 4%, quase 5%. O PIB per capita caiu praticamente 9%. A experiência lá fora é de que isso só acontece em guerra ou, em países pequenos, quando há um cataclisma.
Foi o naufrágio espetacular do modelo petista de crescimento, que se concentra em colocar o Estado pra dominar tudo e gastar como se não houvesse o amanhã. Gerou a maior crise fiscal do País, na qual ainda estamos patinando. Destruiu a expectativa, o investimento, e produziu uma recessão fenomenal. Foi um fiasco histórico, pôr o Estado como puxador do crescimento. Destruiu um pedaço da indústria, só o agronegócio continuou crescendo impavidamente.
É verdade, mas hoje elas podem passar pelo que pode ser um mau pedaço. Pela competição, como antes mencionei. Nunca antes o Brasil demorou tanto pra sair de uma recessão. Tivemos outras no passado, mas quando acabavam era em V (desce e sobe). Agora não, caímos e estamos saindo em um passo lento, de 1% ao ano.
Sim, um L com a base meio entortada, pois 1% é nada, é medíocre. Foi uma década perdida mesmo. Mas retomando sua pergunta, por que é que a gente não consegue crescer mais rápido? Na minha percepção, precisamos de várias coisas. Uma já feita, a reforma da Previdência. A outra é esse conjunto de medidas mandadas ao Congresso – a mais importante é controlar o crescimento das despesas correntes, naquela PEC Emergencial. Isso vai abrir espaço pra aumentar o investimento privado. O governo promete leilões pra este ano. Se eles acontecerem o investimento aumenta e a construção civil se recupera – ela caiu 28% de 2014 até 2018.
Exatamente. A construção civil é que garante emprego nos EUA, na Europa, na China, em qualquer lugar. E sem melhorar o emprego não tem como melhorar o mercado interno..
Precisamos segurar a relação entre dívida e PIB, aumentar o investimento em infraestrutura, continuar abaixando os juros e aumentar a competição no mercado financeiro, para que ele saia do modelo em que o crédito era caro pra todos e muito barato pra alguns amigos do governo.
Entendo que a base das diferenças é, primeiro, o papel do Estado. Vamos de propostas de um Estado com um papel mínimo até as de esquerda, como vimos na experiência do PT pelas quais ele tem de meter a mão em tudo.
E tem de inchar. Pois vai puxar todas as coisas, prover os serviços, ser o estimulador de tudo. Deu fragorosamente errado. Além do papel do Estado, temos a questão do orçamento. Aí vale a mesma coisa para as pessoas. Quem consegue viver permanentemente no vermelho, pendurado no cheque especial? A gente sabe que termina em quebra. A esquerda acredita numa história de Papai Noel pela qual, se você gastar muito, lá na frente vai melhorar a produtividade e você recupera o que gastou. Só que isso nunca acontece…
Sim, precisa dar um tempo para as coisas assentarem. No Brasil temos uma sociedade que gosta de litígio na Justiça. Aqui temos o maior volume de litígios – daí vem o dito, entre nós, de que “tem lei que pega e lei que não pega”. Todas as boas experiências, antes de darem certo, têm um teste na Justiça. Então a gente tem de ter paciência. Não pode ficar mudando a jurisprudência de um dia pro outro. Por isso tem que pensar nas reformas e dar um tempo de cinco anos, seis, sem ansiedade.
No modelo de propriedade, acho que não tem “o” correto, você pode ter uma empresa fechada, de um dono, que é espetacular, ou aberta, sem dono, que vai muito mal. Aí entra a história da governança. A empresa pode ter uma governança pequena, média, grande, aberta, fechada… Neste período de crise houve empresas que se saíram muito bem. Quando se fala em dono, vem à mente o Magazine Luiza, que tem um projeto magnífico.
Você tem todos os casos. Uma empresa pra ter chance de ir adiante tem de ter três coisas, seja ela aberta ou fechada. Uma estrutura de capital razoável, a governança e a terceira é saber pra onde vai, o rumo. No primeiro caso, a estrutura de capital é decisiva, porque você não pode dever demais e ficar exposto no mercado. A governança, pelo relacionamento com o meio, a sociedade. O terceiro item, talvez o mais difícil, num mundo em intensa revolução tecnológica, é saber o que acontece lá fora.
Sim, dou-lhe o exemplo do Magazine Luiza. Quem observa lá fora o efeito da Amazon e outros, sabe que o comércio eletrônico é o futuro. Mas com uma mistura com o comércio físico, pois você vende na internet. Em suma, o que vale é um projeto adequado pra cada circunstância.
Minha resposta honesta: não tenho a menor ideia.
Certa vez um banqueiro me disse algo de que não vou esquecer: o otimista “é um pessimista mal informado”. O que dá pra dizer é o seguinte: o que está pondo em xeque o capitalismo é a questão da distribuição de renda. O socialismo não funcionou, e sobrou o capitalismo, que funcionou do ponto de vista do crescimento. Mesmo o nosso. Com todos os seus problemas, o Brasil é hoje melhor do que há 30 anos. Só que todo mundo andou mas os frutos do progresso foram abocanhados pelos 20% ou 10% mais bem educados e mais ricos. Isso produziu uma enorme..
Sim, desigualdade. E uma enorme insatisfação que pipoca aqui e ali, pelo planeta, como acabamos de ver no Chile. Uma das pessoas mais respeitadas na área, o Martin Wolf, principal economista do Financial Times, o que ele diz? Que o capitalismo tem de se repensar e se rever. Um componente que deu errado foi que o grau de competição entre as empresas diminuiu drasticamente – e sua força está na competição, né? A nossa experiência é com o monopólio da Petrobrás. Então, botar mais competição é indispensável pra beneficiar o País, para avançar.
Cada vez mais esse bolo vai crescer. Muito bom para meia dúzia e ruim pro resto. Como consertar? Não tenho a menor ideia, porque aí já é parte do processo político.
No sentido de “um chacoalhão”… acho que não. Essa é a nossa dificuldade. Temos de construir, entre outras coisas, um sistema de crédito, um sistema de avaliação do serviço público… Mas lá fora tá todo mundo de olho em bons projetos. É uma coisa real: com todos os nossos problemas o mercado brasileiro ainda é um dos maiores do mundo. Muita gente que tem um novo produto acaba vindo. Se você olhar, com toda essa confusão o investimento direto nunca baixou de US$ 60 bilhões. É muito dinheiro. Pra um PIB pouco abaixo dos US$ 2 trilhões, é bem razoável. Onde o projeto é bem feito, nunca faltou player.
Exatamente por causa da segurança jurídica.