País precisa de ‘otimismo para o público voltar a ler’, diz editor

Sonia Racy

24 Setembro 2018 | 00h45

MARCOS DA VEIGA PEREIRA. FOTO SNEL

Com vendas caindo em torno de 20% em dois
anos — 50 milhões de exemplares a menos —
Marcos Pereira, presidente do sindicato das editoras,
conta sobre projeto de recuperação preparado com o MinC
e que vai a Temer e pode entrar e  vigor ainda este ano

Filho e neto de editores, engenheiro com passagem por Harvard, Marcos da Veiga Pereira vive há quatro anos o desafio de ajudar editoras e livrarias do País a… vender livros. Não está fácil.

O volume de vendas encolheu entre 2014 e 2017 “de uns 275 milhões de exemplares para 225 milhões”, diz ele. O neto do célebre José Olympio, hoje dono da Editora Sextante, torce para que o futuro governo consiga criar, em 2019, o que chama de “uma onda de otimismo”. Na sua conta o País precisa de investimentos para ter mais empregos e maior consumo. E as pessoas “dependem desse cenário e de otimismo para voltar a ler”. Leitura, diz ele, “é entretenimento, é investimento profissional, crescimento. E o cidadão precisa de estímulo para isso”.

Como presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros desde 2014, Pereira estará amanhã em Brasília, num encontro do pessoal do setor – o segundo da série – com o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão. Acredita que desse debate deve sair um projeto para superar a crise. “Ele será levado à Casa Civil, e talvez o presidente Temer o ponha em vigor antes do final do ano”, adianta nesta entrevista a Gabriel Manzano. A seguir, os principais trechos da conversa.

O mercado editorial convive há vários anos com uma crise. Os custos subiram, a demanda encolheu, há uma retração geral na economia… Como descreveria a atual situação do setor editorial e livreiro?
A queda começou a se instalar em 2015 e a tendência de baixa persistiu em 2016, com retração de uns 20%. Estamos falando de uma redução, na venda, de 50 milhões de livros nesse período. A gente vendeu 275 milhões de exemplares em 2014, em todo o País, e 225 milhões em 2016. Junte a isso a queda no preço dos livros e terá o tamanho do problema. Todas as editoras e livrarias sentiram.

Isso veio de uma só vez?
Primeiro a crise atingiu as editoras, depois as livrarias, que têm uma quantidade maior de funcionários. Mas atividade industrial e varejo são etapas diferentes. O varejo tem o aluguel da loja, um estoque a administrar. Começou então um processo de fechamento dos pequenos. Imagine isso num cenário geral de desemprego, que reduz as vendas, mais a dura competição pelo tempo das pessoas. O consumo de livros ficou espremido.

Quanta gente foi atingida?
O sindicato tem hoje perto de 400 empresas. Temos uns 12 mil colaboradores diretos – mas os indiretos são muitos. Tradutores, revisores, designers, ilustradores e autores dão umas 5 mil pessoas a mais. Se você acrescentar as livrarias, que dão uns 3 mil pontos de venda no País, pode pôr mais umas 20 mil. Some a isso as gráficas e falamos de um universo de 50 mil pessoas.

Aí aparecem o celular e o WhatsApp roubando o tempo dos leitores que antes era para os livros…
Também. Mas quero destacar outra coisa importante, o preço do livro. Ele ficou muito mais barato ao longo do tempo. Uma pesquisa nossa indica que, em dez anos, essa queda, já descontada a inflação, foi em torno de 40%. Quer um exemplo? O best seller O Código da Vinci foi lançado em 2004 por R$ 39,90. A inflação de 2004 a 2016 foi de 100%, portanto ele deveria estar hoje custando uns R$ 80, não é? Pois é, mas hoje ele custa R$ 50. Quase metade desse preço.

‘REDUÇÃO DE PREÇOS NÃO
FOI ACOMPANHADA DE
CRESCIMENTO NAS VENDAS’

Por que as livrarias aceitaram essa redução?
Foi uma tentativa dos editores de procurar um público maior para o livro, coisa que acabou não acontecendo. A redução do preço não foi compensada pelo aumento no volume de vendas. Se acontecesse como previsto, na economia de escala seria uma maravilha. Mas as vendas empacaram e os custos aos poucos foram sendo corrigidos pela inflação. Não falo só do custo dos livros, mas também do aluguel, dos salários…

Mas as vendas online cresceram. Como foi esse impacto?
O que resultou daí foi uma prática comercial muito corrosiva. Começou uma guerra de preços com descontos absurdos, a partir de um preço que já era baixo. Mesmo se o varejista tem um best seller na mão, ele dá desconto porque lhe interessa criar aquele hábito de consumo, é uma aposta no futuro. E a tempestade perfeita se configurou depois, quando o setor investiu com a esperança de um crescimento econômico significativo… e aconteceu justo o contrário. A economia se desarrumou e o consumo encolheu.

O novo cenário pegou o setor na contramão, abrindo lojas…
Pois é. As duas maiores redes do País, a Saraiva e a Cultura, investiram nessa aposta de crescimento, e a realidade pegou todos os investimentos no contrapé. Mas não só elas, várias outras redes também sofreram muito com isso.

Diria que as decisões de investimento lá atrás foram mal planejadas? Faltou análise de cenário?
Acho difícil julgar isso, a virada na economia brasileira foi inesperada e muito funda. As decisões de ampliação da Saraiva começaram em 2008, 2009, a Cultura se expandiu a partir de 2011, 2012. Você tem de investir em logística, em depósito novo, diversificar o varejo, passa a vender computador, celular… Mas tem uma coisa que precisa ficar clara aqui: não foi só o setor de livros que penou com a virada da economia. Basta ver os jornais, a situação de outras áreas. Quase todo mundo que investiu nesse período sofreu com a crise econômica.

‘O QUE ESTAMOS FAZENDO
É LIMITAR A PRODUÇÃO
INTELECTUAL DO BRASIL’

O Ministério da Cultura criou uma comissão para debater a crise e o senhor já participou das reuniões. De que modo o governo poderia ajudar?
Participei da reunião do grupo de trabalho, o ministro Sá Leitão estava lá. Foi uma gratíssima surpresa conhecê-lo. O que se falou foi que “o grupo de trabalho é pra valer” e que sua tarefa é sugerir “uma ação concreta muito rápida”. O que se ponderou foi: “O que estamos fazendo é limitar a produção intelectual no Brasil”.

Que medidas podem vir para inverter a situação?
Avançamos bastante no debate, mas não posso divulgar aqui providências ainda em estudo ou em andamento. Temos nova reunião nesta terça-feira (amanhã) em Brasília, possivelmente para elaborar uma proposta. Um texto que o ministro Sá Leitão vai levar à Casa Civil e que o presidente Temer talvez possa implementar ainda este ano.

Estamos às vésperas de eleição e mudança de governo. Você tem alguma expectativa de recuperação para 2019?
Para isso, primeiro o governo tem de atacar de pronto as questões centrais da economia. O País só vai crescer mesmo quando voltar a confiança do empresariado e isso virar investimento, depois emprego, depois consumo. Eu, particularmente, não acredito num modelo em que o Estado seja o grande fomentador do desenvolvimento. Esse papel é do empresariado.

E quando isso vai se refletir na vida das editoras e livrarias?
Qualquer onda de otimismo leva as pessoas de volta a ler. As pessoas associam muito o livro a crescimento pessoal. Livro é entretenimento, é investimento profissional, conhecimento. Mas como disse, pra isso você precisa ter um clima de otimismo. No mercado e no País. Veja, lá atrás o mercado começou 2018 muito bem, ia crescer de 3% a 3,5%, programaram criar uns 3 milhões de empregos, o dólar ia ficar na casa dos R$ 3,00. O que veio pela frente foi outra coisa.

‘CONCORRÊNCIA PREDATÓRIA
COMEÇOU ANTES DE 
A AMAZON CHEGAR AO PAÍS’

Diria que a Amazon, que começou a oferecer aqui livros do mundo inteiro, se valendo – até recentemente – de um dólar não muito caro e estável, atrapalhou?
A Amazon é uma empresa emblemática nesse cenário, mas acho que o varejo atuou nisso como um todo . A Submarino já praticava essas operações online, Cultura e Saraiva entraram da mesma forma. Essa guerra de preços no e-commerce, na verdade, foi instalado antes de a Amazon descobrir o Brasil. Mas ela é planetária, tem mecanismos de busca fantásticos. E segue à risca o seu compromisso principal, que é oferecer o menor preço ao consumidor.

Ela faz guerra de preços?
Olha, se o livro custa R$ 30 e todo mundo vende por R$ 30, ela também vende por R$ 30. Mas se descobrir que alguém está vendendo por R$20, ela adota esse preço. No entanto, repito: a prática de preços predatórios no e-commerce é um fenômeno que já estava instalado antes de a Amazon chegar.

Existe hoje um desencontro entre as urgências de livrarias e editoras. Estas muitas vezes não recebem sua parte pelos livros vendidos porque as livrarias estão com o caixa deficitário. Mas as editoras não podem fazer nada contra, porque precisam da livraria pra chegar ao leitor. Como vê isso?
Tem aí, de fato, um conflito de interesses. Nós, editores, precisamos das livrarias e fomos dialogar, buscar uma saída. Queremos que elas superem a crise. Não há no assunto nada de má-fé, apenas anos acumulados de caixa apertado. Veja as duas grandes, Cultura e Saraiva, são empresas abertas, você tem acesso aos balanços, ao lucro. Elas estão empenhadas em otimizar a infraestrutura, melhorar a logística, mas as vendas demoram a reagir. O Sindicato tem-se reunido com a Saraiva, por exemplo, eles têm sido muito transparentes.

Está em ascensão um nicho de pequenas editoras independentes, com custos menores e outros modos de acesso aos compradores.
Eu acho isso muito bacana. Existe uma entidade chamada Libre, que congrega um punhado de editoras, são talentos aparecendo. Você conhece nascente de rio? Aquela água brotando do nada, nas pedras, um espetáculo da natureza. A iniciativa deles me lembra isso. São heróis. Pessoas se aventurando, na coragem, a serem editores num País com índice de leitura tão baixo.