País exige ‘ambiente de negócios competitivo’, diz professor

País exige ‘ambiente de negócios competitivo’, diz professor

Sonia Racy

26 Janeiro 2019 | 01h02

MARCOS VINICIUS DE FREITAS. FOTO IARA MORSELLI/ESTADÃO

Analista experiente das relações internacionais, o professor Marcos Vinicius de Freitas — ex-Faap e hoje visiting professor da Universidade de Relações Internacionais da China, em Pequim – acha que, em Davos, faltou a Bolsonaro “enfatizar que o País é uma democracia, que tem leis e as cumpre”. Seria uma forma, segundo ele, de “reverter a intensa campanha que corre nos EUA e na Europa para desgastá-lo”. Nesta conversa com a coluna, ele faz um balanço sobre quais linhas adotar na cena mundial e adverte: “O ganho do Brasil, daqui para a frente, nas relações com os EUA e a Europa, é marginal. Já o ganho com a China pode ser exponencial”.

Como avalia os recados dados pelo Brasil em Davos?
Algumas coisas funcionam, outras nem tanto. Promessas na linha “o modelo mudou” ou “vamos privatizar” não bastam. Não adianta se dispor a vender empresas ao capital estrangeiro e não criar um ambiente de negócios competitivo.

O que se deveria fazer?
É preciso levar em conta que, para quem pensa em investir aqui, não faz diferença se o dono de uma empresa é o Estado ou um grupo de acionistas. Eles olham o mercado, o poder de compra, o grau de tecnologia. As companhias levam em conta se os negócios estão andando bem.

O que faltou, nos discursos aos investidores?
Claro que muitas coisas foram informadas e esclarecidas, e isso ajuda. Mas faltou enfatizar que o País é uma democracia, que tem leis e as cumpre. Isso para reverter as fortes campanhas lá fora tentando desgastar o governo que acaba de se instalar.

Há quem cobre de Bolsonaro por misturar comércio e ideologia, como faz no apoio a Donald Trump. A queixa faz sentido?
Sim. Veja, a China é hoje a principal parceira comercial do Brasil, bem à frente de EUA e Argentina. O forte apoio a Trump, que hostiliza o governo chinês constantemente, tem de ser reconsiderado. Trump faz isso num cenário específico entre os dois países. Para o Brasil, a atitude pode custar caro comercialmente.

Qual seria o ponto de equilíbrio, para Bolsonaro?
Há um velho princípio na política segundo o qual não há amigos perenes nem inimigos perenes, há interesses perenes. A atual pendência entre EUA e China não é alimentada só pelo déficit comercial americano. Tem aí uma disputa mundial pelo domínio da tecnologia. Trump pode fazer as coisas de modo inadequado, mas sua agenda é clara, no interesse americano. A briga é deles. O Brasil tem de descobrir, nesse cenário, como aproveitar oportunidades.

E como faria isso?
Acho que poderiam ir buscar parcerias na China, para produzir e vender lá mesmo. O Brasil tem de deixar de ser tímido. Entender que nestes tempos a competição é entre países, não entre empresas. Perceber que a China, armando-se para avançar no domínio da tecnologia, está claramente repassando à África e à América Latina a tarefa de oferecer mão de obra barata ao capital, coisa que ela fez em alto grau até aqui.

De que forma isso seria benéfico ao Brasil?
É só comparar o que nosso País poderia obter de investimentos novos vindos dos EUA e da Europa, para ajudá-lo a crescer. Seria algo marginal. Na relação com a China, que tem muito a ser ampliada, seria… exponencial. / GABRIEL MANZANO