“Os próximos meses serão cruciais”

“Os próximos meses serão cruciais”

Sonia Racy

15 Fevereiro 2013 | 01h05

Do alto de seus 84 anos, boa parte deles vivida intensamente nos caminhos da economia nacional, Delfim Netto, ministro da Fazenda durante os anos 1970, surpreendeu muitos ao criticar o governo brasileiro. Entretanto, essa crítica, pela conversa que teve com a coluna antes do carnaval, foi pontual, especificamente pelos “truques” usados nas contas públicas.

Em sua visão, o Brasil cresce, sim, nos próximos dois anos, mas não tanto quanto todos gostariam. “Algo um pouco acima de 3%.” E a inflação? “A inflação vai ficar onde está, um pouquinho mais, um pouquinho menos”, acredita o economista. E mais: para ele, Dilma conseguirá convencer empresariado e investidores a apostarem fortemente no País. “Os próximos meses serão cruciais”, ponderou.

E para não perder a oportunidade, atacou as críticas feitas recentemente pela revista The Economist. “A característica da Economist é a ironia. Então, quem leva a Economist a sério é um idiota. Mas não adianta brigar, esta é a mais importante publicação econômica do mundo, e tem uma ironia cruel. Só imagino como eles se divertem, quando dizem alguma coisa sobre o Brasil, e o Brasil se irrita…”

A seguir, os principais trechos da conversa.

Muitos se perguntam como o Brasil registra desemprego tão baixo com um PIB fraco?

A produtividade no setor de serviços cresce muito pouco. Como o setor está crescendo, aumenta o emprego. Isso compensa a falta de força na indústria brasileira, onde nem sequer a produtividade aumenta. Dá a impressão até de que está caindo. Por quê? Porque o industrial não manda embora, em um primeiro momento, o seu trabalhador. Ele investiu nele, e o custo de mandar embora é muito alto. Então, o mau momento tem de perdurar, ele tem de perder a esperança de que vai haver demanda no futuro. Aí, dispensa. Mas, mais importante, foi a revolução da mulher.

Como assim?

A grande revolução brasileira foi da mulher. Quando éramos moços, Roberto Campos e eu achávamos que o Brasil ia ser uma Índia, uma China, onde cada mulher deixaria seis filhos. Hoje, a média é de 1,8 filho por mulher.

Um fenômeno demográfico?

Sim. A população do Brasil está crescendo menos. E o jovem está indo mais tarde para o mercado de trabalho. Portanto, o desemprego está diminuindo. Mas o Brasil só pode crescer por aumento de produtividade. Agora, a produtividade é pró-cíclica. Uma coisa está ligada à outra. A única saída para o Brasil é o investimento público e privado.

Tem gente dizendo que o senhor mudou de humor nos últimos seis meses, tornando-se mais crítico das ações do governo. Isso é verdade?

Sempre apoiei o governo e continuo apoiando. Acho o seguinte: a política do governo está correta, a direção da política está correta. Você pode ter uma observação aqui, uma observação acolá. A única coisa que me irritou, digamos, foi essa somatória de truques, inúteis, nas contas públicas. Quando eu faço a crítica, estou ajudando o governo.

Acha que o Brasil está bem?

Está. Honestamente, acho que a Dilma é uma tecnocrata competente, trabalhadora. A direção do seu governo está correta. Estão baixando a taxa de juros, de forma ainda um pouco tumultuada. Estão reduzindo a carga tributária. A desoneração da folha de pagamento, combinada com aquela elevação do câmbio, teve um efeito importante: vários setores voltaram a ser competitivos. Dilma teve a coragem de pôr a mão na caderneta de poupança. E se saiu muito bem. Abriu espaço para baixar a taxa de juros. Ou seja, as coisas estão caminhando na direção certa. E vamos ter uma das melhores safras agrícolas dos últimos anos.

A semente está plantada…

Está. E muitos com a impressão de que o Brasil está numa situação delicada. Eu te pergunto: qual país do mundo tem nosso superávit fiscal e uma relação de dívida/PIB de 36%? Mesmo usando a dívida bruta, a relação é de 17%, é a reserva. Tinha alguma coisa mais líquida do que a reserva? Falta a volta do investimento maior. Cadê? O investimento só volta se, nesses novos leilões, o governo for inteligente. O maior progresso na microeconomia foi a formulação de leilões. Eles estimulam a concorrência. Só não pode fixar taxa de retorno. A taxa de retorno tem de vir pelo mercado. Não adianta dizer que há dinheiro barato no BNDES. As pessoas estão cansadas de ouvir essa conversa. Todos sabem que o BNDES é simplesmente uma repartição pública, um banco de boa qualidade, mas lento. Muito lento.

O que acha da iniciativa privada, que, há muitos anos, corria atrás de subsídios?

Hoje, já não querem mais. E o que aconteceu? Aprenderam que subsídio é uma coisa instável. O setor privado tem, na mão do governo, créditos de bilhões de reais. E o governo não devolve.

É a favor de subsídios?

Se a taxa de retorno social for maior do que a taxa de retorno privado, você pode fazer algum subsídio. Adequado. Caso contrário, não há nenhuma razão. O setor privado brasileiro, na minha opinião, desconfia, hoje, do governo. Não deste, mas de qualquer governo.

Como o senhor vê o ano?

Há probabilidade de Dilma cooptar o setor privado para seus projetos. Ela está chamando as pessoas, conversando, mostrando que não tem uma ideologia socializante, que quer capitalismo sem lucro. Você tem de saber que, se um sujeito, hoje, tem uma grande empresa – e o valor da empresa na bolsa é menor do que o valor de reposição –, ele não investe. Pode dar o subsídio que quiser, porque ele não investe. Há de se acordar novamente o espírito animal do empresário brasileiro.

O senhor tem conversado com a presidente Dilma, todo mundo diz que o senhor é o grande interlocutor…

Isso é falso, falso. Não tenho conversado nada com ela.