“Os padres não sabem dançar o tango do papa Francisco”

“Os padres não sabem dançar o tango do papa Francisco”

Sonia Racy

01 de junho de 2015 | 01h02

Fernando Altemeyer (Foto: Iara Morselli/Estadão)

Estudioso do mundo católico, Fernando Altemeyer analisa a ousadia diplomática do Sumo Pontífice e define o desafio da Igreja: mais do que funcionários, ela precisa é de missionários

Um sopro renovador no Vaticano. É assim que muitos estudiosos e milhões de fiéis, em todo o mundo, veem o papa Francisco, em seus dois anos de Vaticano, completados em abril. Seja pela ousadia como diplomata, decisivo na reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, seja pela coragem ao abraçar e chamar de “anjo” o chefe da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e canonizar duas freiras palestinas. Ou, ainda, pelo rigor com que manda investigar abusos de padres e bispos, trazer à luz casos de pedofilia e homossexualismo nas dioceses e cobrar punição para fraudes financeiras.

“Mas o Vaticano tem pela frente um grande desafio: é que os padres não conseguem dançar o tango do Francisco”, adverte o professor Fernando Altemeyer, do Departamento de Ciência da Religião da PUC São Paulo, brincando com a origem argentina do Sumo Pontífice. “Na maioria, os padres foram formados para serem burocratas, funcionários, e o Francisco pede que sejam missionários. O que a Igreja precisa, e muito, é de gente que vá pra rua”.

Professor de Teologia na PUC, grande conhecedor do mundo católico, Altemeyer lança daqui a alguns dias, ao lado de uma equipe de especialistas, um inédito e detalhado Dicionário do Vaticano II – cerca de 1.200 páginas, trabalho de fôlego que nenhum estudioso europeu se atreveu até hoje a produzir e bancar. Nesta entrevista à coluna, ele define Francisco como “um operário do diálogo” e analisa o futuro do imenso rebanho católico do planeta – cerca de 1,25 bilhão de fiéis, dos quais 123 milhões no Brasil. Fala, também, do encantamento do papa com a imagem de Aparecida, que ele revisitará em 2017.

Na última sexta-feira, os EUA tiraram Cuba da sua lista de Estados “que apoiam o terrorismo” – e Francisco tem grande mérito nisso, pois ajudou a reaproximar os dois países. Duas semanas antes, canonizou duas freiras palestinas. Isso ajuda a causa católica? Melhora o diálogo?

Essa é a palavra chave, diálogo. Francisco é um operário do diálogo. Sem ele, na Igreja ou no mundo, não se avança. Onde não há diálogo há bloqueio – seja ideológico, político, social, e se cria um clima rancoroso, preconceituoso, que tem que ser quebrado. E eis que o papa Francisco pega seu martelinho e sai dando marteladas. Como o seu peso simbólico é enorme, cada martelada repercute. No caso cubano, ele fez o que se esperava. É um absurdo que depois de 50 anos continue essa excrescência da guerra fria.

Mas ele tem uma estratégia por trás desses lances diplomáticos? Ou são apenas impulsos pessoais?

Há, sim, uma estratégia. Ele quer mexer com as periferias existenciais. O que é isso? É trazer para o centro quem está nas margens, dar palavra aos que estão em silêncio. Cuba é um exemplo, Líbano é outro, Síria também. E Francisco sai em missão pelo mundo, com os elementos de que dispõe..

A canonização das duas freiras palestinas é parte disso?

As duas palestinas já eram santas pelo que fizeram na vida. Mas, ao colocá-las no altar e incluir no Livro do Martirológio(o catálogo dos santos e beatos), o papa faz algo retumbante. Ele vê as realidades daquele pedaço de mundo e diz: “Não sou antissemita, mas não vou concordar com esse muro”. Ao pôr o periférico no centro, inverte a lógica, para de novo qualificar o diálogo. Afinal, o diálogo só existe quando diferentes falam.

E dentro da própria Igreja, ele melhorou esse diálogo?

Tem feito isso na Igreja também. No Sínodo dos Bispos, na questão dos divorciados, que é uma pedra no sapato da Igreja católica. A agenda dele não é só ad extra, para fora, mas também

Antes dele, Bento 16 preparou outra guinada, ao investigar a vida interna do Vaticano.

Sim, e acabou afastado por isso. Teve a coragem de rejeitar pressões e dizer: “Não seguirei”. E abriu caminho para que o atual papa chegasse às origens da atual crise. Francisco foi atrás dos erros, do roubo de milhões de dólares no Banco do Vaticano, dos abusos de tantos padres e bispos. Ele chegou dizendo: “Chega, não tem lugar pra pedófilo!”. Mandou entregá-los ao Estado, à polícia civil, que fossem laicizados.

O que ele fez foi levar adiante a cruzada de Bento 16…

Sim, ele a continuou, com o consistório e o conclave. A ideia que passou, e a maioria do clero aceitou era: “Olha, isso aqui não dá, estão jogando o Evangelho e a Igreja no lixo, por causa de algumas patologias bem localizadas”. Porque de fato não é o grosso da Igreja. Dos temas que estavam na penumbra, foi como se ele dissesse: “Isso tudo tem de vir à luz. Quem tem medo da luz é o capeta. Então vamos lá”.

Como analisa esse duplo papel, de quem circula à vontade entre a fé e a diplomacia?

Francisco dá a impressão de ser um enigma, mas não é indecifrável. O que me parece é que ele transita bem entre dois alter egos. Em um, ele se faz Thomas Morus, o grande chanceler britânico degolado por Henrique VIII. Como ele, assume uma fidelidade absoluta aos grandes valores do Evangelho, sem cair na mera defesa da instituição como se fosse corporativismo. Não custa lembrar, Morus é o padroeiro dos políticos…

E o segundo alter ego, qual é?

No outro ele assume o escritor russo Fiodor Dostoievski, de quem é leitor assíduo. A literatura, cabe lembrar aqui, foi sua segunda área de formação, depois da bioquímica. Com Dostoievski, ele assume a questão existencialista – o ser humano com seus dramas, na sua realidade de cada momento.

E o que resulta desse pêndulo?

Que ele está atento a esse humanismo, a essa angústia, ao se perguntar: por que esse povo está tão machucado? Palestinos, sírios, argentinos? Mesmo o Brasil, que vive essa angústia momentânea? Ao mesmo tempo é pastor, tem olhos para ver como Thomas Morus, buscando entender a alma humana e este momento da história. É solidário no sofrer sem deixar de alertar que os valores maiores precisam ser anunciados. Como quem diz: “Que permaneça o que é mais valioso, mesmo que custe a minha cabeça”.

Essa missão chega a representar algum perigo para ele?

Ele não tem medo da morte. Veja só, há algum tempo ele recebeu um informe da Argentina dizendo que o sobrinho dele, que é padre, fora ameaçado de morte. Um imbecil ligou vezes seguidas para ele dizendo: “Se não for você, matarei seu tio…”. O rapaz ligou para o Vaticano e avisou Francisco, que respondeu rindo: “Ah, isso é uma imensa bobagem…”

É algo inédito, esse estilo papal de “conduzir o rebanho”?

Sim e não. Sim, porque ele tem esse feeling, uma proximidade incrível com cada pessoa. O Barack Obama saiu diferente de seu encontro com ele. O Raul Castro chegou a dizer que vai rezar. Francisco recebeu a bispa luterana e a chamou de “minha irmã”. O Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, foi chamado por ele de anjo palestino… É uma sintonia inédita, ele tem essa capacidade de ver por dentro.

E por que o “não”?

Porque já houve papas com virtudes semelhantes. Não muitos. Da última safra do século passado, só dois, o João 23 e o Papa Paulo 6º. Mas o Paulo 6º foi só no começo, depois ficou temeroso e paralisado diante da pressão da Cúria Romana. João 23, ao contrário, nunca pagou pedágio pra nada da Cúria e fez a revolução do Vaticano II. Quanto ao Francisco, é difícil haver um personagem tão livre, tão fresco. Metido numa máquina de dois mil anos, enrijecedora, ele está solto, não sente o peso do cargo.

De que modo esse estilo pessoal fortalece o catolicismo?

Os processos culturais e econômicos – a tal mundialização – não nos dão critérios absolutos, mas é óbvio que a Igreja é proselitista. “Vai para a ponta do mundo e onde houver alguém que aceite a mensagem, faça discípulos”, já pregava o evangelho de Mateus. Acho que convivem hoje diversos processos. O catolicismo cresce na África – aliás, numericamente o futuro do catolicismo é africano – mas enfrenta tensões graves porque o Islã é muito duro, até pelos extremistas que lá promovem verdadeiros massacres. E na África tem crescido muito, também, a Igreja Luterana. Na Europa é um zero a zero. O total de católicos no mundo passou de 1,17 bilhão em 2005 para 1,254 bi em 2013, isso em uma população mundial que foi de 6,2 bilhões para 7 bilhões. O índice de católicos em todo o planeta está em torno de 17,7%, mais ou menos o que já vinha sendo. E o Islã cresce muito. No cômputo geral, nesse jogo de números, me parece que estamos numa areia movediça.

Para onde caminha o catolicismo no Brasil?

Entre nós, o Censo do IBGE de 2010 apontou 123,2 milhões de católicos, ou 64% da população. Outra pesquisa, de 2014, do PEW Research Center, fala em 61% e 26% para a soma de protestantes, anglicanos, batistas e pentecostais. Mais 8% sem filiação religiosa e 5% de outros credos. O processo de pentecostalização tem sido gigante, chegou a envolver perto de 40 milhões de pessoas. E isso afetou muito a Igreja católica. Convém lembrar, no entanto, que as pentecostais se expandiram mas estão muito pulverizadas. Há uma delas realmente grande, a Assembleia de Deus.

Esse avanço preocupa as lideranças da Igreja? O que elas podem fazer a respeito?

Esse é o desafio. Se os padres católicos não se aproximarem das pessoas de forma convicta, haverá um dilema. Nas suas palavras e ações, Francisco está pedindo: “Saiam, não fiquem presos nas paróquias, deixem de parecer príncipes!” Mas o que é que se vê? Que os padres não conseguem dançar o tango do Francisco. Eles foram formados para serem burocratas, funcionários, e o Francisco pede missionários. A Igreja precisa de gente que vá para a rua. São Paulo, por exemplo, tem uns 700 padres. Precisaria que pelo menos 500 fossem para as ruas. Mas a maioria não foi educada para isso. Então, essa reação e esse crescimento vão depender da persistência e dos grandes gestos de Francisco.

Mas ele viaja, recebe, manda mensagens, os brasileiros o sentem atento e próximo. E há outra visita dele anunciada, para 2017, em Aparecida.

O impacto das visitas é positivo para os católicos brasileiros. É impressionante como tudo para em volta de Francisco quanto ele sai, em Roma, para circular e cumprimentar fiéis. Certamente isso vai se ver por aqui, como foi antes. E sobre sua vinda a Aparecida, em 2017, acho importante assinalar como ela é importante para ele. Francisco tem uma paixão tremenda, ele se eletrifica quando está diante da imagem dela./ GABRIEL MANZANO