‘Os militares se prepararam para o País, os partidos não’, diz historiador

‘Os militares se prepararam para o País, os partidos não’, diz historiador

Sonia Racy

21 de janeiro de 2019 | 00h28

 

CARLOS GUILHERME MOTA. FOTO IARA MORSELLI/ESTADÃO

Para Carlos Guilherme Mota, governo Bolsonaro tem “um
certo anacronismo” mas presença de militares 
“nada
traz dos traços autoritários 
de 64″. E os partidos
perderam espaço “
por causa do esvaziamento
ideológico” e porque não prepararam o futuro.

O horizonte “é de construção para longo prazo”. É com essa frase curta que o historiador Carlos Guilherme Mota resume seu olhar do Brasil 2019 – uma visão alimentada por meio século de vida acadêmica e mais de 30 livros publicados, como autor ou organizador. O atraso do País, especialmente na educação, e a falta de cabeças para pensar o futuro, como havia no passado – ele cita nomes como Afonso Arinos, Celso Furtado, Hélio Jaguaribe… –, dificultam, a seu ver, a tarefa de criar uma estratégia para um Brasil daqui a 30 anos.

Na sua análise do novo governo, Mota destaca um grupo de militares bem preparados, habituados à disciplina, e um setor anacrônico – “somos um País que tem guru…”. E, à volta deles, uma classe política velha, partidos que ignoraram os desafios do futuro e uma oposição enfraquecida e desorientada.

Professor titular de História do Mackenzie e cofundador do Instituto de Estudos Avançados da USP e do Memorial da América Latina, Mota recebeu em 2011 o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra. Entre outras, escreveu Ideologia da Cultura Brasileira e, com Adriana Lopes, História do Brasil, Uma Interpretação.
O historiador enfatiza: o grupo militar instalado no governo Bolsonaro é bem preparado e não tem “os traços ditatoriais do antigo regime militar de 1964” – mas resta saber como a atual fórmula do poder vai se entender com a anterior. Nesta entrevista a Gabriel Manzano, ele define: o que se instalou no poder foi “uma ordem autocrática com aparência democrática”, na qual “a massa, sem lideranças capacitadas, consagrou um líder de estatura mediana, orientado por gurus de meia-confecção”. Um modelo “democrático na aparência mas desmobilizador das oposições”. A seguir, os principais trechos da conversa.

A vitória de Bolsonaro põe fim a uma longa bipolaridade entre PT e PSDB e está mudando o clima político do País. A que atribui essa mudança?
Ao esvaziamento ideológico dos partidos. Esqueceram, na classe política, que partidos têm de se basear num sistema de valores, num conjunto de ideias – e destaco aqui o esvaziamento de um partido que cresceu com a promessa de ser inovador, o PT, que ao longo do tempo perdeu seus objetivos e aderiu aos vícios da política convencional. Cabe lembrar, aqui, que a mensagem da centro-esquerda, ao longo da história, sempre foi muito fluida.

E no lugar dela temos agora uma direita, ou centro-direita. Dá pra comparar com a que comandou o País no regime militar entre 1964 e 1985?
Quando você vê hoje no primeiro escalão um vice-presidente, sete generais como ministros, mais outros 20 em postos próximos, pode fazer alguma relação histórica. Embora, é claro, sem os traços fortemente ditatoriais daquele período. Mas os tempos são outros. A centro-direita já desempenhou um papel de peso na nossa história, quando atuaram estadistas como um Milton Campos. Acho que hoje há semelhanças e diferenças.

Sim, o respeito à Constituição, por exemplo, é sempre apregoado pelo grupo atual.
De fato. Um Garrastazu Médici não teria lugar nessa turma. Talvez um Castelo Branco… E cabe dizer que o preparo era diferente, naqueles anos 60 e 70. Era uma boa formação em Agulhas Negras, na Escola Superior de Guerra. Mas hoje me parece que a preparação é diversificada, mais integrada.

Vivia-se o auge da Guerra Fria entre EUA e a antiga URSS, o temor ao comunismo era uma agenda diária. Hoje Rússia e China são capitalistas.
Sem dúvida, o cenário é outro, mas também há um certo anacronismo. Somos agora um país que tem ideólogos, que tem guru… E esse guru, Olavo de Carvalho, tem seguidores entusiasmados, entre eles um assessor internacional da Presidência. Soa ridículo.

Como definiria o núcleo do atual comando político?
Acho que o que temos aí é uma ordem autocrática com aparência democrática. A massa de cidadãos despossuídos, sem lideranças capacitadas, consagrou um líder de estatura mediana, orientado por gurus de meia-confecção. Não é de estranhar que seus melhores quadros provenham das Forças Armadas, gente que tem estudo e disciplina, viaja e conhece o mundo, acompanha as novas tecnologias. Aliás, comparada com ela, vejo que o caminho das esquerdas, para se reabilitar, será bastante longo.

Acha que isso aponta para o risco de militarização?
Eu chamaria isso de modelo autocrático burguês, que se diferencia do democrático burguês. Um sistema fechado. Democrático na aparência mas desmobilizador das oposições. Marcado por essa brigada ministerial, que, no País que temos, representa uma segurança contra personalismos e familismos imprudentes, visto que esses militares passam por uma academia militar rigorosa. Trabalham focados em tarefas e na formação de quadros, coisa que a política convencional e as esquerdas não fazem.

Que tipo de limites veria nesse tipo de comando para o País?
O risco que se corre, num processo assim, é o do anacronismo evidente em algumas áreas do governo. Afinal a guerra fria já passou há muito tempo, a China está aí abrindo caminhos novos, o planeta entra na chamada revolução 4.0, na cultura digital. E na vida real, no universo político, o que vemos é um governo que chega sem projeto. Entrou, colocou a reforma da Previdência como prioridade, mas o que temos até agora mais parece um picadinho do assunto.

Acha que os auxiliares militares poderiam influir na agenda defendida por Bolsonaro?
Bem ou mal, os militares atuais representam novos valores. O general Augusto Heleno é uma figura preparada, tem uma visão ampla e menos esquemática das coisas. Mesmo fora do governo, cito o almirante Mário César Flores, que é um intelectual lúcido, domina conceitos sociológicos. Mas na verdade me parece descabido, ao lado disso, o horror que certos setores do novo poder têm do socialismo democrático. Eles me trazem à memória a figura do general Antonio Carlos de Andrade Serpa, que em 1981 – estávamos no governo Figueiredo, o quinto e último dos generais-presidentes – escreveu seu Manifesto à Nação Ameaçada que acabou sendo subscrito por intelectuais como Antonio Cândido, Alceu Amoroso Lima, Ariano Suassuna, José Honório Rodrigues.

O que dizia esse manifesto?
Ele conclamava à união de civis e militares preocupados com a questão nacional. Fazia reparos ao sistema financeiro, falava de um modelo independente e de desestatização. Como adido militar em Paris por 15 anos, Serpa tomou o pulso da Europa. Propunha um pacto nacional civil e militar.

Isso tem algo a ver com o momento que vive o País.
Sim. Na minha avaliação, é preciso entender, como pregava Serpa, que a sociedade civil, bem compreendida, inclui os militares também. E ao mesmo tempo é preciso lembrar que ainda somos um País com resquícios até da era colonial misturados com a modernidade. Onde um capitalismo senzaleiro eterniza o elevador de serviço para os empregados. Um modelo que, na verdade, nem FHC nem Lula quebraram. Torço para que os setores conservadores do atual conjunto deixem de lado essa mania de ver comunistas embaixo da cama.

Isso enquanto grande parte do mundo já embarca na revolução tecnológica – dita 4.0 –, uma agenda da qual o Brasil ainda parece distante.
Sim, e mesmo a esquerda deixou de se modernizar, olhar para a forte transformação que essas tecnologias nos impõem. O nosso problema é que aqui as desigualdades prevalecem. Temos por aí escolas filé mignon, para alunos ricos, preparados às vezes por uma classe de professores mal paga. No caso da USP, temos setores que se atualizaram, em áreas como economia, biociências, mas nas humanidades o investimento sempre foi menor.

A classe intelectual está preparada, nas universidades em especial, para dar sua contribuição a esse projeto?
Acho que, falando em universidades, estamos um pouco longe disso. Já tivemos, em outros tempos, figuras como Afonso Arinos, Celso Furtado, Florestan Fernandes, Hélio Jaguaribe… Claro que temos instituições que fazem um bom papel. Como Insper, Ibmec, Fapesp, o Instituto de Estudos Avançados da USP, outros no Rio, mas temo – de forma muito geral – pelo que disse o (escritor) Mia Couto, segundo o qual estão preparando ricos, não um país para a riqueza. Ainda somos um país de muitos pedagogos e poucos educadores.

Pode explicar isso?
Lembro aqui o uso banalizado que fizeram do Paulo Freire e de seu método, de um modo que nada tem a ver com o que ele pensava. O que o Freire descobriu foi um conjunto de técnicas com uso centrado no vocabulário de conceitos-chave, conceitos geradores. Foi usado nas periferias de Nova York. Acabou sendo distorcido por aqui, virando até uma metodologia “perigosa”.

Qual cenário imagina para o Brasil daqui a 30 anos?
Falar do futuro exige projeções sólidas. Sem elas, o que temos é uma nebulosa mesmo, não há muita saída. Mas a meu ver há uma revolução que precisa ser feita, que é valorizar o estudo da História. Autores recentes como Yuval Harari estão clamando por mais atenção para os movimentos histórico-culturais de longa duração. O horizonte é de construção para longo prazo, e temos, nós brasileiros, de aprender essa lição.