‘Os homens não estão preparados  para discutir suas emoções’

‘Os homens não estão preparados para discutir suas emoções’

Sonia Racy

19 Janeiro 2015 | 01h00

Foto: Iara Morselli/Estadão

Músico, ator e escritor, ele revela: fez terapia para ser marido e pai e acha que o mundo masculino precisa se organizar, como as mulheres, para viver o universo emocional

Aos 54 anos de idade e 30 de carreira, Leo Jaime não para. Além de atuar em Malhação, ele produz Amor & Sexo e compõe o quarteto do Saia Justa Verão, que vai até 25 de fevereiro. Referência do rock nacional nos anos 80, ele concilia a música com as rotinas de ator, apresentador e escritor – lançou recentemente Cabeça de Homem, onde discute o relacionamento entre os sexos e os comportamentos masculino e feminino.

Nesta entrevista, ele revela: decidiu fazer terapia para se preparar para ser marido e pai. E sustenta, para provável desconforto da maioria da classe, que os homens “não estão tão preparados (quanto as mulheres) para esse debate, e acabam evitando a conversa” – sobre o mundo emocional.

Você canta, compõe, atua, apresenta, comenta, escreve. Qual a estratégia para conciliar isso tudo?
São atividades, todas elas, que me dão muito prazer. Nem sempre é fácil achar tempo – mais difícil que isso, no entanto, é mudar de um registro para o outro. Passar do ator para o cantor, depois para o apresentador, deste para o escritor. Tudo exige preparo, concentração. Uma hora você está observando as pessoas e o jeito como elas reagem. Outra, você está procurando um verso para uma música. Internamente existe uma cobrança para ficar atento a cada um desses olhares. No fundo eu faço duas coisas: interpreto e escrevo. Mas faço em veículos e em formas diferentes. Eu interpreto texto, música, coisas que escrevo, coisas que não escrevo. E escrevo coisas que eu não interpreto.

Construiu alguma fórmula para guardar suas ideias?
Eu tenho que lidar com a minha ansiedade o tempo todo. A forma como consigo isso é pensar uma coisa de cada vez. Para cada trabalho que faço tenho um caderninho onde anoto as ideias para depois desenvolvê-las. O problema é que eu não consigo carregar todos os caderninhos… (risos).

Se tivesse que escolher uma única atividade, com qual ficaria?
Cantar, atuar e escrever são exercícios que se completam. Se eu não tivesse muito prazer em fazer cada uma dessas coisas eu não as faria. As duas primeiras tarefas representam estar com os amigos, estar jogando, enquanto a última exige estar sozinho, juntando ideias para criar algo novo. Vivo para ter o que contar e penso no que estou vivendo para poder escrever a respeito.

Mas se, enfim, fosse obrigado a escolher…
Para algumas pessoas pode parecer falta de foco, mas para mim é uma coisa só, com foco muito aberto. Essa é minha unidade. É quem de fato eu sou. Não quero perder nada disso.

Não sente falta de dedicar mais tempo à família?
A gente não lamenta ter sucesso e muitas oportunidades. É uma coisa que a gente agradece e se esforça para continuar tendo. Mas eu aproveito o máximo de tempo livro parar ficar com a minha família. Sinto falta, sim, de ver meus amigos.

Você foi referência no rock nacional dos anos 80. Como analisa o cenário musical de hoje?
Nos anos 80 a rádio FM fazia parte da vida das pessoas. Oferecia muitas músicas boas toda hora. Ao final do ano, hoje, vemos apenas cinco ou seis…. Esse número é o que aparecia por semana na época.

Hoje o rádio divide espaço com YouTube, o MP3. Não e, em alta escala, mundo ouvindo a mesma coisa. É difícil para quem vai começar a carreira na música. Como faz?
As gravadoras não são mais importantes como eram antes. Falta para a música brasileira um mercado mais promissor e rico. A chegada do MP3 mudou muito a história e não é uma coisa resolvida ainda. Tem muita gente talentosa, fazendo muita coisa boa. Mas é muito difícil fazer sucesso ou dar continuidade ao sucesso. Hoje é tudo muito fragmentado. É como se tivesse um milhão de segmentos que se comunicam pouco. O que pinta mais são produções grandes, que já começam com um nível de investimento muito alto, inacessível para a maior parte dos músicos e compositores.

Acha que o mercado atual é pouco democrático?
Talvez seja importante promover medidas para estimular a cultura ou programas que deem oportunidade aos novos artistas. Talvez falte disposição do público para pagar mais para assistir aos shows seus artistas. Hoje pouca gente vai a uma loja comprar um CD.

Mas a internet não ampliou a visibilidade de quem não conseguia entrar no mercado?
Tirando a Mallu Magalhães, quem foi que fez muito sucesso a partir de um trabalho na internet? A possibilidade existe, o fato não. Você pode produzir os seus discos em casa, fazer um video clip. O “faça você mesmo” pode funcionar, mas a questão é: como isso vai virar dinheiro?

Há saída para isso?
A música não ocupa, na cabeça das pessoas, o mesmo espaço que ocupava nos anos 80. O que é um paradoxo pois nunca se ouviu tanta música como se ouve hoje. As pessoas têm três mil músicas no celular, mas paga-se muito pouco por elas. Se comprassem mais música, mais carreiras poderiam estar despontando por aí.

Quando foi que deixou de olhar tanto para música e decidiu investir em outras áreas?
Depois que comecei a lançar discos, fiquei cinco anos tocando e cantando, mas também fiz cinco filmes e fui sentindo vontade de parar para me reciclar. Estava um pouco angustiado. Além disso, eu também não tinha estabelecido uma relação saudável com a indústria fonográfica. Depois de gravar em 1995, só voltei a gravar em 2008. No auge do sucesso fui parar na geladeira.

E como fez para superar isso?
Numa certa altura, achei que estava num camisa de força. Senti que precisava escrever, trabalhar como ator e dar vazão a outras potencialidades. Ou pelo menos me jogar para ver o que acontecia. Hoje percebo que tinha uma inclinação para um artista múltiplo. Eu não me sentia completo sendo apenas “o roqueiro irreverente”.

A internet ajudou no seu reencontro com o público. Como foi que isso aconteceu?
Na medida em que a mídia não o procura, você começa a achar que as pessoas não têm interesse em você. Então lancei um blog na época em que poucas pessoas faziam isso e foi o maior sucesso. Depois veio o Orkut. Tudo isso evidentemente me surpreendeu porque eu percebi que era uma pessoa querida. Então descobri o mercado paralelo pela internet. Em determinado momento a repercussão nas redes sociais fez com que o pessoal da televisão concluísse: “O pessoal gosta dele, vamos chamá-lo para conversar”. Aí comecei a ter mais aparições em novelas, voltar a cantar em programas de televisão. Até que apareceram os convites, tanto para começar a escrever Amor & Sexo como participar do Saia Justa.

Amor & Sexo está conseguindo derrubar tabus?
É um programa muito feliz na sua proposta de discutir sexo de um jeito divertido – sem recorrer a fórmulas didáticas. Fala ainda de amor e comportamento. O programa fez com que, na TV aberta, esses assuntos fossem debatido com leveza. De repente a gente descobre que a neta e a avó estão assistindo juntas o programa e começando um diálogo por causa dele. Acho que, sem ter a pretensão de ser educativo, ele presta seu serviço, que é despertar debates sobre esses temas – que, afinal, são muito importantes para a felicidade das pessoas.

Acha que o brasileiro fala pouco sobre esses assuntos?
Depois que surgiu Amor & Sexo, a pauta ficou mais frequente em outros programas. Todo mundo tem dúvidas sobre tais questões. Há essa autoimagem segundo a qual o brasileiro é muito quente e sensual, muito bem resolvido na vida amorosa e sexual, mas a gente sabe que não é bem assim.

Como foi a produção do Cabeça de Homem? Teve influência da sua mulher, que é psicóloga?
Não procurei me basear em pesquisa, mas no que o olhar pode perceber. Nas conversas, nas ruas, nos bares, nos encontros com os amigos. Gosto muito de conversar com minha mulher sobre o comportamento humano. Acho que, se você quer mudar o mundo, tem que mudar primeiro a si mesmo. Quando decidi casar, fui fazer terapia para enfrentar essa experiência. Eu disse que queria me preparar para ser marido e pai. O segredo do livro talvez seja exatamente esse: o de perceber, e discutir, que o homem precisa se preparar para viver essas questões.

E que tipo de preparo é esse?
Ele se planeja para ser um profissional. Para assistir um jogo de futebol no fim de semana. Até estuda a história do seu clube. Mas não se prepara nem debate com um amigo as questões amorosas e sexuais, enquanto as meninas conversam sobre isso há anos. As revistas femininas falam sobre esse assunto o tempo inteiro. Aí chega na hora do encontro amoroso e os caras estão despreparados. Podem ser pessoas interessantíssimas, com as melhores intenções, mas eles não estão tão preparados quanto elas para esse debate e acabam evitando a conversa. Quando tem algum debate sobre o tema, ele se sente desconfortável. É como uma prova oral sem a professora ter avisado. A famosa DR.

Seu livro sugere a solução?
O livro mostra a importância de se debater, conversar e incluir confortavelmente essas questões na sua vida íntima. Não dá pra ser feliz sem ter uma vida amorosa ou sexual bem-sucedida. Não é só ganhar dinheiro, ter sucesso profissional. Tem uma hora em que o cara sente vontade de ter uma vida familiar e amorosa bem sucedida. Sentir-se bem com sua sexualidade. Acho que isso tudo pode ser melhorado se ele parar para pensar e conversar a respeito. É preciso existir esse espaço entre homens assim como já existe entre mulheres. O fato de eu conversar muito com minha mulher e outras mulheres me prepara para ser o homem que diz que é preciso tratar disso.

Você se considera um especialista em mulher?
Não acho que esse título possa ser dado a alguém. Segundo Freud, todo mundo é um palpiteiro no tema. Posso dizer que gosto muito da companhia da mulher, de ter mulheres como chefes, parceiras, amigas. Acho que o universo feminino é muito surpreendente, intenso, amoroso e divertido. Mas também gosto da leveza e do bom humor dos homens. Esse é uma vivência que as mulheres poderiam aprender com eles. Os dois gêneros têm muito o que aprender um com o outro.

O que acha que pesa mais, nos seus 54 anos?
O tempo passa a ser uma coisa muito importante. Perder tempo me incomoda. Há alguns dias meu filho me perguntou se eu vou conhecer meu neto… A gente fica pensando nos prazos. Também sinto vontade de conseguir um tempo maior para mim, de fazer exercício todo dia. Porque eu tenho tido uma rotina de muito trabalho. Às vezes até tenho tempo, mas não tenho a menor disposição porque estou exausto. É preciso ter uma vida saudável para se manter funcionando bem e poder dar conta de trabalhar e ver as coisas boas da vida.

Quais os planos que tem para este ano?
Quero fazer o meu primeiro DVD, comemorando 30 anos e carreira. Não tenho contrato com gravadora nenhuma – o que pretendo é fazer um crowdfunding. Também estou com ímpetos de compor, vontade que andava adormecida. Nas horas vagas vou fazer um material novo. Vamos ver no que dá. Se eu curtir eu gravo. / MARINA GAMA CUBAS