Presidenciáveis adotam ’50 tons de verde’ para falar de meio ambiente

Presidenciáveis adotam ’50 tons de verde’ para falar de meio ambiente

Sonia Racy

29 Setembro 2018 | 00h30

MATA ATLÂNTICA. TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

MATA ATLÂNTICA. TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Qual o lugar do meio ambiente nos programas dos candidatos à Presidência? Não é de todo mau, mas está longe do ideal. Para começar, dois dos 13 concorrentes não só ignoram o assunto como se mostram hostis à simples ideia de discuti-los – Jair Bolsonaro, do PSL, e Cabo Daciolo, do Patriota. Nos programas de governo dos outros 11, o tema é mencionado – entre quatro e dez vezes, conforme o candidato –, mas itens cruciais como mata atlântica e proteção do mar são sumariamente ignorados.

As conclusões compõem o balanço de 26 páginas da SOS Mata Atlântica — nas quais o que se percebe são os mais variados tons de verde. Pontos positivos foram detectados em vários dos planos de governo, mas pouco ou nada se tratou, por exemplo, sobre agrotóxicos ou crises hídricas. E nenhum dos postulantes se deu ao trabalho de lembrar que as sugestões dependerão do aval do Congresso. Dado essencial, pois o cenário que se tem no horizonte, a partir de 2019, é de novas bancadas bastante conservadoras.

Para avaliar os detalhes, o estudo traz uma tabela com cinco preocupações básicas dos ambientalistas: mata atlântica, restauração da floresta, valorização de parques e reservas, água limpa e proteção do mar. Em seguida, faz o cruzamento de cada item com as 13 candidaturas. E o que se descobre é que, em 12 delas, a expressão “mata atlântica”… sequer é mencionada. A exceção é Guilherme Boulos, do Psol.

Três dos candidatos não indicam, em seus planos, nenhuma daquelas cinco preocupações. São eles Bolsonaro, Cabo Daciolo e Geraldo Alckmin. Os “mais generosos”, na outra ponta, são Henrique Meirelles e Boulos, que abordam quatro. Ciro e Marina mencionam três e ela faz referências gerais à meta “desmatamento zero até 2030” – um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável –, mas sem falar de “mata atlântica” nem de “proteção do mar”. A questão do desmatamento aparece em diferentes tons de verde, como “desmatamento líquido zero até 2022” (Haddad) e “zerar o desmatamento em uma década” (Boulos). Amazônia, saneamento, várzeas e Código Florestal marcam presença nos programas, de forma dispersa.

Tidos com os mais avessos à causa, Bolsonaro e Cabo Daciolo são reunidos em um minipacote com duas anotações: “Unificação das pastas de Meio Ambiente e Agricultura” (ou seja, a extinção do MMA) e “predominam discursos fortemente antiambientalistas”. Aparecem ainda, nas intenções dos presidenciáveis, promessas do tipo “compatibilizar agendas verde, marrom e azul” (Ciro Gomes), “foco em Amazônia” (Haddad), ou “perseguir as metas assumidas no Acordo de Paris” (Alckmin). O acordo, a propósito, é mencionado, como meta a se cumprir, na maior parte deles. / GABRIEL MANZANO