Olho no longo prazo

Olho no longo prazo

Sonia Racy

09 Setembro 2015 | 01h20

Foto: Iara Morselli/Estadão

O Iguatemi inaugura amanhã a primeira loja de mais uma expansão – o novo endereço da Cartier no mezanino da Faria Lima. Decidido há quatro anos, o avanço confirma a estratégia de crescer aos pouquinhos – é assim que o local vem se ampliando há 50 anos, a serem comemorados em 2016. “Sou mais novo que ele”, brinca Carlos Jereissati Filho, comandante do complexo Iguatemi Shopping Centers.

Aos 43 anos, ele atribui esse passo a passo ao modus vivendi do País: “É preciso que você tenha realmente uma classe política que pare de pensar só em si.” E vai adiante: “Precisamos de produtividade no governo.” E que ele olhe mais “o que é essencial para a população e deixe a iniciativa privada trabalhar.” A seguir, os melhores momentos da conversa.

Do modo que o Brasil está hoje, você tomaria essa decisão?

Tomaria porque esse não é um negócio pra se pensar no curto prazo. Olho com otimismo o médio e longo prazo, apesar de saber que vamos passar alguma dificuldade. As marcas globais têm uma estratégia clara: não dá para ficar fora de um mercado como o Brasil. Elas sabem que o brasileiro é um grande comprador de luxo no mundo. Então eles têm que estar em contato com ele em seu país de origem. Não vão ter aqui 15, 20 lojas, mas têm de estar presentes.

Ao que se sabe, a rentabilidade dos estrangeiros aqui é baixa.

A rentabilidade é uma dificuldade não só do varejista externo, mas do nacional também – até porque o Brasil é um dos poucos países no mundo que taxam o consumo e não a renda. Isso terá de mudar.

Tem esperança de que isso mude no curto e médio prazo?

Da mesma forma que o Brasil não tem como fazer diferente de ter uma moeda estável, uma economia estável que possa ser planejada e as pessoas possam manter o seu consumo no tempo, é essencial caminhar para uma reforma tributária correta. Adiar isso é adiar o desenvolvimento do País e o dos cidadãos.

Há mais de 30 anos isso está para ser feito. Por que agora?

É preciso que você tenha realmente uma classe política que pare de pensar só em si mesma, pense no País e faça o que precisa ser feito. A reforma tributária terá de ser feita, senão ficaremos patinando, andando de lado. Precisamos de reformas nas questões trabalhista, fiscal, de redistribuição do consumo para a renda. Precisamos de produtividade do governo. Enfim, de um Estado que olhe mais o que é essencial para a população e deixe a iniciativa privada trabalhar. Acho que o governo hoje está apontando nessa direção, vendendo coisas que não precisam ser do governo.

O que você nota no mundo dos shoppings? Caiu o consumo?

A gente já vem notando isso de dois anos para cá. Sente-se menos por estarmos numa ponta do consumo onde a renda das pessoas é maior. E hoje, com o dólar na casa dos R$ 3,80, elas ficarão mais no Brasil.

Tem mercadoria estrangeira hoje mais barata aqui do que lá fora. Efeito dos estoques?

De janeiro a março a gente teve um boom de vendas internacionais, e isso é o que vai se repetir agora. Você pode ficar de olho. O dólar acelerou, você tinha um estoque comprado num dólar mais baixo e não fez o repasse no Brasil.

Tem pesquisas sobre quem é seu consumidor mais forte?

São Paulo e interior. A capital ainda é a mais forte. Acredito que é 70% em geral – estou chutando… – e os outros 30% distribuídos, dependendo da marca, entre alguns Estados. Talvez o Rio de Janeiro não tenha uma presença tão forte. Estou falando das lojas que conhecemos, não temos shopping no Rio. Outros Estados têm presença maior, tipo Minas, Brasília, Porto Alegre e Estados do Nordeste.

Nessa expansão, vocês usaram o BNDES?

Não. É um investimento pequeno, a gente fez com capital próprio. Mas os grandes investimentos em novos projetos, que são da ordem de R$ 300 milhões, R$ 400 milhões ou R$ 500 milhões, como um projeto de um shopping novo, acho que a grande maioria está sendo adiada, se não quase a totalidade. Uma coisa ou outra vai sair.

Vocês anunciaram um outlet em Curitiba.

É verdade. E temos quatro em andamento: um pronto, um em construção em Santa Catarina e dois em projeto.

E um investimento de quanto nesses quatro?

Os três em conjunto, quase R$ 500 milhões. Prazo de três ou quatro anos. Como falei, um shopping leva pelo menos cinco a seis anos para se pensar e construir, mais um de projeto, outro de aprovação e dois anos de construção. Outlet não demanda tanto tempo. No quadro atual a regra é freeze, até saber melhor o que vai acontecer.