‘O surfe é um esporte com falta de diversidade’, diz Maya Gabeira

‘O surfe é um esporte com falta de diversidade’, diz Maya Gabeira

Sonia Racy

23 de novembro de 2020 | 00h35

Maya Gabeira. Foto: Vitor Estrelinha

A proximidade com um paredão de água de 22, 4 metros de altura é um pesadelo para 99% das pessoas, mas não para Maya Gabeira. A brasileira de 33 anos de idade bateu, em fevereiro deste ano,  o recorde da maior onda surfada por alguém em 2020. “A pessoa que fala que não tem medo é louca. Tento extrair coisas positivas do medo, como um instinto certeiro”, conta à repórter Marcela Paes, por telefone. Vivendo atualmente na praia de Nazaré (Portugal) –  um dos locais mais privilegiados do mundo para o surfe de ondas gigantes – a carioca enxerga na conquista mais que uma realização pessoal. Maya crê que o feito pode incentivar mulheres no meio do esporte, que ainda considera extremamente masculino mesmo com os recentes ganhos em igualdade e reconhecimento. “O surfe é claramente um esporte com falta de diversidade”, diz ela, que é filha do jornalista Fernando Gabeira. Leia abaixo os melhores trechos da entrevista com a surfista.

O que é necessário mentalmente para conseguir surfar uma onda dessa magnitude?

Nossa, pergunta difícil. Acho que muitos anos de treino. Você vai evoluindo. Comigo foram muitos anos de carreira para chegar nesse nível, 14 anos como profissional. Eu sei, parece loucura, mas é o resultado de um trabalho longo e de uma equipe grande.

Na hora em que você entra na água, o que é que vem na sua cabeça? Você tem medo?

Ah, sim. É impossível não ter medo. A pessoa que fala que não tem medo é louca. Mas sinto muito respeito. Você sente o perigo, você está ali olhando para o perigo. Tem também uma confiança, uma vontade de se superar, de pegar aquela onda, viver aquela experiência. Isso acaba nos motivando a trabalhar com o medo. Tento extrair coisas positivas, como um instinto muito certeiro e uma força maior do que o normal.

O que esse recorde representa para você?

Muita coisa. Representa a quebra de uma barreira, de uma limitação que se via assim para as mulheres, principalmente nesse esporte, que é muito masculino. Acho que nunca imaginavam que uma mulher ia acabar surfando a maior onda do ano. Só de poder mostrar isso já é muito importante. Isso acaba estimulando muita gente. Sabe quando você sonha e acha que com certeza não vai acontecer? Porque é tão fora do que as pessoas veem como possível que você fica até um pouco constrangida de dividir?

Como foi a reação dos seus colegas com a notícia?

Depende (risos). Uns não falam nada, outros ficam felizes por você, outros não ficam muito felizes por você. É um meio muito competitivo. Eu acho que em qualquer esporte competitivo tem gente que tem mais facilidade de lidar com o sucesso do próximo e tem gente que tem mais dificuldade de lidar com o sucesso do próximo. Teve homens como o (Pedro) Scooby, que, pra mim, é um exemplo de pessoa bem resolvida. Ele ficou muito feliz por mim.

É difícil ser uma das poucas mulheres no meio?

Ainda é difícil, mas não dá pra comparar com o que já foi. Hoje em dia é uma coisa tão diferente, que eu não quero nem falar que é difícil. Dá até vergonha. Hoje as mulheres têm as mesmas plataformas, temos campeonatos, visibilidade, uma premiação igual. Melhorou muito de uns três, quatro anos pra cá. Acho que teve até a ver com o me too movement. Mas ainda tem muito o que melhorar. O surfe é claramente um esporte com falta de diversidade. É muito restrito, muito elitista de alguma forma. Tem o estereótipo daquele menino loiro, branquinho, da praia. As mulheres foram a primeira minoria a quebrar um pouco essa barreira, mas temos muitas mais. É um processo. O surfe tem um histórico antigo de falta de diversidade.

Mas o que poderia ser feito para aumentar a inclusão?

Olha, boa pergunta. No surfe profissional tem que existir um investimento forte ainda na criança. Você vê pelos atletas que acabam se profissionalizando, muitos foram crianças e adolescentes que tiveram oportunidade de viajar o mundo várias vezes. São meninos que fazem temporadas no Havaí, que vão pra Indonésia treinar desde novinhos. Isso depende de uma situação financeira boa.

No Brasil isso parece ainda mais difícil.

Tem poucos casos hoje em dia, mas o Brasil é um dos  países que tem quebrado essa barreira. Até recentemente era uma grande dificuldade. Mesmo assim, sinto muita falta de negros no surfe. E também de gays. Não conheço nenhum gay assumido no esporte profissional.

Isso é curioso porque existe o estereótipo do surfista zen, que aceita o diferente. Existe muito preconceito no meio?

Só reparando na demora para entenderem e aceitarem a importância da mulher no esporte você já vê porque não é tão fácil para as pessoas se assumirem como gays nesse meio profissional.

O surfe ainda é muito relacionado ao uso de maconha. Como vê isso no circuito profissional?

Meu circuito é totalmente separado do circuito mundial, então não posso falar com certeza. Mas eu tenho a impressão de que os meninos do topo, do WCT (Circuito Mundial Masculino de Surfe), são muito caretas, muito profissionais e muito atletas. Acho que não tem mais espaço pra isso, o esporte se profissionalizou num nível onde ninguém tá mais na praia curtindo um baseado depois do surfe. Está todo mundo indo pra casa se alimentar bem, treinar…Pra mim não teria a menor condição. Eu tenho que estar super centrada, super focada. É um esporte de alto risco.

O que é que você acha da entrada do surfe na Olimpíada?

Estou muito curiosa pra ver como é que vai ser. É uma evolução natural. Quero ver como vai ser a apresentação do esporte na Olimpíada e quais serão as mudanças que isso trará na prática nos próximos anos.

Recentemente a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg teve um problema com a federação esportiva por se manifestar politicamente em  uma competição. O que você acha disso?

Eu adoro a Carol, faz tempo que não tenho contato, mas gosto muito dela. Eu acho que na vida pessoal todo mundo tem o direito de se manifestar. Nas redes sociais, em entrevistas…No caso de torneios, eu teria que saber a regra específica de cada um, do dela. Acredito que esse tenha sido o problema, mas não sei ao certo. Não acompanhei com tanta proximidade para dar uma opinião.

E quanto a atletas que usam competições para defender uma causa, como o piloto de F1 Lewis Hamilton, que se posiciona  contra o racismo?

Mas isso não é uma posição política, é uma questão social. Acho que qualquer pessoa que tem uma plataforma e tem uma voz deve usá-la em prol de causas importantes e de coisas que elas acreditam. Isso é super importante.

Seu pai é uma figura política importante. Pessoalmente é um tema que te interessa? 

Um pouco. Eu gosto, me interesso, mas não necessariamente debato política com os meus amigos. Pode dar muito problema, é um assunto que é delicado hoje em dia no mundo (risos).

Mudar-se para Nazaré, onde você sofreu um grave acidente em 2013, foi uma forma de superar o incidente?

Não só. Foi uma forma de me aprimorar na onda de Nazaré. Pra mim, desde a primeira vez que eu vim pra cá, que por acaso foi a viagem do acidente, eu entendi que esse seria o maior foco mundial do surfe dos próximos anos. Vi a potência que tinha, não só no âmbito de recordes, mas também de treino. Não queria desistir de mudar para cá por causa do acidente. Não deixei isso me paralisar.

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