‘O setor está quase paralisado’, diz nova presidente da Spcine sobre audiovisual

‘O setor está quase paralisado’, diz nova presidente da Spcine sobre audiovisual

Marcela Paes

21 de março de 2021 | 00h45

Viviane Ferreira. Foto: Yuri Costa

Advogada e cineasta, Viviane Ferreira fez sua carreira no audiovisual de forma independente. Sabendo das dificuldades de inclusão de mulheres negras no setor, resolveu cortar caminho e criar sua própria produtora, a Odum Filmes, para colocar seu primeiro filme na rua. Agora, como presidente recém-empossada da Spcine, pretende dar continuidade ao trabalho de políticas afirmativas da empresa, mas não só. Tendo como maior desafio de sua gestão a pandemia, quer alcançar as pequenas e médias empresas do setor.

“Temos que olhar para essas, que não contam com os players internacionais que têm operado nas plataformas de streaming no País”. Em entrevista à coluna, ela também falou sobre falta de verbas, desmonte da Ancine e censura. Leia abaixo:

A inclusão vai ser uma das frentes da sua gestão?

A Spcine já tem uma trajetória de pensar em políticas afirmativas. Acho inclusive que a minha indicação para a presidência também tem a ver com o amadurecimento do setor e o reconhecimento de que existem habilidades, inteligências e possibilidades também em outros grupos raciais. Ganhamos muito quando conseguimos pensar no audiovisual como um todo, entendendo as especificidades de grupos que historicamente tiveram menos acesso aos espaços. Mas o trabalho não será reduzido exclusivamente à inserção da pauta racial e de gênero.

Como, na prática, implementar essas políticas afirmativas?

Além da inserção de profissionais negros e indígenas nas diversas dimensões do setor audiovisual, também podemos olhar para as estruturas geridas por esses grupos. Olhar para os modelos de negócios desenvolvidos por negros no audiovisual e garantir seu reconhecimento no mercado.

A pandemia é a maior dificuldade a ser vencida?

Sim. Audiovisual é uma atividade que exige o contato humano, presença e troca física. O setor está precisando se reinventar com muita criatividade pra não paralisarmos totalmente as atividades, até porque o audiovisual é um respiro para toda população diante do isolamento social. Para você ver, a porcentagem de utilização do conteúdo do catálogo da Spcine Play cresceu mais de 1000% durante a pandemia. O desafio é manter essa balança equilibrada, além do problema orçamentário. O audiovisual está sim sob ataque, temos uma gestão federal que não enxerga a potência econômica do setor.

Muitos alegam que a Ancine estaria sofrendo um desmonte. Isso é verdade? Qual o impacto para o setor?

O baque foi gigantesco, o setor está quase paralisado hoje. O audiovisual tem conseguido se segurar com verbas municipais. Sabemos que os recursos disponíveis para a cultura são pequenos diante do tanto que produzimos. Muitos estão contando com capital estrangeiro que vem via streamings, mas temos que olhar para as pequenas e médias empresas do setor, que não contam com os players internacionais que operam nas plataformas de streaming. A Spcine tem assumido um desafio e um papel hercúleo de tentar garantir uma política ao menos para as empresas e organizações sediadas na cidade de São Paulo, mas o orçamento que temos disponível hoje é insuficiente para a demanda.

Outro problema que vem sendo levantado seria censura. Você concorda?

A atual gestão do governo federal imprimiu uma lógica bem conservadora, que enxerga o setor como inimigo da sociedade e tenta dizer o que é e o que não é cultura. Não levam em conta a diversidade de costumes, de linguagem, de atuação e tentam estabelecer uma leitura monocromática da produção cultural. Abre-se mão da riqueza que é o multicolorido, sobretudo num País diverso como o Brasil. Então, é muito triste concordar, mas estamos vivendo esse lugar de censura, tanto para coisas a serem feitas quanto para coisas que já foram realizadas. Existe uma ‘caça às bruxas’ sem precedentes no País quando olhamos para a análise de prestação de contas de projetos realizados, entregues e aprovados. Isso não tem justificativa técnica nem justificativa jurídica. É um disparate.

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