‘O Rio tem público, mas São Paulo tem plateia’, diz Ciro Barcelos

‘O Rio tem público, mas São Paulo tem plateia’, diz Ciro Barcelos

Sonia Racy

22 Janeiro 2018 | 01h00

CIRO BARCELOS

CIRO BARCELOS. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Integrante do Dzi Croquettes e coreógrafo
fala sobre os 45 anos da criação do grupo

Um dos integrantes do Dzi Croquettes, grupo transgressor do teatro musical brasileiro da década de 1970, o coreógrafo Ciro Barcelos fala das comemorações planejadas para os 45 anos da criação do conjunto.

Além da nova estreia do espetáculo Dzi Croquettes em Bandália, revival com elenco jovem montado no ano passado, ele prepara uma oficina para alunos da universidade de Princeton e outros projetos.

Na entrevista à repórter Paula Reverbel o coreógrafo também fala de quando o grupo foi exilado durante a ditadura e da sua proximidade com artistas que conheceu na Europa. Leia os principais trechos.

Você esteve recentemente na Universidade de Princeton?
Recebi uma visita aqui em São Paulo, no estúdio, de um doutorando lá dos Estados Unidos, que está fazendo um mestrado em sociologia. Ele escolheu como tema pro mestrado dele o Dzi Croquettes. Ele fez uma exibição do documentário, eles passaram a discutir o Dzi e me convidaram pra ir dar uma palestra na universidade. Eu fui pra lá, Princeton, que é aquela universidade super, supertradicional. Imagina, né? Um lugar fantástico, que parece um cenário do Harry Potter.

E como foi?
Fui surpreendido por uma recepção incrível. Eu chego em Princeton e o Dzi é discutido em um auditório com mais de mil alunos… De teatro, de sociologia, de várias matérias. Fiquei emocionado mesmo. Porque no Brasil nunca deram tamanha importância.

Fala da área acadêmica?
Da área acadêmica. Já me chamaram pra dar palestra numa ou outra universidade, mas é uma coisa assim bem en passant, não com essa importância que me deram lá em Nova York. Eu estou também convidado pra voltar agora em 2018 e fazer uma grande oficina com os estudantes da universidade, montar uma instalação no campus com os alunos vestidos de Dzi. Acredito que em maio.

Quem mais vai participar?
A Liza Minnelli é nossa madrinha, né? Estive lá e ela achou isso fantástico. Aí se propôs também a estar presente nessa instalação. Vou chamar todas as nossas madrinhas que estão lá, que são a Liza, a Sônia Braga…

A Sônia Braga ajudou quando fugiu de casa?
Eu morava no Rio Grande do Sul e o Hair passou lá por Porto Alegre… Era a primeira montagem ainda, com a Sônia Braga, Armando Bogus, Aracy Balabanian, aquela turma toda, né? Quando Hair chegou lá, nós, os jovens, éramos proibidos de assistir. Então eu saía escondido pra assistir e fiquei amigo da Sônia, que na época era apenas uma atriz, ainda não era “a Sônia”… Ela me incentivou a fazer teste, porque houve algumas desistências no elenco, e passei. Eu tinha 17 anos, precisava da emancipação dos meus pais. Então fugi de casa.

Mas aí o Hair fui mudando de cidade em cidade e você foi indo nas outras encenações?
Sim. Eu entrei no Hair já em Curitiba e fui viajando com eles, até que fizemos uma temporada em São Paulo. Quando terminou, conheci o Lennie Dale. Eu já amava o Lennie Dale por vê-lo em televisão. Fui assistir a um show dele aqui em São Paulo, entrei no camarim, muito tiete, e falei: “Quero dançar igual a você.” Ele disse: “All right. You get it.” Fui embora pro Rio eu comecei a estudar com o Lennie. E ele estava voltando à cidade para dar aulas na academia de balé da (ucraniana) Eugenia Feodorova – nessa época a gente ia fazer aulas de jazz nas academias das russas porque nem tinha academia de jazz ainda. Um ano depois ele montou o Dzi Croquettes.

Aí ele o colocou no elenco?
O Dzi Croquettes já estava sendo formado por um grupo de atores que tinham essa ideia de um espetáculo de homens vestidos de mulheres, para contestar a ditadura homofóbica, machista… Um dos atores do grupo que fazia aula com o Lennie nos convidou para conhecer a proposta. O Lennie pegou a direção desse trabalho. Transformou aquela ideia em um grande musical. O Caetano Veloso, a Gal Costa e grandes atores do teatro se encontravam nessa plateia. Até que os militares nos censuraram e fomos convidados a nos retirar do país.

Ao mesmo tempo?
Sim, eles censuraram o espetáculo e um dos Dzis, juntamente com o nosso produtor da época, o Orlando Miranda, foram prestar depoimento no Exército. Foi um general que interrogou. Foram ditas coisas de baixo calão a respeito do nosso trabalho. E recebemos um ultimato do tipo “sai por bem ou sai por mal”. Já eram tantos colegas desaparecidos, né? Compramos passagem de navio e fomos pra Portugal.

E o papel da Liza Minnelli?
Ela tinha assistido à gente no Rio, gravamos um número pro Fantástico com ela e tudo mais… O Lennie fez contato com a Liza. Ela chamou Patrice Calmettes, que era um grande produtor na França e tinha nos visto no Brasil. E aí, meu amor, o tiro dos militares saiu pela culatra, porque nós estreamos em Paris.

Como foi?
A primeira noite, da estreia, eu tô aí com o quê? 19 anos. Era uma plateia com todos os meus ídolos. Sabe aqueles ídolos inatingíveis na sua vida? Então estava Mick Jagger, estava David Bowie, estava Liza Minnelli, Catherine Deneuve, todos os grandes cineastas, Claude Lelouch, Jacques Demy… (O coreógrafo) Maurice Béjart, toda essa gente assistindo, Rudolf Nureyev, os grandes bailarinos, né? Então foram dois anos lá na França desfrutando isso de uma forma muito, muito lúdica, conto de fadas. Aí o grupo voltou para o Brasil e eu fiquei lá pra estudar dança.

Por mais quanto tempo?
Fiquei ainda mais seis anos em Paris. Eu estava casado com uma modelo, uma moça alemã, que era a Gisele Bündchen da época, Christiana Steiden, e comecei a trabalhar em companhias.

E por que voltou ao Brasil?
Eu voltei pro Brasil porque, em 1982, eu queria ter a minha companhia. E… por saudade. Saudade da minha família, dos meus amigos e do sol do Brasil. Fundei a minha própria companhia, que se chamava o Balé do Terceiro Mundo. Tinha estado em Paris, estive dois anos muito próximo do Rudolf Nureyev. Tive um caso com ele, né? Então tive acesso a artistas muito incríveis e trouxe toda essa bagagem para minha companhia. E fui contratado pela Globo para o trabalho de coreografias dentro da programação. Até que chegamos naquela abertura célebre do Fantástico, na qual eu saía de dentro da água. Foi engraçado porque eu viajava pelo Brasil com o Balé do Terceiro Mundo. Se eu ia à praia, no Recife por exemplo, as pessoas me reconheciam e, quando eu saía da água, todo mundo me aplaudia e tal.

A sua companhia foi longeva para a época, né?
Sim, oito anos. Imagina, não existia patrocinador…

O dinheiro era de bilheteria?
Era dinheiro de bilheteria. Não existia ainda as Petrobrás da vida. Outro grande sucesso meu, que foi o musical Francisco de Assis, que ficou doze anos em cartaz. Também é uma história incrível porque eu fui à Itália, para trabalhar como coreógrafo na TV italiana Rai Uno. Um dia eu fui conhecer Assis, porque eu sempre fui devoto de São Francisco, e tive um mal-estar e desmaiei lá na, perdi os sentidos. Os freis me acolheram, dormi no convento esse dia, acabou que eu fiquei um ano lá. Depois, quando eu voltei pro Brasil eu montei o musical Francisco de Assis.

E os novos projetos?
Estou começando a escrever uma biografia. O que acontece? Esse ano teremos vários eventos dos 45 anos do Dzi Croquettes. O Itaú Cultural vai fazer uma exposição, tem esse evento lá em Nova York e nós estamos caminhando com o projeto de uma série para a HBO sobre a história do Dzi Croquettes… Estou em negociação com a produtora e com o roteirista, que é o René Belmonte. E aí eu quero ver se eu consigo lançar o livro também. E quero estrear até o final do ano um show em homenagem ao Lennie Dale. Vai se chamar Lennie Dale, um show de bossa.

E a nova estreia de Dzi Croquettes em Bandália?
A gente deve reestrear em abril no Paris 6 Burlesque.

Por que demorou tanto para abrir um estúdio?
Eu nunca quis… Tive várias propostas quando estava no Fantástico mas tenho esse espírito muito cigano. A ideia de ficar em algum lugar sempre me assustou. O propósito maior para companhias é montar os espetáculos e sair viajando. Mas finalmente eu vim para São Paulo, para dar uma oficina, e me encantei. Todo o movimento cultural, teatral, dança. O Rio tá parado, tá falido… Desde os anos 1970, São Paulo já era efervescente, e agora tá mais incrível ainda. O que me fez criar raízes foi a receptividade. Eu brinco dizendo que o Rio de Janeiro tem público, mas São Paulo tem plateia.