“O Rio é a Hollywood Brasileira”

“O Rio é a Hollywood Brasileira”

Redação

02 de novembro de 2008 | 06h02

Foto: Paulo Giandalia/AE


É com esta ótica que Nizan Guanaes resolveu apostar na Cidade Maravilhosa

E vem aí, esta semana, o Rio Summer, evento internacional voltado para exportação, capitaneado pelo empresário Nizan Guanaes, do Grupo ABC. Para falar sobre sua aposta, ele me recebe em sua casa, em meio a uma tarde algo tumultuada. Entre um gole e outro de vinho branco Montrachet de Laguiche, oferece um cafezinho passado na hora. “Eu não entendo de moda, mas entendo de posicionamento. O Brasil é fortíssimo em moda praia e nesse life style carioca”, justifica o empresário, lembrando existir, na Cidade Maravilhosa, trabalhos históricos, como o de Lenny Niemeyer (que, por acaso, é santista) e do gaúcho Oskar Metsavaht, os dois homenageados desta primeira edição. Como em São Paulo existe o promissor trabalho da Raia de Goye. “Eles, mais outros cariocas igualmente importantes, têm defendido de maneira absolutamente teimosa, a produção brasileira.”

A abertura do RS virá acompanhada do slogan “o primeiro povo desta terra, andava nu”. Para Nizan, os europeus se vestem como ninguém, mas ninguém se despe melhor do que os brasileiros. E é justamente nessa corte, nessa ginga, que o Rio pode ser monetizado, transformado em dinheiro e em exportações. “A moda não tem nada de frívola, embora tenha essa fama.” Para o publicitário, aliás, não há dúvidas: o Rio é a Hollywood brasileira. Sobre o entrevero com o publicitário Fábio Fernandes, da F/Nazca, nem uma palavra. Aqui, trechos da sua entrevista.

Por que você resolveu apostar no Rio? Muitos são os motivos. Essa crise vai passar e o Brasil fez o dever de casa. Assim, acredito que ela vai nos afetar muito menos do que a gente pensa. Dentro da nova geografia política do mundo, o Brasil deve emergir como uma das forças deste século. Então, se São Paulo é a massa cinzenta do País, o Rio é o ícone do Brasil. A marca e o palco para a indústria do entretenimento. São três as indústrias que movimentam hoje o Rio: o entretenimento, o petróleo e a moda. Se juntar moda e entretenimento, como é feito lá fora, a cidade se fortalece. Essa idéia não é minha, mas de grupos estrangeiros que sempre perguntaram a Donata (sua mulher) e a mim, por que não se desenvolvia algo maior no Rio. Foi assim que comecei a apostar na cidade.

Mas o Rio não está muito castigado? A cidade tem uma série de problemas. Mas tem também potencial, marca e vontade popular forte para reverter isso. É importante criar uma ponte econômica entre São Paulo e Rio de Janeiro. Eles são a mesma casa – São Paulo é o apartamento e o Rio, a varanda. Portanto, não são antagônicos.

E o que mais você pensa em fazer pelo Rio? Olha, eu não estou pensando só no Rio. E sim, no Brasil. Pretendo, por exemplo, fazer um festival de música clássica em Ouro Preto. Já faço o carnaval da Bahia, esportes radicais em São Paulo e também vôlei mundial de praia. A idéia é criar um calendário de eventos no País e no grande palco brasileiro que é o Rio.

Isso significa afastamento da publicidade? Não. Ao contrário. A publicidade é que vai ganhar um contexto maior. Todos os veículos de comunicação, hoje, têm um calendário de eventos fortíssimo. O futebol global é um evento e o maior patrocínio da televisão brasileira. O Oscar é um patrocínio, o carnaval também. Os eventos são conteúdo e os conteúdos são eventos. É dentro dessa crença que estamos avançando.

Mas a publicidade vai tomar conta do conteúdo? Toda vez que se fala em conteúdo, as pessoas pensam em jornalismo, em mídia. Eu não sou uma empresa de mídia, nem de opinião. Nossos conteúdos são de entretenimento – têm a ver com experiências de marca, que se fazem por meio de eventos. Um dos problemas dessa crise é que os anglo-saxões criaram dados e verdades a partir dos interesses deles. Não é bem assim, porque tem lugares ainda no mundo em que se está entrando no século 20, a internet é uma realidade só para uma parte do mundo.

O jornal, a televisão e o rádio vão morrer? Não. Existe um complexo de highlander na comunicação, parece que uma coisa tem que substituir a outra. Não acredito nisso, não podemos ser fashion victims. Eu apostaria em tudo que é mídia tradicional. Aposto nas coisas que entendo. Não estou negando a revolução digital, mas acho que as coisas sólidas não vão morrer só porque existe comércio eletrônico. Tem uma diferença na forma como as pessoas se informam. Ao longo do dia, elas ficam sabendo sobre os fatos. No jornal, elas recebem análise profunda do que aconteceu na sua busca por alguém que explique os fatos.

E como discernir as informações que circulam pela internet? É a forma dos veículos de comunicação tradicionais que fazem a triagem. Eles dão autoridade. O fato puro é uma commodity e as pessoas querem opinião. A internet é uma fonte bruta de informação que, sozinha, não vale.

A crise tem algum impacto de credibilidade. O mundo vendeu coisas que não existiam. Estourou a bolha. As pessoas ficaram descrentes. Isso teve algum impacto na publicidade? Teve impacto em tudo. Tão importante quanto a publicidade são os fundamentos e a reputação de uma empresa. A vida da companhia como um todo, como ela se comporta. Hoje, quem compra um produto dá muita importância à história de quem o fabrica.

Isso, mesmo no Brasil, onde a massa é menos consciente? As pessoas podem não ter cultura, mas têm intuição.

Mas, em países em desenvolvimento, o consumidor olha para tudo que a empresa faz ou para o preço em si? Olha para o preço, mas o consumidor é esperto. Há uma grande afinidade entre as empresas que a população admira e as empresas formadoras de opinião, que os mais conscientes admiram. Os formadores de opinião entendem e compreendem, do ponto de vista intelectual. O povo intui, percebe do ponto de vista sensorial.

A publicidade sempre viveu de vender sonhos. Esse conceito mudou? Acho que agora a publicidade vive é de vender realidade. De mostrar empresas como elas são. Não adianta, no mundo de hoje, com imprensa livre, internet e um monte de outras coisas, vender o que você não é.

Voltando à crise, seu grupo se preparou? Em maio do ano passado, eu disse para o meu pessoal, em palestra, que o mundo ia desabar em 15 meses. E nos preparamos para o pior. Não estamos alavancados, estamos capitalizados. E vamos poder aproveitar com ponderação e calma as oportunidades que a crise vai gerar. Quero manter um pessimismo de resultados. Ou seja: é um olho no gato, outro no peixe. Vamos investir no que é estratégico e poupar no que é tático.

Você não teme perder clientes? Claro. No entanto, existem três coisas: o medo, o pânico e a coragem. O pânico é algo que paralisa, o medo é algo que alerta. É fundamental nos seres humanos. A coragem é saber separar o que você consegue do que não consegue ultrapassar. A coragem é o planejamento estratégico do medo. E isso não significa bravata. Bravata é quando você sobe em uma onda e não consegue ultrapassá-la.

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