“O real não viaja”

“O real não viaja”

Redação

22 de setembro de 2008 | 07h46

Para Fabio Barbosa, a economia brasileira será menos afetada pela crise que corrói os mercados no mundo

Foto por Paulo Giandalia/AE

Fabio Barbosa é presidente do Banco Santander e da Febraban

A crise dos mercados é nervosa, histérica, caótica, mas Fábio Barbosa, presidente da Febraban, está calmo. Aliás, ele é calmo. Raras vezes, nessa sua trajetória até a presidência do Santander – por meio da compra do ABN Amro-Real -, alguém assistiu a algum rompante seu mais significativo. E, agora, com os mercados ruindo como em um castelo de cartas, o habilidoso executivo consegue manter a racionalidade. Total.

Que conselho daria aos investidores perdidos nessas noites de chuva? “A primeira coisa que alguém deve fazer antes de investir é saber onde vai colocar seu dinheiro. O Brasil é criticado por praticar taxas de juros elevadas. Mas, apesar disso, sou sempre surpreendido com a pergunta: onde é que eu aplico para poder ganhar mais?”, conta Barbosa. E o que responde? “Se esta pessoa está do lado de quem recebe os juros elevados, isso deveria satisfazê-la. Mas se quer riscos maiores, deve estudar. No momento, só há um conselho possível: trata-se da pior época para agir. O melhor mesmo é deixar a poeira baixar.” A seguir, trechos da entrevista.

O epicentro desta crise é o mercado americano. Por que, então, todos correm para o dólar? São duas as razões. A primeira: há necessidade de se gerar dólares para cobrir prejuízos nas operações no mercado americano. A segunda: a crise começou nos EUA, mas atingiu Europa, Japão e tudo mais. Os EUA têm economia pujante e banco central poderoso. Portanto, é ali que talvez exista o refúgio mais garantido com relação às aplicações. Eu não consigo imaginar que outras regiões do mundo poderão manter situação saudável se a situação nos EUA vier de fato a impactar a confiabilidade do dólar. A moeda americana pode ser negociada a um preço mais alto ou mais baixo, mas ela não significa um risco de crédito. E hoje as pessoas não estão buscando rentabilidade e sim proteção. Existe a certeza de que o governo americano tem condições de honrar suas obrigações.

Desde 2002, fala-se em bolha imobiliária. Em 2004, já havia quem tivesse certeza da sua existência, prevendo um estouro. Aconteceu. Como você explica o mundo ser pego de calças curtas? Ainda é muito cedo para dizer quais foram as razões que levaram a essa crise sem precedentes. Provavelmente, a bolha que vem sendo formada é fruto dos juros baixos praticados no mundo nos últimos 10, 20 anos. A economia ficou muito líquida em decorrência das crises pelas quais passou. Mas só a perspectiva histórica vai nos permitir saber há quanto tempo ela vem se formando.

Foi então a estabilidade econômica pelo mundo que gerou a crise? Existe até um livro sobre isso. A estabilidade gera a instabilidade. Faz parte do processo: a excessiva liquidez, dinheiro farto, durante o período de estabilidade, gerou a excessiva instabilidade que estamos vivendo.

Dos juros baixos, que acabaram gerando consumo, crédito barato e liquidez nos países de Primeiro Mundo, veio a instabilidade. Isto quer dizer que o Brasil teve sorte porque pratica juros recordes? Foi por isso que não criamos uma bolha imobiliária? O Brasil aproveitou o cenário favorável de excesso de liquidez. Aumento do preço das commodities, facilidade de acesso a financiamento. Com isso, o País – que também tinha feito sua “lição de casa” – teve um crescimento econômico. Por outro lado, nunca houve excesso de liquidez por aqui. Na verdade, temos um problema até de falta de poupança.

O movimento de aumento de crédito no Brasil começa justamente quando o Primeiro Mundo entra em crise por causa de créditos mal dados. O processo vai estagnar-se por aqui? Até o momento todas as indicações que temos, especialmente no varejo, é que o crédito continua operando normalmente. O endividamento no Brasil é pequeno.

Mas o que vai acontecer? Existem três dimensões do problema. Primeira, é a crise de liquidez. É grave e precisa ser resolvida imediatamente. Os bancos centrais do mundo estão agindo de forma contundente há duas, três semanas, definindo que o sistema precisa, sim, ser sanado, mas também protegido. Segunda: o impacto que essa crise terá gerado na economia mundial. E, terceiro, o impacto que essa crise mundial gerará na economia brasileira.

E que impacto vai gerar no Brasil? Tenho enfatizado que os reais não saem do Brasil. Não viaja. Para cada um que compra dólares, tem de ter alguém que venda dólares. Os reais continuam na economia brasileira. Portanto, não existe qualquer problema de liquidez na economia brasileira em reais.

É salutar então não termos livre mercado de câmbio? Foi inteligente adotarmos o câmbio flutuante. Os reais circulam na economia em lugar de serem esterilizados no Banco Central. Por outro lado, existem alguns canais de comunicação com essa crise externa. Como o crédito em dólar. De fato, existe hoje uma redução grande na disponibilidade de crédito para qualquer empresa ou banco, em qualquer lugar do mundo. Inclusive no Brasil. Está mais difícil fazer operações em dólares. O Brasil tem menos acesso e menos dependência.

E isso gera o quê? São três os canais de ligação com a crise. Primeiro, ela gera redução na capacidade de algumas empresas de se financiarem em dólares por prazos longos. Ainda que marginal – porque a maior parte dos financiamentos aqui são em reais -, ficam mais caros e mais difíceis os financiamentos em dólar. Segundo, por meio do preço das commodities, que tende a cair. E, terceiro, os mercados para os quais o Brasil exporta estarão impactados. Menor volume, menor preço. Esses três canais devem tirar alguma coisa do ritmo em que o Brasil vem crescendo. Não dá para dizer que vamos passar incólume por uma crise dessas proporções. O cenário não é positivo para ninguém.

As pessoas físicas brasileiras vão sofrer com isso? Não necessariamente. Existem dois bolsões de financiamento hoje. O baseado em dólar, que está contaminado, e o baseado em reais, que continua preservado.

A crise está se alastrando pelo mundo inteiro. Rússia, China e Índia mexeram nos seus depósitos compulsórios em virtude da falta liquidez interna. O Brasil ainda não fez nada. O Banco Central está atento a isso? Tem dado demonstrações de preocupação ou dificuldade? Cada caso é um caso. Por aqui, não há nenhum sinal de crise de liquidez. O Banco Central tem acompanhado isso de perto e não há necessidade de agir. É difícil imaginar que o sistema de crédito brasileiro não será impactado pelo que está acontecendo no mercado internacional. Mas isso vai ocorrer em uma dimensão infinitamente menor do que aconteceu por lá. Existe uma tendência para a alta da taxa de juros, mas a economia brasileira não está contaminada agora, graças à prudência com que o BC agiu no começo dessa crise.

Gato várias vezes escaldado não passa nem perto de água fria? O Brasil passou por diversas crises menores, que levaram o País a ficar de joelhos. Mas teve condições para melhorar. Fez um tripé de câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e política firme de combate à inflação, que foi mantido, por mérito do governo, mesmo em épocas mais desfavoráveis. É graças a esse tripé, a crise internacional está tendo pouco impacto sobre o Brasil.

Foi então o receio de passar novamente por isso que fez com que agora estejamos colhendo um melhor resultado? Esta crise acontece no centro do sistema financeiro, que tem forte efeito multiplicador. Por que não existe Cinema Central, Restaurante Central, mas existe Banco Central? Quando um banco tem problema, ele contamina a economia toda. É no banco que está a poupança das pessoas, seus sonhos, seu patrimônio. Portanto, isso tem que ser protegido. Quando dá problema, como agora, nos Estados Unidos, é a sociedade que paga a conta.

E quando quebra uma empresa? O problema é restrito aos fornecedores e funcionários. O efeito multiplicador é menor, por maior que seja a empresa. Já um banco quebrado tem efeito gigantesco. Banco é uma concessão em qualquer lugar do mundo, para cuidar de uma poupança. Por isso, é tão regulamentado e vigiado.

O Alan Greenspan, do Fed, errou? A história vai avaliar qual foi o seu papel. Seja na manutenção de um certo índice de liquidez na economia mundial, seja na questão da regulamentação. O fato é que algo propiciou a criação dessa vulnerabilidade, que está tendo um custo muito grande para a sociedade. É o dinheiro da sociedade que está socorrendo os bancos.

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