‘O que irrita na ira do politicamente correto é a imposição de limites’

‘O que irrita na ira do politicamente correto é a imposição de limites’

Sonia Racy

04 de agosto de 2014 | 01h00

Foto: Iara Morselli/Estadão

Famoso na internet como Jacaré Banguela, ele fala sobre o desafio de se fazer humor atualmente, o medo da celebridade e a vontade de morar na sala de Rafinha Bastos.

O maior problema de São Paulo, na opinião de Rodrigo Fernandes, é o frio. O cuiabano, de 29 anos – há três na cidade – confessa que não há meios de se acostumar. Celebridade na internet (embora não entenda por que a palavra seja usada tão indiscriminadamente nos dias atuais), ele é o criador do site Jacaré Banguela, um dos mais acessados da web, com mais de 3 milhões de views por mês.

E vem aumentando seu leque de opções. Além de fazer stand up comedy pelo País, Rodrigo tem seu próprio talk show (o Jacaré Banguela Fora do Ar, “ao estilo Jimmy Fallon”) e um programa de culinária para quem não sabe nada de culinária (“quer dizer, eu!”).
No Multishow, Rodrigo estreia programa de entrevistas com comediantes (o Queimando a Roda) em setembro; também vem investindo em cinema (“faço um zumbi num longa da Paramount que deve ser lançado no começo do ano que vem”); e acaba de bolar uma websérie chamada Célebre Anônimo – “em que vou morar na sala do meu grande amigo Rafinha Bastos”, explica. Único porém? O titular do Agora É Tarde não está sabendo de nada. Até agora.

O Jacaré falou à coluna ao voltar de viagem ao Nordeste, onde apresentou seu solo de comédia em pé. “Lá faz um calorzinho gostoso!”, derrete-se.

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Como foi vir para SP?

O Rafinha Bastos que me convenceu. Admito que tomei um susto quando cheguei, mesmo vindo do Rio. Quer dizer, já tinha um “susto prévio”, né. Coisa de interiorano, mesmo. Porque nasci em Cuiabá, mas passei boa parte da adolescência em Sinop. Então, ficava temeroso com cidade grande.

Você emplacou o Jacaré Banguela Fora do Ar assim que chegou?

Foi no final de 2011. No começo, era terrível: o som ficou péssimo, o cenário era uma cortina, que mais parecia uma toalha, de tão amassada. (risos) Tenho até certa vergonha. Mas foi ótimo ter feito. Depois, ganhei cenário profissional. E agora estou terminando de gravar uma temporada inteiramente patrocinada, pela Panasonic.

Como é ser considerado uma web-celebridade?

Antes de mais nada, eu acho muito engraçado o uso da palavra ‘celebridade’ para personagens da internet…

Mas hoje em dia qualquer ator ou atriz de segundo time e ex-BBB é celebridade.

Eu sei, mas a palavra significa outra coisa, né? Eu, por exemplo, nunca fiz nada de célebre. Santos Dumont, Albert Einstein e… Jacaré Banguela! Tem alguma coisa errada nesse baú. No meu texto de stand up, eu até comento sobre isso. Digo que ser uma celebridade da internet é como ser o personagem principal de uma novela… da Record. Você sai na rua e ninguém te reconhece. Você é muito famoso para um grupo específico de pessoas. É tipo a rainha da Festa da Uva: na cidade em que o evento acontece ela é uma celebridade; fora de lá, ninguém sabe quem é. (risos)

Acha que o politicamente correto está se tornando um fator complicador na internet, considerada território livre para as mais diferentes e polêmicas opiniões?

Olha, todo dia batem em mim. Não passa um sem que eu leve uma porrada. Acho que o público tem parte da culpa nisso, mas alguns comediantes também têm. Porque o comediante pode falar sobre tudo…

Está acima do bem e do mal, como sugeriu o Roberto Justus ao Danilo Gentili?

Não, não. Como o próprio Danilo respondeu, está entre o bem e o mal, bem no meio. Porque a gente pode fazer uma piada que agrade muitos e desagrade poucos, mas também pode fazer uma piada que desagrade muita gente e agrade poucas pessoas. Costumo comparar com um prédio que cai. Ele foi concebido por um engenheiro, ou seja, é obra de uma estrutura matemática, não deveria cair nunca. Mas, às vezes, acontece. O comediante de stand up, aquele que escreve o próprio texto, corre esse tipo de risco. O politicamente correto é um limitador, e o comediante tem de saber lidar com isso. Porque existe uma barreira entre o que é permitido ou não, socialmente.

O desafio é fazer o espectador perceber um cenário por um novo ângulo?

Sim, e isso é mágico. Coisa que o George Carlin (humorista norte-americano de stand up, morto em 2008) fazia de forma sublime. Ele te levava pelo pensamento dele e apresentava uma nova ideia. Era genial!

E quando isso não acontece?

Aí você é só mais um idiota falando merda!

Hoje não parece haver lugar na TV para se reprisar o programa dos Trapalhões, por exemplo.

Era o negão que bebia o ‘mé’, o cara que ‘camuflava’. O que me deixa mais curioso é que a pessoa tem os limites morais dela e quer impor esses limites aos outros. Como comediante, minha cabeça pensa de uma outra maneira sobre tudo, sobre os acontecimentos, as relações, as pessoas na rua. O que me irrita na ira do politicamente correto é a tentativa de imposição dos limites.

O que você sugere?

Que o cara que não gostou da minha piada pare de me ‘seguir’, pare de assistir ao que eu faço, me deixe em paz. Ou então… que me dê mais uma chance. A próxima piada pode agradar, pode ser boa.

Ao escrever, você se policia?

Em relação à maneira com que vou lidar com certos assuntos, sim. Quando começo a escrever sobre um tema mais polêmico, imagino um caminho que faça com que o público ache graça. Porque certas verdades são muito agressivas, precisam de preparação para se tornarem divertidas.

Qual o maior erro que um comediante pode cometer?

Querer ser uma máquina de agradar as pessoas. Tenho de ser uma máquina de criar piadas. As boas eu mantenho, as ruins, jogo fora.

Já tem algum processo na Justiça no currículo?

Dois. Um por causa de conteúdo na internet; outro por uma piada de stand up. O que me credencia como blogueiro profissional e comediante profissional. Porque se as pessoas estão me levando tão a sério assim… O processo do stand up aconteceu, ironicamente, por causa de um show que fiz em Cuiabá.

Já pode se considerar uma celebridade na terra natal? Uma Rainha da Uva local?

Pois é. (risos) Falei, no meio da apresentação, para um cara sair do armário… Todo mundo riu, foi superengraçado. Uma semana depois, chegou uma intimação lá em casa.

É verdade que você foi sondado para assumir o Agora É Tarde, antes do Rafinha Bastos?

Não, não… eu é que fiz uma brincadeira para tentar me promover. Como conheço muita gente em muitas emissoras de TV, quando surgiu um boato sobre isso – boato de verdade, não o turbinado por mim –, algumas pessoas vieram me cumprimentar. O Otaviano Costa me parabenizou, a Miá Mello, a Eliana, com quem eu trabalho no SBT, o Marcos Mion, Danilo Gentili, Roger, do Ultraje a Rigor. Não havia por que ser mentira. Aí eu dei uma ajudinha, mas não colou (risos). Cheguei a fazer teste para ser locutor do programa, mas acabaram escolhendo o Marcelo Mansfield.

Além do Jacaré Banguela Fora do Ar, o que mais você está aprontando?

Estou produzindo mais uma temporada do Não Fale Com o Motorista, em que entrevisto celebridades – olha a palavra aí de novo! – enquanto dirijo meu carro; e também mais uma série de episódios do Jacaré BanCooking.

Culinária à la Jamie Oliver?

Não exatamente… É para quem não sabe nada de gastronomia. Como eu! O divertido é que, no final, fica gostoso. Eu faço uma trapalhada geral. Quem me ajuda é o Carlos Bertolazzi, que é chef. Em um dos episódios, por exemplo, tenho de refogar alho e cebola. Só que acabo jogando todos os ingredientes na panela. Ele me diz: “Tem de refogar antes!”. E eu: “Hein? Não faço nem ideia do que você está falando!”.

Já tem patrocinador?

Não. É preciso ter coragem para patrocinar esse… (risos)

Você tem investido em cinema também, né?

Tenho feito muitos cursos. Já participei de três longas, dois nacionais e um internacional. São pontas, mesmo. Um deles foi A Estrada do Diabo, do André Moraes; outro foi Apneia, do Mauricio Eça. O terceiro é Escoteiros vs. Zumbis, produção da Paramount que será lançada no começo do ano que vem. Gravei em Los Angeles.

Você faz um escoteiro?

Não, um zumbi. (risos) E tem um projeto de curta-metragem, no fim do ano, que deve rolar lá em L.A. também.

Na TV você está fazendo um quadro no programa da Eliana, no SBT, com apoio do YouTube?

Chama-se Fenômenos do YouTube. É a primeira parceria mundial do YouTube com uma emissora de televisão, uma ideia da Endemol, que vende o formato para outros países comigo nele, acredita? Ou seja, trata-se de um projeto híbrido TV-internet, o que, para mim, é ótimo. E também estou participando de um programa que está para estrear no Multishow, chamado Queimando a Roda. É uma espécie de Roda Viva, mas que só entrevista comediantes. Deve ir ao ar em setembro, e sou um dos entrevistadores.

Quem serão os primeiros entrevistados?

A ordem eu não sei, mas já conversamos com a Pathy dos Reis e o Mederi, ambos do site Galo Frito, o Falcão e o David Brazil.

Quem são seus ídolos como apresentadores?

Pode parecer clichê, mas adoro o Johnny Carson (ícone da TV norte-americana, famoso por seu programa de entrevistas que ficou mais de 30 anos no ar, morto em 2005). Brasileiro adora pagar pau para americano, né? (risos) Atualmente, gosto do Jimmy Fallon, até porque ele tem muito do Carson. Você percebe que os entrevistados adoram estar ali, estão se divertindo com um amigo. E também tenho assistido bastante ao The Graham Norton Show, da BBC. Além deles, o Jô Soares e o Danilo Gentili – que foram minhas referências para começar o Jacaré Banguela Fora do Ar.

Pensa em ter um programa na TV aberta? Ou teme que possam te podar?

Não tenho esse medo, não. Porque sempre dá para pensar fora da caixa. O Marcelo Adnet, por exemplo. Assim que chegou à Globo e foi fazer o Dentista Mascarado, todo mundo achou que ele não funcionava na TV aberta. Bobagem, ele só não se adaptou àquele programa. Agora, com o Marcius Melhem no Tá no Ar, é um sucesso. Porque ele é muito bom! O legal da televisão é a produção, né? Seria ótimo estar na TV aberta, menos na RedeTV!. (risos)

Ainda estão te devendo?

Ainda. Passei cinco meses no Saturday Night Live, com o Rafinha Bastos, e só recebi quatro salários.

Você tem viajado?

Além dos shows pelo Brasil, fui para a Disney (faz cara de espanto). Depois, Nova York (outra cara de espanto). Descobri que posso viajar ainda jovem! Achei que só mais velho fosse conhecer lugares para os quais sempre quis ir. A viagem de que mais gostei foi para Londres, mês passado, onde assisti a um show do Monty Python. Os caras são míticos. Para mim, que sou um comediante em formação, nada poderia ter sido melhor. De lá fui para Amsterdã, provar as especiarias locais… Adorei o brownie, é muito louco! (risos) /DANIEL JAPIASSU

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