‘O que há é uma crise de substância’

‘O que há é uma crise de substância’

Redação

16 de março de 2009 | 06h00

E para vencê-la, Luiz Schwarcz, da Cia. das Letras, aposta numa saída: “transformar contemporâneos em clássicos”.

Janete Longo/AE

EM PAPEL – Schwarcz valoriza “prazeres que desfrutamos devagar”

Enfrentar, com livros, a crise que desarrumou bancos e multinacionais em todo o planeta, não é tarefa fácil. Vencê-la sem abrir mão das raízes e sonhos originais, mais delicado ainda. Uma receita, alerta o editor Luiz Schwarcz, é buscar os “livros de longa duração”. Formas de “transformar o contemporâneo em clássico”. Entender que o livro “é algo pessoal, que você cria ao ler, em que o tato é importante”. O que resulta, nas gôndolas das livrarias, em nomes como Milton Hatoum, José Saramago ou Susan Sontag.

É uma fórmula que ele segue há 20 anos na Companhia das Letras, onde consegue, com uma equipe de 100 pessoas, lançar cerca de 30 títulos por mês. Nesta conversa com a coluna, às vésperas de lançar o novo livro de Chico Buarque, Leite Derramado, ele adverte: “Uma boa literatura não interessa a um só país nem responde a anseios rápidos.” E desconfia de quem aposta demais em best-sellers, “porque isso contraria a própria essência do livro, que é quebrar o tempo e o espaço.”

Como a crise econômica atinge o mercado editorial? E o que faz a Cia. das Letras para se adaptar? O que existe hoje no mundo é uma crise de substância. E tudo que é artificial, que foi inchado sem lastro, vai ter que se acomodar a novas dimensões. Isso vale para qualquer ramo. Na competição de mercado por livros, os leilões começaram a ser muito altos e os preços também. Essa é uma das faces de um capitalismo artificial, em que as empresas procuram se valorizar sem base real. Paga-se mais por um livro do que ele vai render.

Como se sobrevive a esses desafios? Essa mudança é sofrida, mas positiva. No caso dos bens culturais, a substância é ainda mais fundamental. O editor que trabalha com qualidade vai sentir menos. As pessoas não deixarão de ler – mas elas serão seletivas. Para enfrentar a crise, temos uma programação forte com romances em língua portuguesa importantes, como novos livros do Chico Buarque, Bernardo Carvalho e um romance inédito do Saramago.

Há outras formas de enfrentar a crise? Sim, fazendo um trabalho de base. Dar longa duração aos livros, entrando em escolas, transformando o contemporâneo em clássico. Não cair na tentação do sucesso rápido que dura pouco. Lógico que a participação nos leilões de livros é importante. Mas, para nós, é fundamental tornar viva uma obra como a do Jorge Amado ou da Lygia Fagundes Telles. Isso faz com que a editora não fique tão ao sabor dos ventos.

Que tipo de efeitos da crise você já percebeu na editora? Abro o jornal e só vejo notícias sobre a crise. Mas 2008 foi o melhor ano de nossa história, faturamos 30% a mais. Conseguimos uma posição privilegiada nas vendas para as bibliotecas, com a reedição das obras de Jorge Amado, Érico Veríssimo e Vinicius de Moraes, por exemplo. Foi o ano em que tivemos o menor número de livros na lista de mais vendidos, e com o melhor faturamento da história.

E quanto à escolha de não trabalhar com best-sellers? Não há essa escolha. Desde que a Cia. das Letras surgiu nós trabalhamos com livros de longa duração. Não que eu despreze o livro de vida curta, mas tenho menos apreço por ele. Esses títulos contrariam a própria essência do livro, que é quebrar o tempo e o espaço. Uma boa literatura não interessa a um só país ou responde a anseios rápidos.

Mas quando você pensou isso não havia internet… Não existia ainda. Mas o livro não morre com a internet. Um meio atende a anseios imediatos, o outro precisa de tempo, nos ensina a valorizar coisas perenes. Os prazeres que desfrutamos com mais vagar são mais duradouros, nos acompanham pela vida.

E como você enxerga o futuro do livro? As teorias apocalípticas têm sempre seus arautos de plantão. Mas a leitura não vai acabar. Se acabar, espero não estar aqui para presenciar seu féretro. Não acho também que o livro de papel vá ser substituído, por enquanto. Porque ainda é o melhor formato para o desfrute literário. O livro é algo pessoal, que você cria ao ler, em que o tato é importante. As relações que possuem um grau de subjetividade ainda necessitam de algo material. São como as relações pessoais, não dá para imaginar ter uma relação afetiva com alguém sem poder ver , tocar, encostar na pele.

Existem pesquisas para identificar qual livro vai vender mais? Não, não existe fórmula para a literatura. Porque há um componente subjetivo entre autor e leitor – uma química – que só se dá no momento desse encontro. É como uma relação amorosa. Não há editor que consiga prever isso, muito menos uma pesquisa.

Há um grande assédio em torno da Cia.das Letras? Você já foi sondado para vendê-la? O assédio tem acontecido nos últimos anos. Alguns até se tornaram públicos. Mas não surgiu o momento certo para essa decisão. Estou acostumado a trabalhar no modelo atual. É mais prazeroso.

Qual o critério da editora para escolher os títulos? Não acredito que uma editora seja um saco de oportunidades – pelo contrário, uma editora tem vida. O mero caçador de oportunidades não dá personalidade aos livros em conjunto e não cria um vínculo seguro com o leitor. Muitas vezes recusamos títulos que não terão sequência. Um livro se comunica com outro, dentro de uma editora, e esse conjunto forma leitores. Esse é um dos principais critérios desde a fundação da Cia. das Letras. O outro é que um livro bom deve se preocupar tanto com a forma como com o conteúdo, deve ter consistência e ser bem escrito.

Você já passou por alguma situação engraçada com algum autor? Muitas, eu poderia escrever um livro só com isso. Quando eu recebi, em 86 , o Gore Vidal, foi um fiasco completo. Mas acho que aprendi todas as lições. A Susan Sontag gostou tanto da hospitalidade brasileira que até ameaçou se mudar para cá.

Você é um dos idealizadores da Flip. Qual é a importância dela para a cultura do País? Não faço mais parte da sua organização mas acho um evento cultural importante . Porque atrai editores estrangeiros e ajuda a exportar a nossa literatura. Mas, basicamente, aproxima público e escritor de uma maneira muito simpática. É quando esses dois seres solitários, leitor e escritor, se encontram.

E o que você pensa da reforma ortográfica? Não sou mais contra, mas tenho dúvidas se ela dará resultados. Para a literatura é mais custoso do que necessário. É uma discussão antiga sobre a necessidade de fortalecer a língua portuguesa unificando-a. Para fins diplomáticos e de comunicação formal, talvez seja importante. Mas a língua falada e escrita continuará diversa e o sentido das palavras distinto nos vários países. De qualquer maneira, estamos nos adaptando e os novos livros já estão saindo na nova ortografia.

MARILIA NEUSTEIN e SR

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