‘O PÚBLICO DISSE SIM AO MERCADO DE MUSICAIS’

‘O PÚBLICO DISSE SIM AO MERCADO DE MUSICAIS’

Sonia Racy

10 Abril 2011 | 23h00

José Possi Neto fala de New York, New York, do processo criativo e divas

Foto: Denise Andrade/AE

José Possi Neto está com 64 anos, mas mantém gana de principiante ao discorrer sobre projetos e talentos que administra em emaranhada agenda. Numa semana pode tratar sobre ópera, noutra acertar detalhes de show, numa terceira acompanhar audições de dançarinos, e numa quarta negociar vulnerabilidades com Cláudia Raia, com quem montará Cabaret este ano.

Tem sido quase sempre assim na vida desse paulistano do Brás que, em quatro décadas de carreira, já esgrimiu egos como os de Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Beatriz Segall, Simone, Maria Bethânia e da própria irmã, Zizi Possi. “Para não correr riscos, certas pessoas escolhem sistemas de segurança”, afirma ele, quando questionado sobre como afina tantas arestas.

No momento, orquestra 53 profissionais do elenco de New York, New York, musical inspirado no filme homônimo de Martin Scorsese, que tem pré-estreia amanhã. Entre uma prova de roupa, um encaixe de peruca, um acerto de cenário e uma sessão de fotos, ele conversou com a coluna. Aqui, trechos da entrevista.

Por que montar New York, New York?

O espetáculo traz coincidências interessantes. A história se passa na época em que nasci. O filme (que deu origem à peça) estreou em 1977, em Nova York, quando eu morava lá. O (Robert) De Niro era uma novidade, havia acabado de estrelar Taxi Driver e, além disso tudo, eu assisti por lá conferências do Scorsese. Mas se eu disser que o espetáculo é fruto daquela experiência, mentiria. Ele é produto, principalmente, de um universo de filmes, musicais de Hollywood, misturados a elementos de propaganda pró-EUA, que começava a se infiltrar no Brasil.

É difícil dirigir tanta gente?

Me excita mais. Adoro fazer peça profunda com duas personagens ou então com mais de 20. Não gosto é do meio termo.

Qual a diferença?

Geralmente o meio termo tem a ver com histórias realistas, onde não se pode viajar. É claro que já fiz coisas com uns cinco atores que deram prazer, mas penso que o universo dessas peças realistas está cada vez mais próximo da TV que do palco.

Como funciona a mente de uma pessoa que dirige quase ao mesmo tempo ópera, musical, drama, show? De que maneira isso se compartimenta?

Eu me inspiro essencialmente nos meus intérpretes. A maior ideia é sempre o que fazer com o material humano que tenho. Mais do que o texto, o repertório ou o conceito, eles determinam tudo. Paralelo a isso, há todo um universo de fantasia no qual viajo desde a infância. A fantasia era mais importante que brincadeiras. O resultado é que construo metáforas da realidade.

Mesmo numa carreira longa, ainda se surpreende?

Há pessoas pelas quais espero mais. Às vezes a personalidade tem seu talento, mas pode estar com problema emocional ou tem preguiça. Geralmente os que chegam lá têm dificuldades. (nesse momento, Alessandra Maestrini, a protagonista do espetáculo, entra na sala e pede a opinião do diretor sobre um figurino) Essa menina é uma grande comediante. Os grandes comediantes são inteligentes porque não dá para fazer comédia sem inteligência. Ela só acontece quando o criador tem a capacidade de usar uma lente de aumento sobre detalhes da realidade. Tem de ser atento para mostrar o avesso de uma situação e de um conceito. Isso requer timing, intuição e raciocínio rápido.

Por que musicais fazem tanto sucesso? É uma forma de escapismo ou aplacar a realidade?

No meu meio, ouço mais gente reclamar do que gostar de musical. Acham chato. O que impressiona o público de hoje é ver uma nova geração de atores brasileiros que sabe cantar e dançar. Isso é a novidade. Você não sabe a quantidade de gente que aparece em testes. Tivemos de fazer uma pré-seleção entre 900 pessoas! Formou-se uma cultura de musical e esse público foi aumentando.

Então o mercado está no ponto?

Na hora em que havia produto e mercado de trabalho, as pessoas começaram a se preparar em escolas especializadas. Hoje existe um enorme contingente de profissionais que, às vezes, tem até cultura restrita a musicais. O fato é que o público disse sim ao mercado de musicais.

A elite intelectual despreza esse tipo de espetáculo?

Não existe mais elite. Para mim, ela acabou. Nós somos totais esquizofrênicos se ainda falarmos em elite. Por quê? O dinheiro hoje está na mão do emergente. O novo rico agora imita o nobre. O que redimia a elite do poder era a cultura, a capacidade intelectual. Era a “intelligentsia”. Hoje quem tem dinheiro não está nem aí para ela. “Eu pago, eu tenho do jeito que eu quero”, pensam. “E se vou ao teatro, paguei e não posso comentar no celular o que está acontecendo, prefiro ficar em casa”. Depois que surgiu o celular, nem a rainha da Inglaterra é mais fina.

Você diz que cria metáforas. Como fazer isso quando se trabalha com cantores?

A não ser que seja um cantor iniciante, ele já vem com uma identidade. A situação muda quando pego um cantor celebrado. Daí você passa a conviver e entender o universo da pessoa. É um casamento onde meu papel é criar uma moldura. Janis Joplin já dizia que um cantor é um ator que representa sempre o mesmo papel: ele mesmo. Por isso, a extrema vulnerabilidade. Porque se o espectador não gosta, não é de um espetáculo ou de um personagem. Não gosta é do cantor, da pessoa. Na realidade, um dos meus papéis é fazer com que o cantor abandone o pior dele e traga à luz o melhor daquele momento. É um tratamento de psicologia muito sutil.

Como elas se desmontam para você, usa qual artifício?

Para não correr riscos, certas pessoas escolhem sistemas de segurança. Nunca peguei cantora que tivesse atitude de celebridade. Algumas podem até ser seguras musicalmente, mas não com o ato de se expor. Eu fiz só um show com Maria Bethânia, mas foi como se tivesse trabalhado com ela a vida inteira. Uma vez, numa turnê, fomos a Buenos Aires e a chamei para sair à tarde. Na volta, ela me disse: “Bom, Zé Possi, saí para deixá-lo feliz, mas vou lhe dizer uma coisa: você vê que quando chego num hotel exijo a melhor suíte? Parece vaidade, mas não é. O palco é o lugar onde tenho mais medo na vida. Portanto, quando estou trabalhando, não saio, não me distraio, não vou a lugar nenhum. E, para isso, preciso estar no lugar mais confortável possível”. Esse é um exemplo de uma coisa que pode ser confundida com vaidade. Mas não é. A briga é por perfeição, qualidade.

Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Marília Pêra, todos dirigidos por você. Grandes atores são mais difíceis?

Eles têm personagens que os defendem. São vulneráveis, querem o sucesso, mas quando erram é só uma questão de escolha do personagem. Essa é a grande diferença entre eles e os cantores.

Com quem você ainda sonha em trabalhar?

Ute Lemper, uma das cantoras mais interessantes do mundo.

JOÃO LUIZ VIEIRA