‘O problema nem é a Dilma. Estamos vivendo uma desilusão geral no País’

‘O problema nem é a Dilma. Estamos vivendo uma desilusão geral no País’

Sonia Racy

20 Julho 2015 | 01h00

Foto: Iara Morselli/Estadão

“Ator de nova sitcom da Globo critica censura de juiz  a presença de menores em  musical, lamenta as crises do País mas festeja a carreira:   ‘Estou  feliz com meus  personagens’

Marcelo Serrado não gostou nada da decisão de um juiz que proibiu a participação, no musical Memórias de um Gigolô, de dois atores mirins – sob alegação de que na peça aparece a palavra masturbação. Embora esteja num momento feliz – ele estreou ontem a sitcom Tomara Que Caia, na Globo – a proibição da Justiça o deixou indignado. “Não tem nenhuma cena de sexo, nem de beijo, só essa palavra – que, como todos sabemos, qualquer menino de dez anos já sabe o que significa”.

O musical está no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo. Marcelo  é o protagonista, atuando ao lado de Leonardo Miggiorin e Mariana Rios. Em sua avaliação, o juiz do TRT paulista que tomou a decisão sobre os dois meninos “quer é aparecer, acho que ele quer fama”.

O episódio, para ele, é mais uma das coisas tristes que diz ver ao redor.  “Estamos vivendo uma grande desilusão que  passa pelos políticos, pela segurança, tem até os cartolas da CBF…” Num cenário em que a corrupção não sai das manchetes e os partidos se atacam a toda hora, ele se diz contra o governo Dilma Rousseff mas defende a ponderação quando alguém fala em impeachment da presidente – “é preciso ter provas, e estas ainda não apareceram”. E completa:   “O problema de fato nem é a Dilma. Estamos vivendo uma desilusão geral com a política do País”.

Brasil à parte, Marcelo se diz  feliz com seu  atual momento. Sobre o Tomara que Caia, que vai ao ar depois do Fantástico (ao lado dele,  Ricardo Tozzi, Priscila Fantin, Heloísa Périssé e  Eri Johnson, entre outros), o ator conta:  “Gravamos tudo ao vivo e o público interage com a gente. No final são eles que decidem quem fica ou cai”. Como treinamento para a missão, ele faz  improviso em shows de standup comedy. “Acho um ótimo exercício para a vida, me traz mais rapidez e ousadia em cena”. Aos 48 anos, ele comemora tanta atividade: “Estou muito feliz com meus personagens”. A seguir, os melhores momentos da conversa, ocorrida pouco antes de o ator subir ao palco para se tornar o eterno Gigolô do romance de Marcos Rey.

A peça Memórias de um Gigolô perdeu dois atores mirins, um de 10 anos e outro de 13, porque um juiz entendeu que a linguagem do espetáculo não era adequada para menores. O diretor, Miguel Falabella, já se manifestou a respeito na estreia, segunda-feira passada. Qual é a sua opinião sobre o assunto?
O juiz vetou a participação dos atores porque no texto havia a palavra masturbação. Concordo com tudo que o Miguel falou na noite de estreia. Em Saigon tinha crianças, em Nine também. Na maioria dos musicais atuam crianças. Os menores são acompanhados por seus pais, que participam dos ensaios e podem decidir se seus filhos podem ou não atuar. A peça fala sobre um gigolô, mas conta a história de um garoto que é criado em um prostíbulo. Não tem nenhuma cena sexual, nem de beijo, só a palavra masturbação, que qualquer menino de dez anos já sabe o que significa. Os atores não eram crianças de cinco anos. Achei boba essa atitude, um desserviço para a cultura do País.

O SBT também sofreu, do mesmo juiz, censura com os apresentadores mirins do Bom Dia & Cia.
Minha impressão pessoal é que ele quer aparecer. Acho que quer fama.
Você deixaria seus filhos trabalharem antes de fazer 18 anos?

Quero que meus filhos curtam a infância deles ao máximo. Se quiserem ser artistas, poderão ser a partir dos 18.

E se algum deles quiser participar de uma peça antes disso?
Não vai participar. Por uma questão de educação. Meu filho tem que andar de velocípede, jogar bola, estudar.

Já que falamos em jovens, você é a favor da redução da maioridade penal?
Sou totalmente favor. Dizer que um garoto de 16 anos que estupra uma menina não pode responder pelo que fez é um absurdo. Ele sabe exatamente o que faz com 16 anos. Sei que muitos estudantes são contra, mas queria ver, se acontecesse uma tragédia familiar com algum deles, se eles não mudariam de ideia. O que há é muita demagogia.

O Memórias se passa na São Paulo dos anos 1930, período em que a cidade viveu um intenso crescimento industrial, agitações políticas e mudanças culturais profundas. Acha que estamos em uma fase parecida?
Minha percepção é de que estamos vivendo uma das piores crises da história do Brasil. Uma crise de ideologia mas também financeira, das bravas. Uma crise de valores, em um País sem mando. O dólar subiu, os problemas são de ordem política, de segurança, temos até os cartolas da CBF… Pessoas sendo assassinadas andando de bicicleta no Rio de Janeiro. A cultura é afetada, o lazer, tudo é afetado de uma certa maneira. O lado bom é que a imprensa tem ajudado muito a abrir os olhos da população. A liberdade de imprensa nos trouxe muitos benefícios. Hoje ficamos sabendo das coisas que, em outras épocas, talvez não viéssemos a saber. É o que considero um dado positivo do atual momento.

Você chegou a gravar um vídeo de apoio ao movimento Vem Pra Rua na primeira manifestação contra o governo. Vai participar da próxima, dia 16 de agosto?
Não, mas vou apoiar. Acho que o movimento perdeu um pouco a força. As pessoas estão muito descrentes. Em um primeiro momento foi um ato forte, com milhares de pessoas indo para as ruas. Hoje, acho que esse gás está meio apagado, todo mundo meio cansado, muitos se perguntando: “Vai adiantar alguma coisa?”.

Você se sente assim?
Um pouco. Acho que é um sentimento geral. Você percebe que o movimento estava mais forte na primeira vez.

Esse clima o levou, alguma vez, a pensar em deixar o País?
Já, sim. Fiquei muito triste quando aconteceu a morte do ciclista no Rio, sou carioca. Isso mexeu muito comigo. A gente pensa em ir embora, mas não tem jeito, o fato é que eu tenho três filhos para criar e uma vida estabelecida aqui.

É a favor do impeachment da atual presidente?
Sou completamente contra esse governo. Não votei na Dilma, mas acho que para tirá-la é preciso ter provas que a incriminem e estas ainda não existem. O problema, na verdade, nem é a Dilma. Estamos vivendo uma desilusão geral com a política do País.

Quando você deu vida ao Crô – um personagem homossexual – houve ótima aceitação do público. Agora, em 2015, a novela Babilônia não deslanchou na audiência e, ao que tudo indica, colaborou muito para isso o beijo gay entre Fernanda Montenegro e Natália Timberg. Acha que o público mudou de opinião? 
Em Babilônia, o beijo gay aconteceu logo no começo da novela. Não houve um preparo para o público se identificar com as personagens – é o que me parece. Outra coisa que pode ter chocado o público foi ver dois grandes ícones da dramaturgia brasileira, Fernanda Montenegro e Natália Timberg, se beijando.

Mudou sua foto de perfil do Facebook para uma colorida quando o casamento gay foi liberado nos Estados Unidos?
Esqueci de mudar, mas sou totalmente a favor da decisão. Tenho amigos homossexuais, eles frequentam a minha casa, fiquei feliz quando soube da liberação. Espero que o Brasil vá nessa também. Estamos em 2015, não dá pra ter mais esse tipo de preconceito.

O politicamente correto está forte nas redes sociais. Isso lhe parece um sinal de que a população está mais conservadora?
Há, de fato, um preconceito velado nas redes que é perigoso. A internet não tem rosto, as pessoas são agressivas. Temos que tomar cuidado.

Seu último show de standup, É O Que Temos Para Hoje, era uma crítica à relação entre o homem e a internet. Você curte internet, usa as redes sociais?
Uso sim, tenho 700 mil seguidores no Twitter. E tenho Instagram também – um aberto, para os fãs, e um fechado, para os  amigos. Parei de usar internet uma época, porque algumas pessoas faziam comentários agressivos, que irritavam. Hoje lido melhor com isso.

Já chegou a discutir pela rede?
Sim, cheguei a brigar, mandar o cara para aquele lugar, mas hoje não polemizo mais. Quando o cara é grosso, só aperto o botão de bloquear. Depois que descobri o “block” minha vida com a rede ficou maravilhosa. Bloqueio e acabou a discussão.

Usa a internet para divulgar o seu trabalho?
Uso muito, acho que hoje é o melhor meio de se divulgar. O Sérgio Malandro me contou em uma conversa, outro dia, que consegue lotar um teatro só com convites via Facebook.

Você já disse que a sua ida para a Record foi uma virada na carreira de ator. De que maneira?
A Record foi fundamental, lá me deram personagens interessantes e complexos. Na época, a Globo tinha muitos artistas, achei que era um bom momento para mudar de ares. Mas as coisas mudam, e hoje me sinto bem onde estou. Muito realizado, fazendo projetos que realmente me agradam.

Sentiu-se mais valorizado depois dessa passagem artística pela Record?
É aquela história. O cara joga no Corinthians, mas o time está cheio de bons jogadores e ele decide jogar em outro clube com menos gente. Nesse novo ambiente ele se sobressai, e então o clube antigo o chama de volta. Digo isso porque sei de outros artistas que também mudaram de emissora e depois voltaram. O Gabriel Braga Nunes, por exemplo. Dizem que eu e o Gabriel abrimos a porta de sair e voltar. A porta da esperança… (risos). Um bom ator precisa de um bom personagem, independentemente do lugar onde estiver trabalhando.

No seu caso, o Crô foi esse grande personagem? 
Creio que sim. Um personagem marcante e popular de uma novela das oito da Rede Globo muda a vida de um ator. Dei sorte de ter ganhado do Aguinaldo Silva esse presente. Aliás, o fator sorte é determinante na vida de um artista. Estar no lugar certo, na hora certa.

Apesar de não se considerar uma pessoa sorridente (na hora das fotos ele disse que ia ser o mais natural possível, sem sorrisos), a maioria dos seus trabalhos tem uma veia cômica e você atua muito em standups. Como combina isso?
Não me acho um cara engraçado, mas quando estou em cena giro o botão… e vou. Faço muito standup sozinho. Aqui em São Paulo, volta e meia me apresento no Comedians, na Rua Augusta. Acho que esse recurso é um ótimo exercício para a vida, me traz mais rapidez e ousadia quando estou em cena. E isso me ajuda a me sentir despido de qualquer tipo de preconceito, é o Marcelo falando e não um personagem. Como não sou um cara muito extrovertido, isso ajuda muito.

Quando não está atuando, o que gosta de fazer?
Vou para a academia, pratico standup, jogo futevôlei… Ultimamente, tenho jogado bastante tênis.

É geração saúde?
Total. Emagreci três quilos com ajuda da minha nutricionista. Cortei o glúten e a lactose da minha dieta, além de comer superbem no dia a dia. Tomo água com limão quente de manhã e cortei o suco de laranja do café da manhã, só tomo a tarde, depois de malhar. Mas, quando estou em São Paulo, engordo um pouco com as cantinas… /SOFIA PATSCH