“O PROBLEMA DO PAÍS É QUE ELE NÃO PLANEJA”

“O PROBLEMA DO PAÍS É QUE ELE NÃO PLANEJA”

Sonia Racy

18 de junho de 2012 | 10h32

Como muitos, Roberto Klabin não esta nada otimista em relação à Rio+20

Ele poderia se restringir em ser empresário. Mas o sócio e conselheiro de um dos maiores grupos de papel e celulose do Brasil – o Grupo Klabin-, e também ex-acionista da Metal Leve, optou por trilhar o caminho da natureza com dedicação e afinco há mais de três décadas ao participar da fundação da Oikos, uma ONG que não mais existe. E desde então, o verde tem sido seu foco.

Pouco antes de embarcar para a Rio+20, semana passada, Roberto Klabin conversou com a coluna no Hotel Unique, em São Paulo. E falou sobre os desafios de um País que quer ser grande, “mas parece não ter projeto definido”.

Defende um mundo melhor e investe, até pessoalmente, em seus projetos. “Minha maior riqueza é o tempo que tenho para dedicar ao que faço”, insiste. Aos 56 anos, é presidente da SOS Mata Atlântica, membro do conselho consultivo da Conservation International do Brasil, da Rede Nacional de Combate do Tráfico de Animais Silvestres e do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade.

Advogado formado pela São Francisco, com especialização em administração de empresas pelo Mackenzie, Klabin viu nascer a preocupação pelo ambientalismo em 1977, ao ser convidado por Fabio Feldmann para cerrar fileiras contra a construção de um aeroporto internacional de São Paulo em Caucaia do Alto. “Eu não tinha a noção exata do que aquilo significava”, explica. O certo é que a ecologia e a causa do desenvolvimento sustentável ganhavam um de seus mais ardorosos defensores.

Aqui vão os principais trechos da conversa.

Como é ser ambientalista e também latifundiário, pecuarista e dono de uma empresa de papel e celulose? Não é uma contradição?

Olha, me enchem um pouco. Aliás, sempre me encheram. No começo, os ambientalistas não acreditavam em mim. E meus parceiros me olhavam estranho. Era considerado excêntrico.

E hoje?

Hoje, eles olham pra mim e dizem “é, tudo bem…” (risos).

A morte do seu pai mudou os rumos da sua vida?

Eu queria ter sido piloto da Varig . É verdade, tirei brevê e tudo. Mas meu pai morreu muito jovem, eu tinha 23 anos. Aí, tive de me envolver com os negócios da família.

Quando começou o seu interesse pelo ambientalismo?

Em 1977, ainda na faculdade de Direito, fui convidado pelo Fabio Feldmann para lutar contra a construção do aeroporto internacional de São Paulo em Caucaia do Alto. A partir dali, me vi envolvido numa nascente luta ambiental, direitos humanos, qualidade de vida. Junto com o Fabio e outros amigos, fundei a Oikos, uma ONG de defesa ambiental – que lutou, inclusive, contra a poluição de Cubatão. Depois, em 1986, fundamos a SOS Mata Atlântica.

Nessa época você já era presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo?

Foi um tempo em que eu sofri de ilusão patriótica. Sabe aquela ilusão de que você vai mudar o mundo? Pois é. Mas o serviço público tem especificidades com as quais nem todo mundo está preparado para conviver. Senti que aquele não era o meu lugar e voltei para a questão ambiental. Aí fui convidado pelo Rodrigo Mesquita, segundo presidente da SOS Mata Atlântica, para dirigir a entidade. Foi pouco antes da Eco-92.

E o instituto SOS Pantanal?

É um projeto que me dá muito prazer. Afinal, sou pantaneiro também! Passamos oito meses em expedições pelo Pantanal, catalogando boas práticas de ecologia. Vamos apresentar os resultados desse estudo em agosto. E queremos também criar uma rádio na região, para difundir essas informações. Isso estimula as pessoas pelo lado positivo. É o contrário do que vemos o governo fazer, sempre apelando para multas, punições, controle.

Como é seu relacionamento com outros donos de terra que não têm consciência ambiental?

Muita gente me acha ingênuo, bobo, mas não estou preocupado com isso, não. Também tem gente que me diz: “Você falava sobre essas questões ambientais há trinta e tantos anos… e estava certo!”. Olha, eu nunca fui um intelectual da causa, apenas achava que era importante lutar pela qualidade de vida. Queria mostrar que a variável ambiental tinha de ser considerada. E que as pessoas tinham de fazer alguma coisa a respeito. Sem eco-histeria. Sem querer salvar o planeta. Isso é uma bobagem, o planeta não está nem aí pra gente. Ele se recupera da nossa ação muito facilmente, mas nossa qualidade de vida – através das nossas ações – depaupera o planeta e dificulta a nossa existência.

Você já disse que considera os ruralistas radicais. Tem esperança de que eles mudem?

É inevitável. Mas levará uns 30 anos. Toda essa gente vai querer esquecer o que fez agora. O homem do campo é tradicional, não gosta de mudança. Desde sempre. No tempo em que a religião católica começou a se desenvolver, por exemplo, era muito mais fácil evangelizar na cidade do que no campo.

E como evangelizar o ruralista nessa questão?

Mostrando que o meio ambiente é um aliado, não um ônus.

Era mesmo o caso de fazer um novo Código Florestal?

Era o caso de modernizar o Código, trazer instrumentos de apoio e incentivo ao produtor. Para substituir o conceito de penalização pelo não cumprimento das leis por u conceito de incentivo ao cumprimento. O único objetivo desse novo Código foi resolver o problema da dívida das pessoas.

O fato de o setor agropecuário responder por uma fatia grande do PIB complica a questão?

Ninguém de bom senso é contra o agronegócio, nós temos de incentivar essa vantagem competitiva brasileira. Mas a gente é, antes disso, uma potência ambiental. E esta é uma vantagem comparativa que precisamos tornar competitiva. E como se faz isso? Inserindo o ambientalismo na produção rural. Queremos aumentar a produtividade, incentivar o uso da tecnologia, mas levando em consideração os custos ambientais. Por exemplo, o novo Código aprovou uma ocupação maior dos manguezais. Para quê? Todo mundo sabe que isso é danoso, que os manguezais são berçários dos mares.

Qual a solução?

A economia verde. Temos de trazer as questões ambientais e sociais para a discussão. E precificá-las. Fazer com que o consumidor possa escolher: “Prefiro comprar esse produto, cuja cadeia de produção é mais responsável socialmente, é menos danosa ao ambiente”.

Falta incentivo do governo?

O governo não entende o valor desse caminho. Está desesperado por desenvolver o País, mas com aquela mentalidade do século passado: desenvolver a qualquer custo. Para isso, ele flexibiliza licenciamentos, prefere não se indispor com grupos radicais de sua base.

Como o Brasil chega à Rio+20?

Depois do capítulo do Código Florestal? Diminuído. E sujeito a críticas, porque será criticado. O grande problema do País é que ele não planeja. Que eu saiba, nenhuma política neste País funciona. Preferimos atacar questões de forma pontual. Não temos visão completa do processo. Por isso, não enxergamos a vantagem comparativa ambiental. Vemos como um problema, coisa de gente chata.

Há pessoas que se sentem imobilizadas quando deparam com um grande problema.

Concordo. “Ah, como não faço diferença, prefiro não participar”. Sou radicalmente contra essa visão. Se posso resolver um pedacinho do problema, por menor que seja, vou trabalhar para isso. É o conceito “pense global, atue local”. É preciso ter coragem para fazer diferença!

Na sua opinião, que ministros do Meio Ambiente fizeram mais diferença?

Desde o José Lutzenberger? Porque a gente tem de admitir que o Collor fez muito pelo meio ambiente… O Zequinha Sarney foi um excelente ministro. A Marina foi ótima. O Minc, do jeito doido dele (risos), também fez muitas coisas acontecerem. Só que, agora, o ministério perdeu o protagonismo. Acho que a Dilma tem um jeito de comandar muito centralizador. E o ministro do Meio Ambiente tem de ter o juízo de saber que não pode ter juízo. Você tem, algumas vezes, de correr riscos, de fazer coisas que o presidente não aceita. Mas eu sou um otimista incorrigiível em relação ao Brasil. Lá na frente, todos esses que estão atacando o ambientalismo serão ambientalistas (risos). Porque não tem jeito, todos os caminhos levam a isso.

O psicanalista holandês Manfred Kets de Vries diz que todo CEO precisa de um bobo da corte por perto, para lhe dizer o que ele não quer ouvir. A Dilma está precisando de um?

Eu não chamaria de bobo da corte, mas de uma pessoa que não precisa do cargo. Assim como você tem em conselhos de administração de empresas. É aquele sujeito que está ali, colocado por acionistas minoritários, para falar o que acha melhor para a companhia. O problema é que não tem ninguém peitando. Reconheço na Dilma uma imensa capacidade, mas também percebo que ela não vê prioridade nessa área ambiental.

É otimista quanto à Rio+20?

De concreto, acho não vai sair nada. Mesmo assim, esses encontros são muito importantes, porque geram pressão, expõem o reacionarismo de alguns países.

O que vai fazer no Rio?

Inaugurar a Exposição Itinerante do Cidadão Atuante e uma campanha chamada Nosso Verde Também Depende do Azul. É sobre o estado dos oceanos. A SOS Mata Atlântica está muito preocupada com isso.

Pretende ficar por lá até o final do encontro?

Não, não. Mas estarei no Rio no dia 20, para participar de manifestações.

Na rua, ativamente?

Com certeza. Só assim é que é bom. /DANIEL JAPIASSU

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