O PRIMEIRO LUGAR NO PÓDIO NINGUÉM ESQUECE

O PRIMEIRO LUGAR NO PÓDIO NINGUÉM ESQUECE

Sonia Racy

05 de setembro de 2010 | 23h00

Ao comemorar 40 anos da sua inédita vitória na F1, Emerson Fittipaldi fala sobre ética nas pistas, tecnologia e a chegada do seu sétimo filho

EmersonOK

Emerson Fittipaldi não usa agenda. Faz questão de memorizar todos os seus compromissos. Ele atualmente faz contagem regressiva para comemorar, em outubro, mais um feito na sua carreira: os 40 anos da sua primeira vitória na Fórmula 1, em Watkins Glen, no GP dos Estados Unidos. Até então nenhum brasileiro tinha chegado ao topo do pódio na categoria.

Como parte da festa, Rato – apelido que ganhou ainda na época do kart – se prepara para acelerar novamente, minutos antes do GP Brasil, em Interlagos, a mesma Lotus 72 que o ajudou a cruzar a linha de chegada. “Depois da minha vitória, o Brasil continuou vencendo, com Piquet, Ayrton, Rubinho e Massa“, lembra o bicampeão da F1.

Enquanto a comemoração não acontece, Emerson tenta conciliar suas atividades de empresário com a de orientador da carreira do neto Pietro, de apenas 14 anos, que começa a correr, nos EUA, nas categorias inferiores da Nascar. “É emocionante ver aquele toquinho acelerando um carro de 500 cavalos”, conta. Fora das pistas, o ex-piloto se divide entre as atividades de produtor de laranja, em Araraquara, interior de São Paulo, a construção de uma usina de etanol – parceria com o banco BVA e o pecuarista José Carlos Bumlai –, em MS, e a participação em um shopping em Miami.

A homenagem em Interlagos, porém, não é a única coisa que Emerson espera com ansiedade para os próximos meses. Ele aguarda também a chegada de seu sétimo filho, o segundo com sua mulher Rossana. “É mais uma bênção na minha vida”, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual é o balanço que você faz ao olhar para trás e ver que já se passaram 40 anos desde a sua primeira vitória na F1?

É tudo muito rápido, eu estive há pouco tempo em Watkins Glen, onde venci pela primeira vez, e comecei a lembrar dos detalhes da maioria das corridas que participei. As mais importantes diferenças em relação àquela época estão ligadas ao quesito segurança. Entre 1970 e 74, por exemplo, morreram, em média, três pilotos por ano. Era um absurdo. Hoje em dia os equipamentos de segurança melhoram tanto que o último acidente fatal na F1 foi o do Ayrton, em 94. As pistas também ganharam ajustes, os carros ficaram mais sólidos, com o uso da fibra de carbono, e os assessórios dos pilotos também se tornaram mais eficientes. E olha que o índice de acidentes atualmente é muito maior do que no passado.

E a eletrônica?

Muita gente fala que a eletrônica faz a diferença na hora de decidir uma prova. Para mim, ajuda, mas ainda quem perde ou ganha uma corrida é o piloto. Os simuladores auxiliam os novatos a ganhar experiência. Eles entram no circuito sabendo a sequência das curvas e as marchas que vão usar, mas isso não é suficiente. É preciso ter talento para vencer uma prova. O melhor exemplo disso é o que está acontecendo este ano com o Sebastian Vettel, da Red Bull. Ele já se apavorou duas ou três vezes, cometeu erros graves, enquanto o seu companheiro de equipe, o Mark Webber, está 28 pontos na sua frente no campeonato. É piloto quem ganha ou perde um GP.

Está faltando talento para um brasileiro conquistar novamente um campeonato?

De jeito nenhum. O Felipe (Massa) por muito pouco não foi campeão em 2008. O Rubinho teve carro e também poderia ter conquistado o mundial. Eles são grandes talentos, além de andarem muito rápido. O piloto brasileiro hoje é respeitado no mundo todo como o jogador de futebol. Para vencer um campeonato, piloto e carro precisam ser constantes durante toda a temporada. Nada é por acaso.

Seu neto Pietro leva jeito para ser campeão na F1?

É um caminho ainda muito longo (risos). O Pietro está com 14 anos e escolheu um rumo diferente. Quer correr na Nascar, a categoria nº1 nos EUA. Compete há sete anos e está passando por tudo que um piloto precisa passar. Já ganhou e perdeu muitas corridas. É inédito um brasileiro começar a carreira pela Nascar. Ele está numa categoria para adolescentes até 17 anos. Mesmo assim, pilotam carros com motor de 500 cavalos. É muita coisa, até eu quero guiar um carro desses. Mas até o Pietro chegar ao topo da Nascar ainda demora uns três ou quatro anos. O momento é de apoiar e não de cobrar resultados.

Como é voltar às pistas para ser comissário nas provas da F1?

Pista é paixão. Quando o Jean Todt, da FIA, me convidou, eu disse que, se pudesse, gostaria de fazer todos os GPs. Só participarei de dois. Estive no Canadá, em junho, e no próximo domingo irei para o GP da Itália, em Monza. É uma delícia.

Como comissário, qual é a sua opinião sobre o episódio em que o Massa cedeu a liderança para o Alonso no GP da Alemanha?

A decisão da Ferrari foi anti-esportiva e antiética. Não faz parte do mundo da F1. Mas historicamente, desde a época do Chico Landi, nos anos 50, as equipes sempre privilegiam o piloto que tem maior chance de vencer o campeonato. Não da forma como aconteceu no GP da Alemanha. Existem outras maneiras de favorecer, dando um melhor motor ou suspensão. Isso é normal.

Quais são os avanços que os carros de corrida podem trazer para os veículos de passeio nos próximos anos?

O que se busca hoje é o máximo de potência do motor com baixo consumo de combustível. Se a eficiência for maior, a poluição será menor. Para isso é preciso reduzir o peso do carro, sem perder a resistência. É aí que entra a fibra de carbono, que hoje está nos chassis dos carros de corrida. Essa transição até as ruas demora, mas um dia chega. A tendência no futuro são veículos menores, mais leves e econômicos. Existe também a expectativa do carro elétrico, mas a indústria ainda tentar solucionar os problemas de autonomia para grandes distâncias e reabastecimento.

Os carros de alto desempenho têm espaço no mundo de hoje?

São modelos que são feitos para quem é apaixonado por carro. Eles no futuro terão motores ainda mais potentes, com melhor aerodinâmica, estabilidade e acabamento refinado. O Aston Martin, lançado recentemente no Brasil, veio para atender esse tipo de público.

Você é movido pela velocidade, mas aparenta temperamento tranquilo. Qual é o segredo?

Procuro manter o corpo, a mente e o espírito em equilíbrio. Também tenho muita fé. A presença de Deus na minha família é muito forte. Há 15 anos frequento a igreja Batista. Quem segue o que está escrito no evangelho tem uma vida muito melhor.

É isso que o encoraja a ser pai novamente?

É meu sétimo filho (risos). Um bebê em casa é uma coisa divina. A gente se renova. Quase todos os meus filhos estão adultos e encaminhados na vida. O único que ainda é pequeno e mora comigo é o Emerson, de três anos e meio. A gravidez da Rossana é mais uma vez um presente, entre tantos, que ganhei de Deus.

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