“Poder da fotografia está mais forte que nunca”, diz ganhador do Pulitzer

“Poder da fotografia está mais forte que nunca”, diz ganhador do Pulitzer

Sonia Racy

26 de março de 2019 | 00h58

John Moore/Getty Images

O fotógrafo John Moore fez uma breve passagem pelo Brasil. A convite da Getty Images, o ganhador do Pulitzer e autor da emblemática foto da menina hondurenha aos prantos vendo sua mãe sendo presa na fronteira dos EUA, falou à coluna sobre os desafios do fotojornalismo atual.

Qual foi o seu maior desafio na cobertura?
Existiram tantos grandes desafios ao longo dos anos. Eu diria que ter acesso a histórias exclusivas continua a ser um verdadeiro desafio. Há muitos bons fotógrafos no mundo, pessoas realmente talentosas que podem fazer belas fotografias. Nem todos, no entanto, sabem como pesquisar adequadamente uma história, estabelecer e cultivar contato com os “porteiros” que têm autoridade para permitir que o fotógrafo tenha acesso a lugares onde possam fazer imagens importantes e que contam histórias. Em termos da foto Girl Crying in the Border, trabalhei durante anos para conseguir esse acesso com os agentes da Patrulha da Fronteira dos EUA, o que me permitiu estar exatamente no lugar certo, naquela noite escura, ao longo da fronteira EUA-México, para tirar essa foto.

Qual foi a fotografia mais importante da sua carreira?

Certamente essa imagem da criança no ano passado teve um impacto de longo alcance. A Getty Images tem uma pesquisa de dados que mostra que ela foi realmente vista pela maioria das pessoas em todo o mundo. Esse é um número chocante de pessoas que evidencia que o poder da fotografia está mais forte do que nunca. As imagens da crise do ebola na África Ocidental em 2014 receberam muita atenção e ajudaram a trazer uma resposta médica internacional para impedir a propagação da doença. Em 2007, fotografei o assassinato de Benazir Bhutto no Paquistão e esse foi um momento histórico importante. As minhas fotos da Guerra do Iraque de 2004 fizeram parte de uma série que mostrou a futilidade e a tragédia dessa guerra. Essas fotos receberam o Prêmio Pulitzer. Tive a sorte de testemunhar muitos momentos históricos.

E a situação que mais o emocionou e sensibilizou?
Em 2007, no Cemitério Nacional de Arlington, perto de Washington, nos EUA, eu conheci e depois fotografei uma jovem que estava de luto pela morte de seu noivo, que havia morrido meses antes, enquanto lutava como soldado americano no Iraque. Na foto, ela estava esticada na grama, deitada sobre seu corpo enterrado, sussurrando na pedra de mármore, como se ainda tivesse muito a dizer. Essa imagem sempre estará dentro de mim e eu sempre sentirei isso.

Existem limites éticos para o registro fotográfico?
Sempre tento me comunicar em um nível pessoal com as pessoas que estou fotografando. Quero que elas sintam que estão participando ativamente da minha cobertura fotográfica, que eu as respeito e saibam que tentarei fotografá-las com dignidade. A maioria dos melhores fotojornalistas que conheço trabalha desse jeito, mas outros não. Quando as pessoas sentem que sou honesto na minha forma de contar a história, elas me permitem entrar em suas vidas mesmo nos momentos mais difíceis.

O que mudou na vida dos fotógrafos com as redes sociais?
As redes sociais distribuem a fotografia para um grande número de pessoas em um curto período de tempo. Isso significa que fotojornalistas precisam ser extremamente precisos em suas fotos e nas legendas. No ambiente altamente politizado em que vivemos, fotógrafos podem esperar que, se suas fotos forem fortes e tiverem conteúdo emocional, certamente serão vistas por lentes políticas. Não há como controlarmos isso, mas temos que separar um tempo para garantir que nosso trabalho está honesto e preciso. Ocasionalmente a legitimidade do nosso trabalho será questionada, mesmo quando ela é verdadeira, mas se as fotos recebem boas legendas, o fotógrafo está em terreno seguro. / MARILIA NEUSTEIN