‘O pior do politicamente correto é que ele se traveste de opinião pública’

‘O pior do politicamente correto é que ele se traveste de opinião pública’

Sonia Racy

05 Janeiro 2015 | 01h00

 

Comemorando o bom ano de seu The Noite, o humorista Danilo Gentili fala sobre patrulha online e suas apostas para 2015: filme, livro e até um jogo de tabuleiro sobre stand up.

PAULO GIANDALIA/ESTADÃO

PAULO GIANDALIA/ESTADÃO

Com agenda cheia este ano e a missão de se manter na briga pela audiência – seu talk-show The Noite, no SBT, tem batido os 5 pontos e incomodado o Programa do Jô desde a estreia, em março do ano passado –, Danilo Gentili só sente falta de tempo. Tempo para escrever mais stand up. Nem ao Comedians, clube de humor do qual é sócio em SP, tem conseguido ir (“e o pessoal vem me cobrando, mas prefiro não aparecer a fazer um espetáculo ruim”).

Desde que o sucesso bateu à sua porta, quando integrou a primeira equipe do programa CQC, na TV Bandeirantes, ele não sai do noticiário. Nem sempre da forma como gostaria. “Acho que a frase do Tom Jobim é perfeita: ‘sucesso, no Brasil, é ofensa pessoal’”. Ele se refere aos patrulheiros do politicamente correto, que, jura, aprendeu a combater tanto na telinha quanto nas redes sociais. “Eles não representam a opinião pública, como, muitas vezes, tem-se a impressão”, afirma.

Aos 35 anos, o humorista, que iniciou a carreira se apresentando em bares e teatros de sua Santo André natal, quer continuar polêmico e aposta na conversa franca em seu programa de TV: “É isso que as pessoas querem, diversão e sinceridade”. Sinceridade que ganhará, este ano, um filme, um livro e um jogo de tabuleiro (“é um party game baseado em stand up, se chamará O Rei da Comédia”).

Após gravar o especial de Natal do The Noite (ele se considera um “cristão monoteísta freelancer”), Danilo recebeu a coluna em seu camarim. A seguir, os melhores momentos do bate-papo.

Você está pensando em alguma mudança no The Noite para 2015?

Acho que o grande desafio de um talk-show desse gênero, que é diário, com uma plataforma amigável, com sofá e skyline atrás, não é ele se inovar fisicamente, mas conseguir se manter fresco e interessante através dos anos. Mudar muito seria uma traição ao público, creio. Ele está acostumado, e eu também adoro esse cenário. Haverá uma reforminha ou outra, mas não vou inventar a roda. Teremos, claro, quadros novos, alguns que já estavam planejados, mas acabaram não sendo aproveitados. O mais importante é que vamos investir em bons entrevistados.

Como legítimo representante da comédia stand up, você teve de se policiar quando passou a trabalhar na TV aberta?

Não, até porque não tinha nada a perder, né? Era uma opção que eu poderia ter seguido, mas não aconteceu. Em Santo André, onde eu comecei, ganhava a vida me apresentando em bares e teatros – que é o que eu realmente gosto de fazer. Ou seja, quando fui para a TV, mais precisamente para o CQC, pensava que o máximo que poderia acontecer era dar errado.  

Não pensava em criar uma fórmula para um novo ambiente?

Sinceramente, não. Tentava apenas falar. E crescer. Tentei manter minha liberdade. Por isso, aqui no The Noite eu luto pela liberdade da equipe que se apresenta comigo. 

Tem tido tempo de escrever para stand up?

Não, e isso me chateia. Faz muito tempo que não faço. Porque não aguento, mesmo. Boa parte do meu tempo é dedicada à produção do The Noite. Acaba me faltando tempo para ser criativo fora do programa, sobra só o bagaço para o stand up. Aí prefiro não fazer.

Teme que o público te cobre a mesma performance que se acostumou a ver no Comedians?

Exato, porque minha associação com o stand up é muito forte. Por isso não quero que ninguém me veja fazendo stand up ruim. Se voltar a fazer, quero que seja algo em que realmente acredito.  

Apresentar um talk show é mais fácil ou mais difícil do que você imaginava?

O mais difícil foi convencer as pessoas de que podia dar certo. Levou uns quatro anos para acreditarem em mim… (risos)

Por que tanto tempo?

Acho que porque não havia concorrência. O Jô Soares ficou 20 anos sozinho no ar. Ouvi de tudo: que o Jô era mais inteligente, mais bem relacionado, mais culto, fala mais idiomas do que eu.  

Tem entrevistado proibido no seu programa, por você ou pela produção?

De jeito nenhum. Eu até gosto quando vem gente de que eu não gosto! (risos) A polêmica e o conflito podem ser mais interessantes ainda para o programa. Em 2014, a gente entrevistou Luciana Genro, Aloysio Nunes, Levy Fidelix… a gama é extensa, e o sofá tem de ser eclético. Falamos com a ex-mulher do Fernando Collor (hoje Rosane Malta). Em uma mesma semana vieram aqui o padre Fábio de Melo e os vencedores do Prêmio da Indústria Pornô 2014. 

Mas o fato de você ter opiniões fortes, sobretudo políticas, não atrapalha na interação com alguns entrevistados?

Por mais que eu tenha as minhas opiniões, e esteja acostumado a divulgá-las nas redes sociais, aqui eu não faço isso, para preservar o formato do The Noite. Aqui é entretenimento, tento sempre privilegiar o entretenimento.  

Está difícil fazer humor por causa do politicamente correto?

Na primeira vez em que aconteceu, me senti muito mal. Porque a primeira coisa que a patrulha do politicamente correto faz é se travestir de opinião pública. Isso acontece em todas as áreas. A mais corriqueira é a propaganda. Vamos pegar um anúncio com a Gisele Bündchen, por exemplo. Pois dez patrulheiras se reúnem e passam o dia inteiro ligando para o Conar para reclamar. E o Conar “conclui” que as mulheres do Brasil estão muito ofendidas com o anúncio da Gisele Bündchen. Só que não é verdade, não tem ninguém ofendido. O problema é que a patrulha é muito organizada. 

Hoje você ainda fica na defensiva ou aprendeu a lidar?

Na primeira vez, fiquei pensando: “Meu Deus, que cagada que eu fiz! E agora? Todo mundo me odeia…”. Bom, continuei fazendo meu show, e a fila para entrar dava volta no quarteirão. E não era gente querendo me bater. (risos) Percebi que todo mundo que começa a ganhar alguma projeção, como era o meu caso na época, isso faz uns cinco anos, se torna alvo do patrulhamento, acaba no jornal.  

Acha que se consideram guardiãs de uma agenda política? 

E tentam colocar todo mundo dentro da caixinha delas. Demora para você perceber isso, mas, depois que você percebe, não se intimida mais. Porque esses patrulheiros não representam, de maneira nenhuma, a opinião das pessoas. As pessoas são muito mais bem-humoradas do que se supõe, muito mais inteligentes.  

O Tom Jobim costumava dizer que, “no Brasil, sucesso é uma ofensa pessoal”. Concorda?

Essa frase tem tudo a ver com o que a gente está falando: quando um grupelho tenta se apropriar do seu sucesso e te usar como espantalho. Se você está de acordo com a cartilha ideológica desse grupelho, se torna cool, legal, tudo que você fala passa a ser correto. Agora, se você não está de acordo, é burro, xucro, atrasado, popularesco, é tudo de ruim. Você vê isso em todo lugar. Mas o público em geral não é assim, não se ofende com o seu sucesso, muito pelo contrário, vejo muito carinho, muita torcida. 

Acha que os públicos de stand up, TV e cinema são diferentes? Algum é mais sofisticado?

Não, é o mesmo público. É um pessoal que gosta de humor. Eu sei disso porque eu sou esse público. Sempre que me meti a fazer qualquer projeto, me coloquei no lugar do público. Eu gosto de humor, e ele pode estar em qualquer lugar. 

Tem algo previsto para cinema em 2015?

No segundo semestre começa a gravação de Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola, baseado em um livro meu. 

Fora o Roberto Bolaños, de quem você é fã declarado, quem são os seus ídolos no humor?

Nossa, adoro Chaves e Chapolim, acho o Chespirito (apelido de Bolaños, que significa pequeno Shakespeare) o máximo! Mas, quando você começa a trabalhar com humor, tende a se afastar dos comediantes que fazem a sua cabeça. A gente tem muito medo de replicar os outros, imitar trejeitos, métodos. Por isso, não tenho ídolos. 

Já fez alguma piada da qual tenha se arrependido depois?

Todas as que não fizeram o público rir são a prova de que eu errei. Mas entendi o que você quis dizer… Às vezes, a gente passa do ponto. O problema é que criamos piadas o tempo todo, então, a margem de erro é muito alta. É assim mesmo para quem trabalha com humor autoral. O stand up é muito baseado em tentativa e erro. De cada 30 piadas que escrevo, umas 5 se salvam, o resto vai para o lixo. Ainda vou errar muito, pode apostar. 

Essa margem de erro aumentou com as redes sociais?

O problema das redes sociais é que elas potencializam tudo, inclusive, e principalmente, os seus erros. Aí os patrulheiros fazem a festa, dá até a impressão de que você só sabe fazer aquele tipo de piada ‘errada’.  

Como é o seu relacionamento com as redes sociais?

Costumo responder aos meus fãs e seguidores. Com o passar do tempo, fui aprendendo a separar o joio do trigo no mundo virtual. Todo mundo tem direito de não achar graça de uma piada, de se ofender, de dar opinião. Mas, depois de bastante tempo levando pedrada, já consigo saber se a pedra está partindo de um fã que realmente não gostou daquela piada (e quer que você volte a acertar), se veio de uma pessoa comum que não gostou ou se veio de um patrulheiro, para quem não faz diferença se a piada é boa ou ruim. Aliás, isso que eu estou dizendo será tema de um livro que vou publicar em 2015, o Guia Politicamente Incorreto do Humor Brasileiro. 

Do que se trata?

Estou fazendo um apanhado de casos como esses que comentei, comparando-os e evidenciando o que acontece. Sou um cara que faz piada de tudo: de mim, da minha mãe, de padre, de pastor, de crente, da esquerda, da direita… Ou seja, sei exatamente quais são os temas tabus no Brasil. Quando entendi isso, entendi também quem são os patrulheiros. Quando descobri quem são os patrulheiros, percebi porque estão fazendo isso.  

Você bloqueia gente nas redes sociais?

Se percebo que é patrulheiro, bloqueio. Porque é um cara que está me seguindo com o intuito único de usar minha piada contra mim. 

Tem vontade de fazer um show stand up Politicamente Incorreto 2?

Tentei fazer e não consegui. Estava nos meus planos para a reta final das eleições à presidência. Mas tive dois problemas: primeiro, o ritmo de trabalho, uma loucura; segundo, porque, diferentemente do primeiro show, em que eu me divertia escrevendo as piadas, dessa vez fiquei mal. Não tinha vontade de rir, mas de xingar!  

O que te irrita no Brasil?

O que me deixa agoniado não é governo corrupto e roubalheira, porque isso acontece nas melhores famílias. Estou no Brasil, me espantaria se não acontecesse. O que me agonia é perceber a simpatia do mainstream em relação ao que está acontecendo. As pessoas que deveriam estar evidenciando os fatos são as que estão aliviando. O espaço na grande mídia anda muito ocupado por simpatizantes da situação. Em qualquer lugar normal, se um governo é corrupto, está todo mundo batendo nele. Mas aqui tem muita gente aliviando, e isso me angustia. É um mau sinal. /DANIEL JAPIASSU