“O perverso está próximo do carismático”

Redação

06 de outubro de 2008 | 01h09

O psicanalista lacaniano Jorge Forbes coloca a eleição de São Paulo no divã

O sex-appeal dos políticos mora nos detalhes: a firmeza algo masculina de Marta, os olhos grandes de Kassab, a serenidade cristã de Geraldo. Mas também é nos detalhes que residem as armadilhas da imagem de cada um. Às vezes é difícil, quase impossível, explicar por que gostamos ou odiamos certos políticos. Foi em busca de um olhar subjetivo sobre os personagens no atual tabuleiro político paulistano que a coluna entrevistou o psicanalista Jorge Forbes, presidente do Instituto de Psicanálise Lacaniana. As ponderações feitas aqui não têm, claro, valor científico. Mas, sem dúvida, são bem mais reveladoras que o horário eleitoral gratuito.

O que atrai e o que repele em cada um dos candidatos de São Paulo? Vamos começar com a Marta. A Marta erra ao não preservar o seu lado feminino na política. Ela é da linhagem de Margaret Thatcher, Hillary Clinton e Condoleezza Rice, que reproduzem o comportamento masculino no poder. Diferente de Sarah Palin (vice do candidato John McCain), que faz política de forma feminina. Nada me encanta em relação ao pensamento dela, mas como mulher ela é fantástica. É a primeira líder do mundo moderno que não quer ser um homem.

Mas isso das mulheres assumirem, na política, uma personalidade masculina deu certo até hoje. A Marta é uma das últimas representantes de um feminismo que vai acabar, mas que ainda funciona. Seu presente é retrógrado e seu passado foi de vanguarda. Ela rompeu barreiras, abriu espaços. Quando prefeita teve coragem de se separar de um senador para casar…

Com um argentino… (risos) Brincadeiras à parte, ela teve nesse episódio um lado feminino muito legal, apreciável e que as pessoas acham bacana. Mas o exercício da política dela é masculino, de confronto. A Marta, como política, é um homem.

Em debates, a mulher candidata fica mais à vontade para bater, já que não pode apanhar? No debate da Record, por exemplo, quando o Maluf bateu na Marta, ninguém ficou com pena dela. Se fosse uma Sarah Palin…

E o Alckmin? Ele atrai por ser a continuidade de um grande líder carismático que foi Mario Covas. E também por ser visto como uma pessoa muito honesta e respeitosa da lei, da família e da moral. A religiosidade dele acalma as pessoas. Por outro lado, o Alckmin acredita no discurso asséptico e insensível: “Eu sou médico, conheço a dor do povo…” O eleitor não quer um médico que conheça a sua dor, porque a dor que o médico conhece é filtrada. Alckmin passa uma racionalidade sem afeto. Uma certeza insípida. O Alckmin é um chuchu, mas a gente conhece. Ninguém vai ter problema gástrico com chuchu (risos, muitos risos). Ele é o candidato de quem não quer passar mal.

O que o eleitor vê no Kassab? Lealdade. Isso é uma coisa séria na globalização. Ele foi amigo e deu continuidade à gestão do Serra. Respeitou alguém de outro partido. Além disso, Kassab tem um fazer muito decidido e, ao mesmo tempo, um jeito mais sensível que o do Alckmin. Apesar de ser muito tímido, tem uma personalidade que mistura decisão com um estilo low profile. O lado negativo é que Kassab não é um grande líder e não tem grandes projetos.

Ele passa a imagem de simpático? O boneco ‘kassabinho’ foi muito explorado na campanha. É difícil as pessoas sentirem empatia pelo Kassab. Ele é muito certinho… Por outro lado, há nele uma coisa infantil muito forte. Kassab tem cara limpa de menino grande, com olhos de curiosidade para o mundo.

E a Soninha? Ela pode vir a ser uma líder, mas ainda não é. Ainda está muito hippie. Quem vota nela, vota no não-político.

O Maluf parece ter sete vidas. Ele é muito, muito carismático. Deu um banho no último debate da Record. Maluf passa uma certeza interior muito grande, livre de qualquer julgamento. Ele se coloca em uma área de não-constrangimento, que fascina as pessoas.

Ivan Valente? Ele se posiciona como arauto da desgraça. A ética dele é a do medo. Com aquela cara fechada de corvo, de quem acha que o trágico é sério, não merece ser candidato.

Qual a diferença entre quem vota branco e nulo? O branco é indiferença, e o nulo, protesto.

É possível transformar a Dilma, conhecida como dama de ferro, em uma pessoa sensível? É possível até certo ponto, porque há resistência do material (risos).

O futebol usa o trabalho de psiquiatras e psicólogos em momentos difíceis. Políticos também? Quem trabalha com candidatos tem que estudar muita psicanálise, semiótica e lingüística para poder entender as reações das pessoas.

Os eleitores se viciam nos políticos ou votam por inércia? No mundo da imagem, a pessoa conhecida, por mais que seja ruim, leva vantagem sobre a desconhecida. É o caso do dono do Bahamas. É o conhecimento da imagem, independentemente do motivo.

E qual a explicação para certos candidatos com ficha suja, que foram presos e condenados, ainda contarem com eleitores tão fiéis? Alguns políticos, por pior que sejam seus currículos, fazem você se movimentar na cadeira e interromper a conversa. São os perversos ou os carismáticos. Existe uma proximidade muito grande entre eles.

Como diferenciar perversos de carismáticos? É complicado. O Lula evidentemente é um ser carismático. Mas outros políticos são perversos e geram um efeito carismático. Certos candidatos, que pelo bom senso jamais poderiam ser eleitos, têm voto porque se colocam em uma área de não-constrangimento que fascina as pessoas. De onde vem essa certeza? Imputam a uma ligação divina, quando, muitas vezes, a ligação é perversa.

O povo elegeria, hoje, o Cacareco? Não, a graça mudou de lugar. Para que eleger rinocerontes se temos Enéas à disposição? Quem quer algo ridículo não precisa mais procurar no zoológico.

Quando alguém da sua área fica famoso, isso ajuda ou atrapalha? O paciente gosta? A pergunta é legítima porque, em um certo momento da história da psicanálise, pensou-se que quanto menos a pessoa conhecesse seu analista, menos ela estaria “impregnada”. Era como se a proximidade atrapalhasse a liberdade de o paciente se expressar. Isso veio da escola inglesa e gerou uma série de rituais. O analista mal podia dar a mão ao paciente, tinha que usar terno cinza, não podia ter fotografias no consultório e o divã tinha que ficar virado para a porta. Lacan contestou tudo isso nos anos 50, dizendo que se tratava de “imaginarização”. O fato de você saber mais detalhes da vida de uma pessoa não quer dizer que conheça seu íntimo…

PEDRO VENCESLAU e S.R.

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