‘O passado nunca passa. Mas, no caso da ditadura, é preciso um esforço’

‘O passado nunca passa. Mas, no caso da ditadura, é preciso um esforço’

Sonia Racy

31 de março de 2014 | 01h02

Cacá Diegues (Foto: Renata Magalhães)

Nos 50 anos do golpe de 1964, Cacá Diegues escreve livro de memórias e diz: ‘Não se pode esquecer o que aconteceu, mas não é preciso reproduzir o que já nos fez tanto mal’

Há quase cinquenta anos, a Cidade Luz o acolheu quando, na companhia da cantora Nara Leão, então sua mulher, Cacá Diegues fugiu da ditadura militar no País. Pois ele acaba de desembarcar outra vez na França, onde participa da 16ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris. Na bagagem, seu documentário Rio de Fé – Um Encontro com Papa Francisco, sobre a 28ª Jornada Mundial da Juventude, que reuniu, ano passado, cerca de 3,7 milhões de jovens de todo o mundo no Rio. O filme, que foi lançado no Brasil apenas em DVD, será exibido na telona do festival, no domingo, dia 6.

São muitas as lembranças da juventude e militância dos anos 1960, em que foi presidente do diretório acadêmico da Faculdade de Direito da PUC-RJ; fez parte do grupo que se juntou ao Centro Popular de Cultura (CPC); em que esteve no Comício da Central, às vésperas do golpe; e participou da Passeata dos Cem Mil, já sob a ditadura. Mas ele quer deixar essas recordações no passado. “Não podemos nos esquecer nunca do que aconteceu naquela época, durante a ditadura. Mas não precisamos reproduzir o que já nos fez tanto mal, reencenando as velhas disputas, reproduzindo o ambiente de violência moral e concreta que caracterizou o período.” E vai além: “Nossos filhos precisam viver em paz, não são responsáveis pelos crimes do passado, nem foram vítimas diretas deles”.

Mas o reencontro com a história é inevitável. Há cinco anos, Cacá decidiu mergulhar em seu passado para escrever um livro de memórias (“não é propriamente uma biografia”, costuma dizer) sobre sua trajetória e o surgimento do Cinema Novo também nos anos 1960 – o que define como “a melhor e mais importante experiência” de sua vida. Às vésperas de completar 74 anos, o cineasta – diretor de filmes como A Grande Cidade e Bye Bye Brasil – acaba de entregar os originais à Editora Objetiva, para que a obra seja lançada ainda este ano.

Antes de voltar ao País para se dedicar à noite de autógrafos, Cacá segue de Paris direto para Lisboa, onde filma grande parte de O Grande Circo Místico, seu próximo longa – inspirado no poema de Jorge de Lima, que conta a história de uma família circense no decorrer de 100 anos.

A seguir, os melhores momentos da troca de e-mails entre o cineasta e a coluna.

Como vê o Brasil hoje, 50 anos depois do golpe de 1964?

Não sou otimista nem pessimista, a euforia e a depressão são duas faces da mesma moeda histórica. Mas tenho esperança, acredito que podemos ir mais longe, apesar de todas as dificuldades. A partir do governo Itamar Franco, vivemos 18 anos de liberdade democrática, progresso social e econômico, uma melhor distribuição de renda etc. Ainda há muito o que fazer em saúde, educação, saneamento, como todo mundo sabe. Mas negar o avanço é absurdo. Quem viveu os anos de ditadura sabe o que estou dizendo. Isso, sim, não pode acontecer nunca mais neste País.

Qual análise você faz do País no momento em que o exército ocupa as favelas no Rio?

As UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) são a política mais positiva já implantada em relação à questão das favelas brasileiras. Nas comunidades onde elas já estão instaladas, caíram verticalmente os índices de homicídio e outros crimes. A população ficou livre do sequestro social representado pelos traficantes de drogas. Fico perplexo ao ver o egoísmo eleitoral dos políticos cariocas que não reconhecem isso.

Como assim?

O programa merecia que governo e oposição se unissem para defendê-lo. E isso é necessário, porque a simples presença da polícia não muda a vida daquelas pessoas. Elas precisam também de saúde, educação, hospitais, saneamento básico. E tantas outras coisas a que têm direito, como qualquer outro cidadão do País. As UPPs são apenas um começo indispensável, uma porta aberta para a cidadania. Só falta entrarmos para valer.

O ministro da Defesa, Celso Amorim, afirmou que as Forças Armadas de hoje “não têm nada a ver” com a ditadura militar e que o Estado brasileiro, “de certa maneira, pediu desculpas” ao pagar indenizações a vítimas do regime. O que acha?

Repito que o que aconteceu no Brasil da ditadura não pode nunca mais acontecer. A partir daquele 31 de março de 1964, vivemos uma longa noite autoritária de exílios, prisões, torturas e mortes, a maior parte das vezes decretados por simples crimes de opinião. Hoje, as condições são outras. Estamos consolidando nossa democracia e não acho que devamos demonizar as Forças Armadas.

Qual é o caminho?

As instituições mudam, seus líderes não são mais os mesmos e nossos militares de hoje não me parecem estar pensando em golpes ou coisa parecida. O pior do passado é que ele nunca passa de todo. Mas, nesse caso, especificamente, temos de fazer um esforço para construir a confiança mútua entre os cidadãos brasileiros de diferentes ofícios, armados ou não.

Você já afirmou não ser a favor das indenizações. Continua pensando assim?

Não culpo ninguém por requisitar ou aceitar indenizações, mas eu não aceitaria. A resistência à ditadura não foi um investimento financeiro que estamos resgatando agora. Foi uma decisão política, ideológica e moral de cada um em seus diferentes níveis. Mas não considero criminoso aceitar uma indenização, cada um sabe o quanto a ditadura prejudicou seu trabalho, além de destruir sua vida.

Alguns militares estão decidindo falar. Por outro lado, há um certo receio daqueles que foram perseguidos. Como é, para você, falar do que viveu naquela época?

Muito angustiante. Acho que não podemos nos esquecer nunca do que aconteceu naquela época, durante a ditadura. Mas não precisamos reencenar as velhas disputas, reproduzir o ambiente de violência moral e concreta que caracterizou o período. Nossos filhos precisam viver em paz, eles não são responsáveis pelos crimes do passado, nem foram vítimas diretas deles. Repito: não podemos nos esquecer, mas não precisamos reproduzir o que já nos fez tanto mal.

Ainda há direita e esquerda?

Direita e esquerda, como as conhecemos desde a Revolução Francesa, são classificações que não fazem mais sentido num mundo fragmentário como o de hoje. Nos anos 1960, nunca pensei que o século 21 fosse conhecer a volta das guerras religiosas. O governo venezuelano se declara de esquerda e bolivariano, mas o próprio Marx considerava Bolívar um aventureiro sem escrúpulos e escreveu sobre isso. Não são as ideias fixas e abrangentes que fazem o mundo avançar, mas, sim, a aceitação de cada caso como único, a incorporação do acaso e dos fatos concretos ao nosso pensamento.

Vai ou não vai ter Copa?

Vai, sim. O desacerto das autoridades com a gastança de estádios no meio do nada, os exageros financeiros e culturais exigidos pela Fifa e seu neocolonialismo não têm nada a ver com o nosso amor pelo futebol, nosso desejo de ver a seleção campeã em casa. Eu tinha 10 anos de idade quando vi o Brasil perder para o Uruguai no Maracanã, em 1950. Estou doido para assistir a uma revanche daquela tragédia.

Onde você espera estar durante o Mundial?

Vou estar em casa, diante da minha televisão, vendo o maior número possível de jogos do Brasil.

Estamos em ano de eleição. Já decidiu em quem votará?

Já tenho idade para não precisar votar, não sou mais obrigado a isso e não me preocupo mais com isso. A idade me trouxe também um certo fastio disso tudo. Mas não acho que essa deva ser a regra, todo mundo deve escolher, defender e votar em seu candidato. O voto é uma homenagem à democracia e à civilização. /THAIS ARBEX

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