O NATAL NÃO NASCEU NA MACY’S, NASCEU EM BELÉM

O NATAL NÃO NASCEU NA MACY’S, NASCEU EM BELÉM

Sonia Racy

24 de dezembro de 2010 | 23h00

Depois de muitos telefonemas, torpedos e e-mails, Papai Noel nos concedeu a entrevista abaixo lembrando que Maktub quer dizer “está escrito”. E a cabalá diz que a gente é quem escreve o que irá acontecer.

O bom velhinho está um pouco estressado e exausto neste ano. Cansou de pedir juízo ambiental em relação ao planeta, cansou de pregar a paz no Oriente Médio, cansou de pedir aos congressistas americanos que votem a favor do plano de saúde de Obama, cansou de ser alvo de especulações pedindo inclusão maciça de produtos/presentes em listas de exportações para melhorar o equilíbrio cambial.

Cansou também de rezar, aqui no Brasil, para que contas fiscais caibam dentro do Estado. Só milagre mesmo. Noel faz este pedido há mais de 500 anos. Por último, desce hoje na casa de Silvio de Abreu para tentar arrancar do autor de Passione quem matou Saulo e Eugênio Gouveia. Mais fácil os outros pedidos acima acontecerem. Aqui, trechos da entrevista.

Papai Noel, o senhor existe?

Sim. O melhor texto em minha defesa foi feito no século 19 e se chama Yes, Virginia, there is a Santa Claus (http://en.wikipedia.org/wiki/Yes,_Virginia,_there_is_a_Santa_Claus).

Por que todos dizem que não?

Mentira. Eles falam que não acreditam, mas me mandam cartinhas, inclusive meninos e meninas mais velhos. Eles têm vergonha de acreditar, mas acreditam.

O senhor achou que 2010 foi um bom ano para encher seu saco de presentes?

Quando a vida fica dura, as pessoas lembram mais de mim. Na prosperidade, acham que tudo vem do planeta Terra. E nas dificuldades ficam mais espiritualizados. Acreditam que parte das coisas que vão conquistar vem do céu. Mas não me enchem o saco. Eu é que encho o saco delas. Amo a humanidade por profissão.

Qual o presente mais caro que tem aí dentro?

São aqueles que você não compra com o Mastercard, porque não tem preço: amor, felicidade, amigos, saúde. São os presentes que as pessoas mais pedem. Mas isso não é comigo, nesse departamento quem manda é Deus.

O senhor espera receber algo? Algum terráqueo lhe deu algum presente? Qual?

O que eu gosto de receber é carta, mas as pessoas podem me mandar e-mail ou SMS. Eu sou um velhinho bem conectado. Meu modelo de negócio é bem interessante. Sou tipo a Natura, distribuição porta a porta. A criança escreve para mim. Daí eu e o pai lemos. Por meio do espírito de Natal, o pai abre o bolso e o coração. Ele compra o presente via internet e eu faço a entrega na porta. Como o pai sabe que fui eu quem o inspirou, ele me dá o crédito de presente e diz: “Filho, olha o que Papai Noel deixou para você!”. Esse modelo de negócio é campeão. Foi bolado por Jim Collins, Jorge Paulo Lemann, Jorge Gerdau e Vicente Falconi. Meus aviões andavam improdutivos, procurei esses rapazes e eles me colocaram na Endeavor. Com gestão profissional, vivo sonho grande de criança.

O que o senhor reservou de especial para o mundo?

Vou dar de presente ao planeta Terra uma solução mundial no câmbio. Porque com isso mais bem resolvido, as pessoas poderão trocar mais presentes no Natal ou em qualquer época.

E para o meio ambiente?

Esse assunto é importante para mim. Lembre- se que moro no Polo Norte. Os homens têm que cuidar do futuro, ele é o melhor presente que se pode dar às crianças.

O Brasil merece prêmio pelo trato ao meio ambiente?

Sim. O Brasil é líder mundial em preservação. Poucos países desenvolvidos têm feito o que os brasileiros fazem. A Amazônia está mais protegida e a legislação ambiental é uma das mais rigorosas do mundo. Claro que temos muito o que fazer, afinal não existe Natal sem árvores, lembra?

A Dilma venceu as eleições. O que ela ganha do senhor?

Eu já dei o presente da Dilma: o netinho dela. Ele será muito importante para a presidenta, afinal, refrescará a cuca da avó naqueles momentos de estresse.

O que Lula pediu ao senhor, Papai Noel?

Para Lula ter o descanso que merece, darei uma bela rede. Mas tenho certeza que não ficará parado. No máximo, uns três meses. Ele não é homem de pedir muito. Não pede presente. Só pede futuro.

Para os perdedores da eleição, Serra e Marina, reservou algo que os console?

Serra e Marina não perderam nada. A democracia é que ganhou. O Brasil é um dos países que mais cresce, com imprensa livre e Congresso aberto. Os candidatos exerceram de maneira exuberante o papel democrático.

Já pensou em deixar esta coisa chata, ser Papai Noel ad eterno, e se candidatar à presidência de algum país? Qual seria?

Jamais. Eu estou nesse cargo há bem mais de cem anos. Sou de todos os povos, países, crenças e idades. Minha atividade é suprapartidária.

O Brasil vai ganhar o quê?

A Copa e as Olimpíadas.

O Obama mandou carta pedindo alguma coisa?

Obama me pediu para aprovar o novo sistema de saúde. Mas isso não é presente, é milagre. Ele vai ter que falar com Deus.

De quem o senhor gosta mais: de Obama ou de Clinton? Sobre Bush, nem ouso perguntar.

Eu gosto mais do Clinton. E vou dar novos tacos de golfe para o presidente. Você precisa ver: quando ele joga golfe vira um menino. E acredita que é um grande golfista.

O Ahmadinejad se manifestou?

Minha filha, a única coisa que eu quero e posso dar para o Oriente Médio é paz.

Shimon Peres afirma que o senhor não existe. Como pretende desmenti-lo? Olha Papai Noel, o senhor tem poder de persuasão. Se convencê-lo a acreditar, ele ganhará o que?

Não importa se Shimon Peres não acredita em mim. Eu acredito nele. Como em todas as pessoas, e todos árabes e judeus que querem paz. Quem tem paz não precisa de presente.

São Paulo ganhou Alckmin de volta. Que mais o senhor reservou para os paulistas?

São Paulo tem que dar saltos à frente. Ousar mais, inovar e continuar sendo o Estado que inspira o País. E isso não cai do céu, e nem é assunto para Papai Noel.

O Rio leva outro Beltrame?

Beltrame é um homem de bem. Tem o cargo mais difícil que existe, mas está resolvendo a situação. Peço aos cariocas que rezem por ele. Compreensão, apoio e torcida são o que ele mais merece.

E para Beltrame, além de paz, o que o secretário de Segurança carioca ganhará?

Deve ganhar bonecas, bolas, bicicletas, patins. Porque com o trabalho que ele está fazendo, as crianças poderão brincar mais nas ruas, sem medo e com paz.

A Bahia, a meu ver, é o Estado mais bonito do Brasil. Do que ele mais precisa, em sua opinião?

A Bahia é uma terra sensacional, tolerante, democrática. O governador nasceu no Rio e é judeu. Mas mesmo assim, ele me pede presentes e também confesso que é bem chegado ao candomblé. Como eu.

A Copa vem aí. Qual seria sua escalação se ela se desse hoje?

A escalação de 1970.

O filho do polvo Paul tá aí no seu saco? Dá ele para mim?

Claro que está. Tem gente que não diz o presente que quer e eu tenho que adivinhar. Aí eu consulto o filho do polvo Paul, Paul Jr. Por isso, não posso lhe dar o meu indispensável oráculo.

Ronaldo estará na Seleção?

Isso é com o Mano Menezes. Mas o fenômeno já entrou para a história. Ele merece ganhar tudo. Menos, peso.

Mano Menezes terá que ganhar presente bom. Algo à prestação até 2014?

O presente que eu estou mandando para Mano Menezes é a paciência de Jó.

Para Ricardo Teixeira, da CBF, o melhor presente seriam aeroportos pelo Brasil. Acha que isto será possível?

Fundamentais os aeroportos. Eu viajo de charrete. Preciso de lugar para pousar.

Para as empresas aéreas, vai presentear com o quê?

Não vão ganhar presente. Elas devem levar umas palmadinhas do Governo e do consumidor. Ainda bem que eu tenho um transporte próprio. Se eu dependesse delas, ninguém iria receber presente de Natal. Ou chegaria atrasado.

O senhor acredita em Deus?

Óbvio. Foi ele quem me criou. Mas não estou autorizado a falar mais nada. Deus, a gente não explica, sente.

E em São Jorge, acredita?

É claro. Nos dias de hoje, em que as pessoas estão tão descrentes, acreditar é um ato de rebeldia e vanguarda. Eu só não gosto muito de ver São Jorge matando o dragão, porque isso pode magoar a China, que adora o animal.

Sei lá, Painho – posso chamá-lo assim? Estou angustiada. Jesus existiu mesmo? Ele nasceu só para a gente ter um Natal bonito?

Jesus existiu mesmo, posso confirmar. Sem ele, Papai Noel existir seria ridículo. O Natal não nasceu na Macy’s, nasceu em Belém.

Na cabalá, somos Maktub. Traduz isto por favor….

A cabalá é fonte inesgotável de sabedoria. O saber não é privilégio dos países ricos. Vem de todos os lugares e muitas vezes de onde menos se espera. Maktub quer dizer “está escrito”. A cabala diz que a gente é quem escreve o que acontecerá.

Dizem que Maomé era feio. Sabe alguma coisa sobre isto?

Impossível o grande profeta ter sido feio. Mesmo que não fosse fisicamente belo, seu interior e força moral fizeram dele alguém acima disso. Beleza é para nós. O profeta não é humano, é um homem dos céus.

Acredita em fantasmas? Caso a resposta seja sim, qual gostaria de encontrar?

Não acredito. Eles são coisas mortas que às vezes rondam nossas vidas. O fantasma da inflação, do terrorismo, da violência, da solidão. São coisas mortas ou prestes a morrer. Não podemos deixá-las assustar as nossas vidas.

Qual sua superstição?

Como eu tenho viajado muito para a China, eu estou vidrado no número 888. Tudo meu agora é com 8.

Silvio Santos foi mal este ano. Tadinho. Tem que dar um presente bem bom pra ele. Qual vai ser?

Que ele venda bem seu banco e tudo que ele tem, a não ser a TV. E volte a ser o Silvio Santos querido que eu assisto até do Polo Norte.

Só aqui, cá entre nós. Eu não conto para ninguém. O Brasil tem jeito?

O Brasil está no jeito. Melhor a cada temporada desses 16 últimos anos. O País tem avançado muito. E está feliz. Eu sei pelas milhares de cartas que recebo entra ano sai ano.

PARA SER O PAPAI NOEL DESTE ANO, A COLUNA CONVIDOU NIZAN GUANAES, DA AGÊNCIA AFRICA.

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