‘O mundo enveredou por caminho popular’, diz Erasmo Carlos sobre sucessos atuais da música

‘O mundo enveredou por caminho popular’, diz Erasmo Carlos sobre sucessos atuais da música

Marcela Paes

07 de março de 2022 | 02h00

O cantor Erasmo Carlos Foto: Guto Costa

Entre as preocupações de Erasmo Carlos – que incluem o futuro do planeta, do País e, principalmente, da juventude – não está a opinião dos outros sobre ele. Com o disco O Futuro Pertence À… Jovem Guarda recém-lançado, o músico conta à repórter Marcela Paes que gostaria de alcançar os jovens e que quer passar uma mensagem, mesmo que as pessoas não estejam “nem aí”.

“As pessoas querem dançar e rebolar, mas é minha obrigação, minha contribuição”, diz o cantor, que promete álbum de inéditas daqui a dois anos. Leia abaixo a entrevista completa, feita por videoconferência.

Por que fazer um álbum de releituras? A pandemia trouxe nostalgia?
Não, eu quis homenagear a frase “O Futuro Pertence à Jovem Guarda”. Quem é a jovem guarda? São as novas gerações, os bebezinhos que estão nascendo agora e que vão fazer o futuro melhor do que o que está aí. Ninguém está satisfeito com o País nem com o mundo do jeito que está. Nós não estamos cumprindo nossa obrigação, não estamos dando educação nem saúde para que os jovens cresçam com um futuro bonito, com amor.

É assim que vê o Brasil neste momento?
Quando eu protesto falo em termos gerais, em termos da humanidade. Morro sem entender por que é que a ciência constrói por um lado e destrói pelo outro, morro sem entender por que é que o homem já pisou na Lua mas não sabe do monstro do lago Ness. Uso o humor para falar a verdade. Eu sei que as pessoas não estão nem aí, as pessoas querem dançar, cantar e rebolar, então ninguém está a fim de ouvir essas mensagens, mas é a minha obrigação, a minha contribuição. Se todos contribuíssem, o mundo estaria melhor.

A carreira da Anitta vem crescendo no exterior. Outro exemplo é o sucesso do Alok, com muitos ouvintes internacionais nos streamings. O que acha da música que exportamos atualmente?
As tendências populares do mundo enveredaram pelo caminho do entretenimento, da dança, do descompromisso e do carnaval, sabe? O funk pra mim é um carnaval. Você se solta, rebola, fala o que quer, fala palavrão e se liberta. É uma coisa completamente diferente dos anos 1960, onde valiam harmonia, a melodia da música, aquela coisa que arrepia, que faz chorar e desperta sentimentos. É isso, o mundo enveredou por um caminho mais popular.

Crê que não há um grande espaço para o tipo de música que você faz?
Esse outro caminho existe, ele apenas não tem chance de ser mostrado. As televisões não mostram, as rádios não tocam. Eles dão preferência a esse carnaval, a essa música completamente descompromissada com o puro propósito de entreter as pessoas. Na pandemia eu aprendi a fazer playlists e estou descobrindo muitas coisas novas. Estou maravilhado e vivo arrepiado pelas músicas o dia inteiro. Estou armazenando coisas pra lançar meu próximo trabalho autoral daqui a uns dois anos mais ou menos.

Você acha que fazer releituras de sucessos pode fazer com que o público mais jovem entre em contato com o seu trabalho?
A proposta para minha sobrevivência é essa, sabe (risos)? Sou um cara que procura ser atuante, sou antenado e sei de quase tudo. Posso não saber da notícia, mas sei da manchete. Se o jovem vir algo agora ele pode, sim, ir atrás de coisas que eu fiz no passado e assim eu ganho um novo fã. A minha tendência é essa, continuar atuando, sempre me mostrando. Jesus Cristo, eu estou aqui. Se a pessoa nunca ouviu o antigo, para ela aquilo é novo.

Seu disco “Carlos, Erasmo” é hoje considerado pela crítica um dos melhores álbuns da música brasileira . Sente que esse reconhecimento acabou sendo, digamos, um pouco tardio?
A imprensa acha, mas eu gosto mais do Erasmo Carlos e Os Tremendões. Nunca liguei muito para isso. Podem falar mal ou bem de mim, não ligo. Faço minha música do jeito que eu sinto. O meu universo é muito particular, sou muito entregue à música, à minha casa, à minha mulher, Fernanda, e à minha família. Não quero saber o que os outros acham de mim.

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